110 anos de História dos paços do concelho de Viseu
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Olá, seja muito bem-vindo. Esta é a história das histórias. Hoje, como eu lhe prometi ontem, vamos ter uma grande homenagem a um grande edifício e estamos à espera do Jorge Adolfo Marques, historiador e professor, que entrou numa publicação que tem a ver com ele, uma publicação sobre este edifício que vamos falar e que, estamos em 2016, vai celebrar os seus 110 anos, não é, Jorge? Bem-vindo. Vamos a isso.
Olá, João Paulo. Sim, em 2016, o edifício dos Passos do Conselho de Viseu fez um século.
Exato.
Por essa ocasião, foi lançado um livro sobre o próprio edifício.
Um livro lindíssimo, diga-se de passagem.
Uma homenagem.
Muito bem ilustrado. O texto é teu, é?
Não só meu, mas também da doutora Odete Paiva, que é a atual diretora do Museu Nacional de Grão Vasco. E nós havemos ter a oportunidade de falar muito do Museu Grão Vasco. Enfim, temos falado indiretamente do museu por várias razões, por vários contributos artísticos que se encontram lá.
Exatamente, claro. É inevitável.
O pintor Gata, o próprio Grão Vasco.
Além de ser um monumento nacional, o próprio museu tem muitos tesouros nacionais também.
Claro.
Importante.
Sim, claro.
Muito bem. Então vamos falar dos Passos do Conselho.
Nessa ocasião, lançámos esse livro, que procurava fazer um retrato desse edifício, que hoje é um edifício central na cidade. É um edifício central porque ali é mesmo o centro da cidade. E é um edifício que foi construído ao longo de muitos anos. Este ano faz 110 anos. É um edifício que é construído numa área da cidade, que era o Massurim, Quintas de Massurim, Convento de Santo António de Massurim, porque ali ao lado do edifício. Quem conhece Viseu, seguramente já esteve no Rossio. E no Rossio está a Câmara Municipal. É uma praça muito agradável, com umas tílias que têm um cheirinho muito agradável no verão. E dali partem uma série de artérias que foram abertas, foram rasgadas, precisamente a partir de um plano, que foi aprovado numa reunião de Câmara em 1876. No dia 24 de maio de 1876, a Câmara Municipal de Viseu aprovou a construção de um novo edifício dos Passos do Conselho. Mas por quê? Porque o edifício, que era a Câmara, tinha ardido. Tinha ardido em 1796, repare-se. Tinha ardido já há muito tempo. Portanto, nós temos 80 anos a separar, praticamente, o incêndio que houve no velho edifício dos Passos do Conselho, cuja localização era na chamada Praça, era o nome, praça, que hoje é a Praça de Dom Duarte, onde está erigida uma estátua ao rei Dom Duarte.
Que era a antiga Luís de Camões. Era essa praça?
Antiga Luís de Camões, sim.
Pronto, já até falámos dela também.
Importa dizer que o Dom Duarte nasceu em Viseu. E portanto, essa praça era o centro da cidade. A cidade desenvolvia-se em torno dessa praça e da Rua Direita. Esse edifício ardeu em 1796.
Então Viseu esteve 80 anos sem edifício da Câmara.
Exato. E desde 1796 até à construção dos novos Passos do Conselho, a Câmara Municipal que hoje existe, no Rossio, essas décadas, os serviços da Câmara, os funcionários da Câmara, andaram de um lado pro outro em casas arrendadas ou em espaços que iam sendo cedidos para Câmara Municipal. Andaram ali durante oito décadas, de um lado pro outro. E, data importante, data histórica, é que nessa reunião de Câmara, em 1876, faz este ano 150 anos. Isso é também uma data redonda. Faz um século e meio que foi decidido fazer várias coisas: um novo edifício da Câmara, um novo mercado municipal, fazer obras na Rua Formosa, abrir uma rua que partia dessa Rua Formosa, transversala a ela, e que ia até à Praça Velha, onde antigamente era a Câmara Rua essa que é conhecida popularmente como Rua do Comércio, sendo que o nome dela é Rua Doutor Luís Ferreira. E o doutor Luís Ferreira foi uma figura ilustre de Viseu, um político ilustre de Viseu do período da Regeneração, embora ele ainda tenha vivido a implantação da República, de forma, diga-se de passagem, muito atribulada. Mas essa rua é Rua Doutor Luís Ferreira, vulgarmente Rua do Comércio. Rua do Comércio, por quê? Porque ao longo dessa rua, os edifícios, todos ali do início do século XX, vão se dedicar muito a prédios de arrendamento e de comércio, de acordo com a nova mentalidade da época. Então, esse edifício, que é decidido construir em 1876, que é o novo edifício da Câmara, o traço desse edifício vai ser encomendado ao engenheiro José de Matos Cid. Ele é que vai desenhar aquilo que é o edifício da Câmara Municipal de Viseu, enfim, que nós conhecemos hoje. Só por curiosidade. A Câmara, nesses anos em que não havia Câmara, em que não havia edifício próprio, esteve localizada no Paço dos Três Escalões, na Sé, hoje é o Museu Grão Vasco. Esteve junto à Igreja da Misericórdia, esteve em casas arrendadas a uma figura da cidade, esteve no antigo Convento dos Néri, já falamos aqui por causa das escadarias suspensas. Ou seja, ele foi andando por aqui e por ali, até que se decide, finalmente, desenho de Matos Cid, é decidida a construção em 77, no ano seguinte, e a primeira pedra é lançada no dia 24 de setembro de 77. Mas, e agora isto é ser irônico.
Suspense.
À boa maneira portuguesa, a obra só começou dois anos depois. Quer dizer, a primeira pedra foi em 77, mas depois pensaram: "Bem, será que devemos?". E também para se decidir onde seria a construção, ainda demorou algum tempo, porque havia uns que diziam que devia ser num sítio, outros que devia ser noutro sítio da cidade. Isto faz-me lembrar outras escolhas mais próximas de nós. Como o aeroporto.
O aeroporto, estava pensando nisso.
Aqui, além, e o tempo ia passando. O que é certo é que a obra lá começou em 79, e depois arrastou-se. Isto foi tipo obras de Santa Engrácia.
Sim, foi ano a ano.
A última coisa a ser feita para terminar a obra foi em 1916. Portanto, 40 anos. Durante 40 anos, eu diria, foi sendo construído o bonito edifício, em estilo neoclássico, que preside à praça, à sua frente, o Rossio, Praça da República, e que só é concluído em 1916. É concluído quando?
Já na República.
É concluído quando o grande pintor e escultor Almeida e Silva, que estava a fazer o arranjo, a terminar a decoração da entrada e da escadaria da Câmara, do interior. E por isso é que tem aqueles painéis de azulejos muito bonitos à entrada, na escadaria, e depois as pinturas no teto do próprio interior do edifício, com os medalhões retratando as figuras mais importantes da beira. E que é em 1916 que é concluído. Portanto, esse edifício em estilo neoclássico vai sendo-
Construído.
Construído, e os serviços vão ocupando os espaços construídos. Quer dizer, foi à medida. "Quer mais espaço". E, portanto, é um edifício que hoje é uma joia da arquitetura desse período. E é um período, e importa referir, que o Almeida e Silva é um homem que começa a obra antes da implantação da República e vai terminar a obra em 1916.
Já em plena Primeira República.
Em mais que plena República. Já a República tinha dado muitas voltas.
Já tinha havido uma série de primeiros-ministros.
Já a República tinha dado muitos trambolhões e estávamos em plena A Primeira Guerra Mundial, com o envolvimento de Portugal na guerra desde 1914. Sobretudo nas colónias africanas, em Angola e Moçambique, com o Regimento de Infantaria 14 e o Regimento de Artilharia 7 sediados em Viseu, a participar e a sofrer baixas nessas duas frentes de batalha, quer em Angola, quer no sul de Angola, quer no norte de Moçambique. É nesse contexto que a obra termina. É uma época muito viva.
Exatamente.
Muito viva. Vai ter uma série de contributos, como o Arnaldo Malho.
Eufemismo extraordinário, "época viva". É ótimo, muito bem dito.
É uma época muito viva, muito dinâmica.
Marcou época.
Temos aqui um edifício com os 24 retratos dos ilustres beirões, que também gerou polêmica. Já o referi aqui a propósito do nosso Alberto Sampaio, o Alberto Sampaio, tipógrafo de Viseu, que é lá representado. Que era um socialista, um republicano, no meio de figuras só ligadas ao passado histórico, monárquico. Natural que assim fosse. Essa conclusão é importante. O Arnaldo Malho tem lá obra, o Almeida e Silva, os grandes artistas.
Tens aqui um elenco de um rei, cinco escritores, quatro guerreiros, três pintores, dois historiadores, dois revolucionários, cá está, dois beneméritos, um geógrafo, um parlamentar, um bibliófilo, um orador e um poeta. Estás a ver?
Era um bocadinho-
Foi também polémico essa escolha.
João Paulo, quer te dizer que não é aqui o sítio para entrar em pormenores, mas eu acompanhei, a 100 anos de distância, a polêmica nos jornais locais da escolha das personalidades que estão lá representadas. E aquela que suscitou mais polêmica foi o Alberto Sampaio.
Pronto, total.
Porque para entrar o Alberto Sampaio, alguém tem que sair. Isto é um bocadinho como fazer uma seleção.
O jogo das cadeiras. Um bocadinho.
Fazer uma seleção. "Ah, porque este é melhor assim". E ali também foi a mesma coisa. Mas eu convido todos os nossos ouvintes, quando vierem a Viseu, entrarem no edifício da Câmara e pedirem para subir aquela escadaria e admirarem, apreciarem a beleza do edifício. E então quando ele está iluminado, a beleza interior do edifício, que é um edifício, de facto, notável da arte desse período.
Neoclássico, bonito.
E que foi todo, no fundo, o Almeida e Silva. Houve uma mobilização dos artistas locais e dos materiais, porque ali temos o granito muito presente, e que é, de facto, uma obra extraordinária.
Notável. Este livro estará lá ainda à venda. Jorge, sabe se ainda existe este livro? Paços do Concelho, 100 anos. Que é sempre bonito, é o livro em si, eu tive a hipótese de folhear e, de facto, é um grande livro, muito bem ilustrado. E que era bonito também para contar a história com os mapas, as plantas, os bustos um a um, explicação de tudo, as portas entalhadas, estes candeeiros, os ferros, os azulejos. Vale muito a pena. Só para saber isso, porque vale a pena saber um bocadinho mais. E esta obra, de facto, ajuda. Assim também puxas um bocadinho a brasa à tua sardinha, merecidamente, porque é uma belíssima obra que está aqui escrita também.
Eu acho que, passa a publicidade, mas penso que em todos os museus municipais da rede de museus do concelho de Viseu, ele está disponível.
Muito bem.
Portanto, não é difícil, porque, de facto, é uma arquitetura institucional, é uma arquitetura que não é religiosa, não é da igreja.
É civil.
Num espaço nobre da cidade. O antigo Passeio de Dom Fernando, importa dizer. Esse campo à frente da Câmara, que era o de Massurinho.
Sim.
Que ficava fora da cidade, vai ser no século XIX o Passeio Dom Fernando. Quando vem a República, passa a Praça da República, vulgo Rossio, e com aquele edifício ali que é uma joia.
É uma joia. Vale a pena.
O edifício por fora, naquele estilo cinzento do granito, esconde no seu interior uma policromia dos azulejos, dos motivos que são extraordinários.
Muito bem. Fica então esta dica, Paços do Concelho, 100 anos. Se puder esta obra, não perca. Folheá-la, comprá-la, guardar este registo, esta memória. E nós, Jorge, marcamos encontro para a semana. Bem-hajas, mais uma vez. Até à próxima.
Grande abraço.