20 anos depois de a mulher ter caído para a morte, a história de um pastor de jovens começou a desfazer-se

🗓️ 2026-07-19 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Antes de poder ser julgado por homicídio e fraude ao seguro, David foi encontrado morto na cela da prisão, deixando a família de Bernadette sem uma condenação judicial, mas com a convicção de que finalmente descobriram a verdade sobre a sua morte

Richard Gudenkauf levou a filha ao altar, em setembro de 1996, com um semblante carregado.

A noiva, Bernadette, era uma visão no seu vestido branco e com pérolas a condizer, os grandes olhos castanhos espreitando por trás do véu. A mãe, Laura Gudenkauf, via a filha radiante, feliz por finalmente casar com o homem que conhecera anos antes durante uma produção teatral na igreja.

Bernadette e David Vander Meer no dia do casamento, em 1996. (Foto cedida por Richard e Laura Gudenkauf)

Desde o início, Richard teve um mau pressentimento em relação ao noivo, David Vander Meer. Nunca ficou satisfeito por ver a filha casar com ele - uma jovem vibrante, talentosa, profundamente ligada à sua fé e muito envolvida na comunidade.

Para Richard, Bernadette sempre foi uma estrela. Mas foi numa noite, numa discoteca cheia, que percebeu verdadeiramente o brilho que ela tinha. Num canto havia um palco de karaoke, onde um pequeno grupo ouvia cantores amadores enquanto o restante espaço fervilhava de conversas e música.

Bernadette subiu ao palco para cantar. Bastaram quatro ou cinco notas para que um silêncio tomasse conta de toda a discoteca. Todos ficaram hipnotizados.

Foi nesse momento que Richard percebeu: "Ela é mesmo muito boa."

Bernadette fez tudo o que podia para mostrar a sua voz ao mundo. Atuava caracterizada como Betty Boop e gravava CDs de demonstração com versões de temas de Aretha Franklin, Christina Aguilera e Patti LaBelle. Tinha talento suficiente para acompanhar qualquer uma delas.

Bernadette posa ao lado do pai, Richard Gudenkauf. (Foto cedida por Richard e Laura Gudenkauf)

Agora, Bernadette estava entusiasmada por continuar a perseguir os seus sonhos ao lado de David, na zona de Las Vegas.

Apesar das reservas de Richard, o casamento foi bonito.

Uma casa cheia

Cerca de dez anos mais tarde, Laura Gudenkauf estava separada de Richard e vivia com Bernadette e David, juntamente com Vanessa, irmã de Bernadette, que tinha necessidades especiais.

Laura reparou que havia sempre adolescentes em casa, membros do grupo de jovens liderado por David. Bernadette também se apercebeu disso. Havia, em particular, uma rapariga - identificada pelas iniciais SH - que parecia estar a aproximar-se cada vez mais de David. Telefonava frequentemente para casa.

O sorriso deslumbrante que Laura vira no dia do casamento da filha tinha desaparecido. Bernadette sentia-se sozinha e insatisfeita, casada com um homem que nunca demonstrava publicamente o amor que sentia por ela e que a tratava como se não fosse especial. Foi isso que escreveu em cartas que os investigadores encontrariam anos mais tarde. Segundo contou à mãe, David dava mais atenção aos adolescentes do grupo de jovens do que à própria mulher.

Bernadette Vander Meer atua em palco. (Foto cedida por Richard e Laura Gudenkauf)

Numa ocasião, Laura viu Bernadette regressar a casa depois de um turno noturno como empregada de mesa num casino, onde também tocava piano e cantava para os clientes durante os intervalos. As gorjetas que recebia iam diretamente para David. Laura percebeu que a filha estava zangada com o marido. Bernadette entrou no quarto e bateu a porta com força.

Quando Bernadette disse a David que queria divorciar-se, o pastor de jovens respondeu-lhe que pensasse na imagem que isso passaria.

"O que é que as pessoas vão pensar?", perguntou à mulher, segundo Laura viria mais tarde a contar aos investigadores.

O casal manteve-se junto. À medida que o 10.º aniversário de casamento se aproximava, planearam uma viagem ao Parque Nacional de Zion, no condado de Washington, no estado do Utah. Bernadette, caminhante experiente e apaixonada por aventura, estava feliz por finalmente poder passar algum tempo a sós com o marido, em contacto com a natureza, contou Laura.

Antes da viagem, Bernadette falou com a mãe sobre os seguros de vida do casal. Tinham aumentado recentemente o valor das indemnizações em caso de morte de cerca de 150 mil dólares para aproximadamente 600 mil dólares cada um. David garantira-lhe que, caso acontecesse alguma coisa aos dois, esse dinheiro serviria para ajudar Laura e Vanessa.

Ao explicar a decisão, Bernadette sentou-se ao computador para mostrar à mãe um documento. Introduziu a palavra-passe. Não funcionou. Tentou novamente. Também não funcionou.

Virou-se para Laura e disse: "O David mudou a palavra-passe."

A caminhada até Angel’s Landing

Com lanternas frontais a iluminar o caminho na escuridão antes do nascer do sol, David e Bernadette partiram por volta das 4h20 da madrugada de 22 de agosto de 2006 para uma caminhada no Parque Nacional de Zion, contaria mais tarde David.

Situado no sudoeste do Utah, o parque é conhecido pelas suas paisagens impressionantes: o rio Virgin atravessa desfiladeiros de paredes imponentes, falésias íngremes dão lugar a vastos cânions de arenito e trilhos exigentes atraem aventureiros para um deserto tão belo quanto implacável.

Visitantes percorrem o trilho de Angel’s Landing, no Parque Nacional de Zion, no estado norte-americano do Utah, em 2025. (Kayla Bartkowski/Getty Images)

David e Bernadette aproximaram-se do topo de Angel’s Landing, um dos percursos mais populares e exigentes do parque. Segundo David contou aos detetives, a luz do dia começou a surgir e o casal retirou as lanternas frontais.

David montou a máquina fotográfica com a intenção de captar a silhueta de Bernadette contra o nascer do sol, enquanto ela permanecia junto à beira da falésia. Tirou algumas fotografias da paisagem e aguardou alguns segundos entre cada uma para permitir a exposição da imagem. Ao reparar que as mochilas apareciam no enquadramento, pegou nelas e afastou-se cerca de um metro e meio a três metros, recordaria mais tarde.

Então ouviu um grito.

Quando se virou, contou, Bernadette já tinha desaparecido.

A chamada para o 911 foi feita por volta das 6h20.

David informou os serviços de emergência de que a mulher tinha caído durante a caminhada.

Bernadette, de apenas 29 anos, foi declarada morta.

Pouco depois, os investigadores perguntaram a David se alguma vez tinha sido infiel à mulher. Respondeu que não.

Já tinham ocorrido quedas fatais em Zion. Mas acidentes naquela zona específica de Angel’s Landing eram raros, sendo que apenas alguns casos ao longo dos anos tinham sido considerados suspeitos ou classificados como suicídio.

Não existiam outras testemunhas para interrogar.

As autoridades concluíram que a morte de Bernadette tinha sido um acidente.

Uma indemnização elevada do seguro

Tantas pessoas quiseram estar presentes na cerimónia fúnebre de Bernadette que foi necessário preparar uma sala adicional para acolher todos os presentes. Durante o funeral, David sentou-se do lado oposto da igreja em relação aos pais de Bernadette, acompanhado por membros do grupo de jovens que liderava.

Richard e Laura desconfiavam das circunstâncias da morte da filha. Na opinião deles, Bernadette era demasiado experiente em caminhadas para simplesmente cair, sobretudo porque, acreditavam, o sol já iluminava o percurso.

Além disso, havia as discussões em casa, os telefonemas da adolescente do grupo de jovens, a palavra-passe alterada no computador. Mas Laura estava devastada pela dor e continuava a viver na casa de David, mergulhada num estado de depressão e medo.

Com o passar do tempo, o choque e a tristeza de Richard deram lugar a um profundo desejo de vingança. Tinha muitos amigos, mas, à medida que os meses passavam, a revolta transformou-o numa pessoa amarga. Os amigos deixaram de telefonar.

Percebendo que não podiam continuar a viver dessa forma, os pais de Bernadette decidiram entregar a situação a Deus e tentaram seguir em frente. Laura quase deixou de ver David em casa. Pouco tempo depois, ele mudou-se e a família da falecida acabou por perder o contacto com ele.

David Vander Meer. (Foto cedida por Richard e Laura Gudenkauf)

 Em 2007, David recebeu cerca de 567.439 dólares do seguro de vida de Bernadette. Segundo os investigadores viriam mais tarde a concluir, passou a levar uma vida de luxo, comprando carros e pagando viagens para membros do grupo de jovens.

Laura, segundo o seu próprio relato, nunca recebeu um único cêntimo desse dinheiro.

No ano seguinte, David passou a liderar um grupo de jovens noutra igreja, sob a supervisão do pastor Barry Diamond. Barry acabaria por despedi-lo depois de surgirem relatos de que David organizava festas para adolescentes do grupo de jovens, onde lhes fornecia bebidas alcoólicas e permitia jogos de apostas em sua casa, contou mais tarde às autoridades.

Mas ainda passariam muitos anos até que ficasse claro que essas festas eram apenas uma pequena parte das graves acusações que David viria a enfrentar.

Um pastor faz uma revelação bombástica

Em 2022, um antigo membro de um grupo de jovens liderado por David alertou as autoridades de que David tinha utilizado a sua posição para aliciar menores de idade, incluindo uma rapariga com quem mantinha uma relação sexual na altura da morte de Bernadette, viriam mais tarde a afirmar os investigadores.

Os investigadores do Gabinete do Xerife do Condado de Washington, no Utah, contactaram a rapariga, identificada como SH, e entrevistaram-na por telefone, indicando num relatório que era necessário um acompanhamento adicional. Mas ninguém fez esse acompanhamento. O caso voltou a ficar parado.

Depois, em outubro do ano passado, mais de 19 anos após a queda de Bernadette, Barry Diamond, o antigo chefe de David, contactou o Gabinete do Procurador do Condado de Washington com uma acusação impressionante, conforme os investigadores descreveriam mais tarde.

A morte de Bernadette não tinha sido um acidente, afirmou o pastor. Ele acreditava que David a tinha empurrado.

Bernadette Vander Meer tinha gosto pela aventura. (Foto cedida por Richard e Laura Gudenkauf)

A tenente-investigadora Jessica Bate, do gabinete do procurador do condado, começou imediatamente a trabalhar. Falou com Diamond, que durante anos tinha tentado, sem sucesso, convencer as autoridades a investigarem David, viria Barry mais tarde a contar ao Las Vegas Review-Journal.

Barry relatou à investigadora que antigos membros do grupo de jovens, já adultos nessa altura, o tinham procurado ao longo dos anos com histórias sobre o comportamento inadequado de David. Alguns sentiam-se traumatizados, segundo ele.

"As crianças" - como Diamond ainda lhes chamava - tinham medo de David naquela altura e continuavam a ter medo dele.

Jessica começou então a entrevistá-los.

Repetidamente, surgia o nome de SH.

Em dezembro, Bate reuniu-se com SH para uma entrevista. E a história que David tinha contado aos detetives anos antes começou a desfazer-se.

Um telemóvel, um apartamento e um presságio

SH contou a Bate que tinha conhecido David quando tinha 14 anos. Explicou como, ao longo do tempo, o pastor do grupo de jovens, que era cerca de nove anos mais velho do que ela, começou a dar-lhe mais atenção - um presente, um abraço, uma mão pousada no joelho.

Quando SH tinha 16 anos, David levou-a para uma cabana em Brian Head, onde, segundo ela, tiveram relações sexuais pela primeira vez, contou à investigadora. A relação continuou durante anos - em motéis alugados à hora e até na igreja onde David trabalhava.

A adolescente apercebeu-se das suspeitas de Bernadette. Numa ocasião, recordou SH, Bernadette bateu com força à porta da igreja à procura de David. Ele instruiu SH a dizer-lhe que ele não estava lá, contou.

David chegou mesmo a comprar a SH um telemóvel para que ela pudesse contactá-lo, disse ela, relato que Bate viria mais tarde a confirmar através de registos telefónicos. Quando SH fez 18 anos, David disse-lhe para sair da casa da mãe e mudar-se para um apartamento que ele alugou, para terem um local onde pudessem manter relações sexuais.

David nunca falou de um futuro com SH - exceto uma vez, quando lhe disse que "a única forma de poderem estar juntos era se Bernadette não estivesse viva", contou SH a Bate.

Essa frase ficou gravada na memória de SH durante anos.

A 20 de agosto de 2006 - um domingo - SH encontrou-se com David na igreja e disse-lhe que tinha conhecido um rapaz da sua idade. A relação deles precisava de terminar. No dia seguinte, David e Bernadette partiram para Zion.

Após a queda de Bernadette, SH encontrou-se na sala de estar de David com outros membros do grupo de jovens, participando numa vigília de luto que David tinha solicitado, contou ela a Bate.

Depois, dois a três meses após a morte de Bernadette, SH e David "retomaram uma relação sexual", disse à investigadora. E depois de David ter sido despedido do cargo de pastor, em 2008, David e SH casaram-se discretamente para que ele pudesse utilizar o seguro de saúde dela, afirmou.

Dois anos depois, casaram-se publicamente.

O casamento acabou por terminar e, em 2014, já estavam divorciados. Por essa altura, David disse que "tudo o que lhes foi proporcionado durante o casamento veio do seguro de vida de Bernadette", contou SH a Bate.

Um nascer do sol suspeito

O trilho de Angel’s Landing, no Parque Nacional de Zion. (Mehmet Demirci/Redux)

 Enquanto a história que David contara aos investigadores tantos anos antes começava a desmoronar-se, Jessica Bate reuniu mais provas: registos telefónicos, notas eletrónicas e manuscritas deixadas por Bernadette e relatos dos agentes que estavam no Parque Nacional de Zion no dia da queda.

Outro agente começou a recolher um tipo diferente de informação relativa ao dia 22 de agosto de 2006. Utilizando dados da NASA e de outras bases de dados públicas, determinou que o sol nasceu nesse dia por volta das 6h54, mais de meia hora depois da chamada de emergência de David para o 911. Devido ao terreno extremamente acidentado do parque, o sol não seria visível em Angel’s Landing até ainda mais tarde, afirmou o agente.

A imagem que David tinha apresentado aos investigadores após a queda de Bernadette -a luz do sol a iluminar o caminho enquanto ele e a esposa alcançavam o cume - começou a ficar mais sombria.

Bate reuniu-se então com o diretor do Parque Nacional de Zion para rever as mortes ocorridas perto de Angel’s Landing desde a década de 1980 e constatou que, entre 17 mortes registadas, as únicas ocorridas aproximadamente na mesma zona onde Bernadette caiu tinham sido classificadas como suspeitas ou suicídios.

Bate reuniu as suas conclusões numa declaração de detenção, assinada a 16 de junho, e o Gabinete do Procurador do Condado de Washington acusou David de homicídio relacionado com a morte de Bernadette e de fraude ao seguro. David foi detido a 22 de junho e encaminhado para o Centro de Detenção do Condado de Clark.

Mas dias depois, quando estava prestes a começar a audiência sobre a sua extradição, um juiz fez outra revelação surpreendente perante o tribunal no caso do antigo pastor de jovens agora acusado de dois crimes graves:

David, anunciou o juiz, estava morto.

Um sentimento de encerramento

Horas antes de comparecer em tribunal, os agentes encontraram David inconsciente na sua cela - juntamente com uma nota de suicídio e um testamento manuscrito - informou a Polícia de Las Vegas, sem divulgar o conteúdo dos documentos. David foi transportado para um hospital devido aos ferimentos autoinfligidos, onde acabou por ser declarado morto.

Jessica Bate afirmou que não podia comentar o caso até ao seu encerramento oficial. No entanto, a investigadora telefonou a Laura Gudenkauf nesse dia para lhe dar a notícia da morte de David. Laura sentiu inicialmente tristeza, mas depois alívio quando percebeu que não teriam de enfrentar o desgaste de um longo processo judicial.

Bernadette Vander Meer. (Foto cedida por Richard e Laura Gudenkauf)

Richard Gudenkauf viveu um misto de emoções. Não esperava sentir tristeza. A família de David não merecia aquilo, explicou; são boas pessoas. Quanto a David, Richard esperava que o devido processo legal lhe desse tempo para refletir sobre o que aconteceu a Bernadette, mas existe alguma satisfação em saber que ele já não está vivo.

Barry Diamond, o antigo pastor que ajudou a relançar a investigação, ficou sem palavras quando recebeu a notícia de Jessica. Não há vencedores nesta história, disse ao Las Vegas Review-Journal, mas não se arrependeu de ter falado: Bernadette merece justiça.

Entretanto, duas semanas depois, a causa oficial e a forma da morte de David continuavam por determinar. Não foi possível contactar a sua família para comentar o assunto.

O caso apresentado por Bate contra David não resultará numa condenação, mas, após um lento acumular de sinais preocupantes ao longo dos anos - um mau pressentimento num belo dia de casamento, uma mão pousada num joelho durante demasiado tempo, festas com adolescentes e telefonemas de uma estudante - os pais de Bernadette sentem que finalmente encontraram clareza.

Esperam que a história da filha ajude a alertar para os padrões frequentemente ignorados quando um adulto que trabalha com menores abusa da autoridade que exerce sobre eles.

E, no meio do turbilhão de notícias em torno da morte de David, esperam que as pessoas se recordem de Bernadette - da luz que irradiava desde pequena, da sua dedicação à fé e de toda a alegria que espalhava com a sua bela voz.