25 depois do 11 de Setembro

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Para muitos Europeus de uma certa idade, nos quais me incluo, o 11 de Setembro e o momento político subsequente, durante o qual o medo difuso do terrorismo, incluindo os vários ataques que se sucederam na Europa, e as guerras no Médio Oriente sob a égide da Administração Bush, marcaram a maioridade política. Havíamos sido politicamente socializados para olhar para a América como um referente moral, um muro intransponível entre o Ocidente e a barbárie. Inicialmente, foi o choque. A América era vulnerável. Num momento em que o poderio Americano estava no seu pináculo, depois da vitória incontestável na Guerra Fria, em plena euforia do liberalismo intelectual e político, a resposta emocional na Europa foi esmagadoramente solidária. Os Franceses, tipicamente cépticos do proselitismo Americano enquanto guardião da democracia e da NATO enquanto pilar central e único da defesa da Europa, viram o Le Monde publicar o célebre título “Nous sommes tous Américains”. Pela primeira e única vez na sua história, a NATO invocou o Artigo 5º, em nome dos Estados Unidos. Muitas centenas de soldados de vários países da NATO morreriam no Afeganistão e no Iraque, a lutar por aquilo que todos julgávamos ser a defesa de valores comuns que uniam Estados Unidos e Europa contra a barbárie moral, política e social do terrorismo islâmico.

Para além da solidariedade com os Estados Unidos, a Europa tinha medo: a sensação difusa de que o mundo da Pax Americana que tinha sido construído nas ruínas do pós-guerra estava a terminar. Todavia, este mundo esboroar-se-ia de um modo que ninguém conseguiria prever em Setembro de 2001. Na altura, para além do medo de novos ataques, havia uma grande incerteza sobre o que aconteceria à economia mundial, especialmente à Americana. A resposta dos Estados Unidos ao ataque foi brutal, com duas guerras — a segunda das quais, o Iraque, assente em premissas mais tarde reveladas como falsas —, que custariam milhares de milhões de dólares e centenas de milhares de vidas. Mais tarde, em 2011, a liderança central da Al-Qaeda foi, de facto, desmantelada com a morte de Bin Laden, e não voltaria a haver um segundo atentado em solo americano. Avaliada pelo critério mais estrito do contraterrorismo e da segurança, a guerra contra o terror, pelo menos da perspectiva Americana, foi bem sucedida.

Há, porém, uma leitura mais ampla do 11 de Setembro, proposta, de resto, num artigo recente na Atlantic, segundo a qual o sucesso do atentado pode medir-se pela sua capacidade de alterar as prioridades das elites Americanas, induzindo-as a derrotarem-se a si próprias. O 11 de Setembro pôs em marcha duas guerras de desgaste que esvaziaram os cofres Americanos (cerca de 3 biliões de dólares, alucinante), corroeram a sua autoridade moral e — mais importante — a fé dos seus próprios cidadãos nas elites. A isto somou-se a crise financeira de 2008, que levou ao limite a tessitura social dos Estados Unidos. A primeira erupção pública dessa desconfiança viria não da direita, mas da esquerda populista: em 2011, o Zuccotti Park, em Manhattan, tornou-se o símbolo de uma geração que já não acreditava que as instituições financeiras e políticas americanas serviam o interesse comum. O movimento Occupy Wall Street, do qual já poucos se lembram, esgotar-se-ia sem produzir um programa político coerente, mas o diagnóstico que propunha — de que a elite tinha falhado, e falhado impunemente — sobreviveu-lhe, à espera de um veículo político mais eficaz.

Esse veículo apareceria poucos anos depois, do lado oposto do espectro. Não é acidental que Donald Trump tenha começado a sua carreira política a denunciar precisamente as “guerras sem fim” no Médio Oriente e a incapacidade de Obama em pôr-lhes fim. Curiosamente, o desencanto com um establishment de política externa que vendera duas guerras assentes em premissas mais tarde provadas falsas encontrou, por fim, voz num candidato presidencial que rompeu com a ortodoxia do seu próprio partido ao chamar erro à guerra do Iraque. Trump compreendeu, correctamente, que muitos Americanos já não confiavam em quem os tinha mandado combater e que essa desconfiança, nascida num Zuccotti Park que ele próprio desprezava, podia ser reencaminhada para outros alvos.

Enquanto isto acontecia, nos mesmos vinte anos em que os Estados Unidos gastaram três biliões de dólares e o capital político de duas administrações a tentar reconstruir o Afeganistão e o Iraque à sua imagem, a China quadruplicou o seu PIB, construiu uma indústria de IA e automóvel que em breve dominará o mundo, e modernizou uma marinha que hoje rivaliza, em número de navios, com a americana. Enquanto a atenção estratégica de Washington estava fixada no Grande Médio Oriente, o poder relativo deslocou-se para o Pacífico. A erosão Americana, que é inequívoca, quanto mais não seja no domínio do soft power, tem hoje um espelho europeu, e é a NATO que o reflecte. A mesma NATO que invocou o Artigo 5º em nome da América, em 2001, tem hoje à frente da Casa Branca um presidente que já pôs publicamente em causa se os Estados Unidos honrariam esse mesmo artigo em nome de um aliado europeu. Os que, há um quarto de século, morreram no Afeganistão em nome da solidariedade transatlântica dificilmente imaginariam que os seus netos políticos discutiriam, em 2025, se o guarda-chuva nuclear americano ainda cobre Varsóvia ou os Estados Bálticos.

Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro legado do 11 de Setembro para os europeus da minha geração: não o dia em que a América se revelou vulnerável, mas o longo processo, iniciado naquela manhã de céu azul, através do qual aprendemos a desconfiar da nossa própria certeza de que ela seria sempre, incondicionalmente, o muro entre nós e a barbárie. Fomos socializados a acreditar num referente moral fixo. Os que hoje têm vinte anos estão a ser socializados num mundo em que a América já não é o referente moral, nem um lugar aspiracional onde todos, um dia, de uma maneira ou outra, sonhámos morar.