Almodóvar estreia “Natal Amargo”. A história real com sexo e terroristas que levou ao cinema

🗓️ 2026-09-24 📁 lifestyle 📝 ⏱️ 👁️ : -

Pedro Almodóvar aprendeu uma das grandes regras da sua carreira muito antes de ter uma câmara nas mãos. Ainda era criança quando ajudava a mãe, Francisca Caballero, a escrever cartas para vizinhos que não sabiam ler nem escrever. Pedro colocava no papel aquilo que lhe ditavam. 

Quando chegavam as respostas, a mãe lia-as em voz alta, mas acrescentava por vezes frases que não estavam lá. O filho indignava-se com as invenções. Francisca explicava-lhe que as pessoas ficavam mais felizes assim. Anos depois, Almodóvar percebeu a lição: por vezes, a realidade precisa de ficção para se tornar suportável.

Aos 77 anos, que completa esta sexta-feira, 25 de setembro, continua a fazer o mesmo. Só que agora já não são apenas as histórias dos outros que transforma em cinema. Cada vez mais, a matéria-prima é a própria vida.

“Natal Amargo”, que chega esta quinta-feira, dia 24, aos cinemas portugueses, é o exemplo mais recente. O filme acompanha Raúl Rossetti (Leonardo Sbaraglia), um realizador que atravessa uma crise criativa e usa uma tragédia vivida por alguém próximo para escrever um argumento. É aí que surge Elsa (Bárbara Lennie), outra cineasta e uma espécie de reflexo do primeiro.

No centro está uma questão que acompanha Almodóvar há décadas: até onde pode um artista ir quando transforma a vida das pessoas que conhece em ficção? “Embora os meus filmes estejam contaminados pela biografia, nunca de forma tão evidente como em ‘Dor e Glória’ ou neste”, contou à “RTVE”.

E há uma história insólita que mostra que esta discussão começou muito antes de “Natal Amargo”. Envolve uma amiga, sexo, membros da ETA e um dos filmes mais famosos da carreira do espanhol.

A amiga que levou um homem para casa e acabou com a ETA à porta

Uma amiga de Almodóvar conheceu um homem, levou-o para casa e envolveu-se com ele. Três dias depois, ele regressou acompanhado por outros quatro homens. Eram membros da ETA, organização separatista basca que durante décadas recorreu ao terrorismo, em território espanhol, na luta pela independência do País Basco.

Segundo o realizador contou este ano à RTVE, o grupo instalou-se na casa enquanto preparava uma ação relacionada com Carabanchel, uma das principais prisões de Madrid durante a ditadura franquista e os primeiros anos da democracia espanhola. A mulher ficou, nas palavras de Almodóvar, “sequestrada na própria casa”, embora continuasse envolvida com o homem que tinha conhecido.

Havia ainda um detalhe digno de um filme de Almodóvar. Os membros da ETA prepararam parte do plano na mesma mesa onde o realizador tinha filmado uma das cenas mais provocadoras de “Pepi, Luci, Bom e Outras Raparigas do Montão” (1980): Bom, interpretada pela cantora Alaska, urina sobre Luci. Sexo, drogas, personagens queer e mulheres que desafiavam as regras sociais atravessavam esta primeira longa-metragem, feita numa Espanha recém-saída da ditadura.

Almodóvar guardou a experiência da amiga e, anos depois, transformou-a em ficção. Em “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988), Candela, interpretada por María Barranco, envolve-se com um homem e descobre que ele pertence a um grupo de terroristas xiitas. O realizador trocou a ETA por outro grupo, mas manteve o ponto de partida da história.

“A realidade é mais forte e é preciso colocar ficção para a suavizar”, explicou à “RTVE”. A amiga reconheceu-se e não gostou. Almodóvar tentou convencê-la de que tinha alterado tanto a história que ninguém saberia que era ela. A resposta desmontou o argumento: havia alguém que perceberia imediatamente: o homem com quem se tinha envolvido.

Quase quatro décadas depois, o dilema está no centro de “Natal Amargo”. Almodóvar admite hoje que um criador “não tem direito a tudo”, embora reconheça o impulso de agarrar uma história quando ela aparece. “O criador pensa na ideia”, resumiu.

Na verdade, foi assim que construiu grande parte da carreira. A família, os amigos, os amantes, Madrid e até ele próprio foram sendo triturados e transformados em personagens.

Almodóvar nasceu em 1949, em Calzada de Calatrava, em La Mancha, e cresceu numa Espanha franquista, católica e conservadora. Passou parte da juventude numa escola religiosa, experiência que deixou marcas que reapareceriam nos seus filmes através da culpa, do desejo e dos abusos ligados à Igreja.

Os pais tinham outro futuro preparado para ele. Queriam que ficasse perto da família e chegaram a arranjar-lhe um emprego num banco. Aos 17 anos, decidiu ir para Madrid. O pai ameaçou chamar a Guardia Civil porque ainda era menor. Almodóvar respondeu que podia começar a falar com os guardas porque ele iria na mesma.

Não conseguiu estudar cinema. Para sobreviver, conseguiu emprego na Telefónica, a principal empresa de telecomunicações espanhola, onde trabalhava na atribuição de números de telefone aos clientes. Usava parte do salário para financiar as curtas-metragens em Super-8 que fazia com amigos.

Foi desse universo que nasceu “Pepi, Luci, Bom e Outras Raparigas do Montão”, lançado em 1980. Sexo, drogas, personagens queer e mulheres que recusavam comportar-se como a sociedade esperava ocupavam o ecrã numa Espanha que acabava de sair de décadas de ditadura.

Almodóvar tornou-se uma das figuras da “Movida Madrileña”. Mais tarde, explicou que não mostrar sequer “a sombra da ditadura” no primeiro filme tinha sido a sua forma de se vingar dela. E continuou a fazer aquilo que aprendera com a mãe: pegar na realidade e reescrevê-la.

Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988) transformou a história da amiga num fenómeno internacional e recebeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional. “Tudo Sobre a Minha Mãe” (1999) voltou às mulheres e à maternidade, conquistando o Óscar de Melhor Filme Internacional. “Fala com Ela” (2002) valeu-lhe outra estatueta, desta vez pelo argumento.

Até a mãe acabou dentro dos filmes. Francisca participou em pequenos papéis nas obras do filho e morreu em 1999, o mesmo ano em que Almodóvar lançou “Tudo Sobre a Minha Mãe”.

Durante décadas, Almodóvar espalhou pedaços da própria vida pelas personagens sem assumir por completo o retrato. Isso começou a mudar à medida que envelheceu.

“Dor e Glória”, de 2019, tornou a aproximação impossível de ignorar. Antonio Banderas interpretava Salvador Mallo, um realizador consagrado que vivia entre dores físicas, bloqueios criativos e memórias da infância e da mãe.

“Natal Amargo” continua esse processo. Raúl é outro cineasta reconhecido que procura histórias na própria vida e nas pessoas à sua volta. Depois cria Elsa, outra realizadora. Almodóvar cria Raúl, Raúl cria Elsa e todos acabam por transportar alguma coisa de quem os inventou.

É o mesmo mecanismo da amiga e dos membros da ETA, mas agora aplicado ao próprio Almodóvar. “A minha vida reduziu-se muito e, talvez porque aquilo que me rodeia seja menor, presto muita atenção ao que me rodeia”, confessou à RTVE. Depois encontrou uma frase ainda melhor para definir esta fase: “Estou a transformar-me na minha própria musa.”

Depois de passar décadas a transformar a vida dos outros em cinema, Almodóvar encontrou finalmente a história que tem mais perto: a sua.

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