"A automedicação é uma consequência da falta de acesso ao sistema de saúde"
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Quem nunca se automedicou que atire a primeira pedra. E quem nunca recomendou um comprimido infalível à vizinha ou conhece o nome de novos medicamentos a partir da boa experiência de um amigo ou familiar, que atire outra pedra. Neste episódio, vamos tentar saber o que leva à automedicação, por que é tão perigosa e se a dor crônica é ou não um dos motivos que mais justifica este comportamento, que pode ser de risco. Eu sou a Cláudia Pinto e este é o podcast Conversas sobre Dor.
E eu sou o Paulo Farinha e temos conosco duas convidadas. Nélia Isaac, médica de família da USF Emergir, em São Domingos de Rana, que faz parte da Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental, integrou a equipa da Consulta de Dor Crônica dos Cuidados de Saúde Primários de Cascais e é subcoordenadora do Grupo de Estudos de Dor da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. E Carolina Santos, investigadora na Nova SBE, com doutoramento em Economia, foi consultora na área de economia em saúde e avaliação de resultados em saúde. Carolina, começo por si. O relatório "Automedicação em Portugal: Práticas Determinantes e Perfis Comportamentais", publicado em dezembro do ano passado pela Nova SBE, conclui que quase 52% dos inquiridos, numa amostra de mais de mil pessoas com mais de 15 anos, afirmam já ter recorrido à automedicação em algum momento da vida. E isto acontece sobretudo em situações ou sintomas ligeiros, como uma gripe ou a dor de cabeça. Entretanto, a Nova SBE está a trabalhar num novo estudo, a publicar até o final deste ano, 2026, do qual já existem dados preliminares. O que é que dizem as novas conclusões?
Antes de mais, obrigada pela oportunidade para estar aqui convosco a discutir um tema tão relevante. Antes de mais, só fazer aqui uma pequena distinção. O relatório que publicámos no ano passado, em dezembro de 2025, foi integralmente dedicado à automedicação. O que sucede com este relatório que vamos publicar no final de 2026, é que dá seguimento a um estudo que já se faz desde 2013 e tem sempre uma rúbrica dedicada à automedicação. E aqui o que vemos é que cerca de 41% dos indivíduos teve um episódio de doença em 2025 e nestes primeiros meses de 2026, ou seja, nos 12 meses anteriores à realização do inquérito. Mas vemos também que há um aumento nas pessoas que, sentindo-se doentes, procuram ajuda profissional no sistema de saúde. E aqui digo sistema de saúde, porque pode ser tanto no Serviço Nacional de Saúde como no privado. E diminuiu ligeiramente, face a 2025, a percentagem de indivíduos que, tendo-se sentido doentes, não procuraram ajuda profissional e dentro desses, que se automedicaram. E para dar aqui uma ideia, temos que quase 62% dos indivíduos que, sentindo-se doentes, não procuraram ajuda profissional, automedicaram-se, face a cerca de 76% em 2025. Há aqui alguma variabilidade, mas dizer que estes números de pessoas que se automedicam no relatório tendem a ser reduzidos e não podemos propriamente dizer que há uma inversão na tendência, mas está em consonância com o que vínhamos a observar. E destes que se automedicam, mantém-se o registrado e o reportado no relatório de automedicação, que é para quem decida automedicar-se, fá-lo não maioritariamente por barreiras de acesso a cuidados de saúde, mas porque diz que já tem experiência com o problema anterior. Cerca de 75% das pessoas que se automedicaram para o último episódio de doença, fazem-no por estas circunstâncias.
Ou seja, as pessoas que já antes recorriam à automedicação, sobretudo em doença ligeira, em sintomas ligeiros, continuam a fazê-lo. Podemos concluir isso?
Deste relatório mais recente, não. Do relatório anterior, sim.
Ok, então deste relatório mais recente, a principal conclusão, e este relatório não incide sobre automedicação, mas refere também a questão da automedicação, aumentou a percentagem de pessoas que, perante uma situação que elas entendam que se justifique, recorreram a um médico. Desculpem.
Sim.
É certo? Ok. É a primeira vez que estes dados estão a ser partilhados publicamente?
Sim.
Isto permite-nos tirar aqui algumas conclusões sobre maior informação sobre saúde, maior acesso a cuidados de saúde. Por que acha que isto pode acontecer?
Ou seja, esta maior procura por cuidados de saúde perante um episódio de doença, só com estes dados que aqui partilhei, não conseguimos distinguir se se deve, por um lado, a essa hipótese que o Paulo levantou, correto.
Mais informação.
Mais informação e um acesso mais facilitado. É uma hipótese plausível, mas outra pode ser a de que os episódios são mais severos. Correto. E a probabilidade que cada indivíduo tem de pensar que se calhar através da automedicação consegue resolver aqueles sintomas, pode ser menor e daí decidir procurar ajuda profissional.
Com base na sua experiência e nos estudos em que tem participado, quais são as principais razões que levam as pessoas a recorrer à automedicação?
Nós identificamos, e agora sim, estou a referir-me ao estudo de automedicação que já está publicado.
Publicado no final do ano passado.
Nós identificamos dois grandes perfis de pessoas que se automedicam em Portugal. Temos, por um lado, um perfil de pessoas que se automedica maioritariamente devido à experiência que já tem com sintomas ou com uma determinada doença, que têm maioritariamente doenças crónicas e também são pessoas que têm, em grande parte, acesso a médico de família no Serviço Nacional de Saúde. Portanto, este grupo de pessoas, este perfil de pessoas com uma automedicação mais pontual, diria, fá-lo com base em experiência e, portanto, em conhecimento adquirido. Depois temos um outro grupo, que são pessoas que se automedicam mais frequentemente, tendem a ser pessoas mais jovens, ativas no mercado de trabalho e também têm menos acesso a médico de família no Serviço Nacional de Saúde e recorrem à automedicação não necessariamente ou maioritariamente por terem tido um problema semelhante no passado, mas por uma questão de conveniência, por ser mais rápido, por ser mais célere.
Já vamos ter a oportunidade de conversar com a Nélia Isaac sobre isso, mas são esses que levantam mais preocupações?
Depende da perspectiva e aqui a Nélia dará certamente uma informação mais fundamentada nesse aspecto. Mas só dizer que, na nossa perspectiva e da leitura destes dados, cada um destes grupos levanta desafios diferentes. Se, por um lado, neste grupo que se automedica frequentemente e por conveniência, não tendo experiência com aquele sintoma ou com uma doença em específico, o facto de estar a adiar a procura por cuidados de saúde, se este recurso tiver sido por conveniência e por facilidade, por não terem médico de família, então aí é uma barreira do sistema e podem estar simplesmente a adiar a detecção e o diagnóstico de uma situação que necessita de avaliação médica. Depois, naquele grupo de indivíduos que já têm experiência adquirida e tendem a ser doentes crónicos, aqui pensamos em pessoas que podem ter asma e já sabem controlar alguns episódios através da utilização de inaladores, por exemplo. Nestes casos, como são pessoas neste perfil maioritariamente mais velhas, o problema da automedicação pode não ser tanto a falta de experiência, mas estarem a ter interações medicamentosas que sejam perigosas.
Devido a comorbidades ou outras questões. O relatório diz-nos alguma coisa, há dados relacionados com a dor crônica? Temos informação sobre isso, sobre medicação, a automedicação que as pessoas recorrem perante dor crônica?
O relatório não incidiu sobre dor crônica. O que nós conseguimos identificar é: de entre quem reporta já se ter automedicado no passado e quem tem doença crônica por diferentes categorias de doença crônica. E nós temos, por exemplo, diabetes, asma, mas temos também outras condições, como artrose, dores lombares e dores cervicais. Embora no relatório nós façamos apenas uma análise que distingue e já controla pela probabilidade de doentes crônicos ou pessoas sem doença crônica se automedicarem e por o fazerem por experiência própria, aqui para esta nossa conversa, o que fui fazer foram algumas análises adicionais. Correto? Que não estão no relatório, passo a frisar, mas que nos permitem dizer que se nos cingirmos a estas doenças que podem estar associadas, e aqui a Nélia Isaac pode complementar, mas por exemplo, artrose, dores lombares, dores cervicais. Correto? Se nós dividirmos a população de doentes crônicos, a população em três grupos distintos, ou seja, quem não tem doença crônica, quem sofre de uma destas três doenças ou de outras doenças crônicas, o que vemos é que, por exemplo, a população que tem doença crônica associada a estas dores prolongadas tem uma maior probabilidade de ser bem-sucedida num episódio de automedicação. E aqui, só frisar, bem-sucedido na perspectiva do inquirido. Correto? Porque pode não ser na perspectiva médica. Aliviou os sintomas, mas se calhar até devia ter consultado. E só dizer também que, apesar de se automedicarem mais e serem mais bem-sucedidos este grupo de pessoas que tem dor recorrente, também são aqueles que felizmente comunicam mais com os médicos de família este hábito de automedicação.
Porque são doentes que há mais tempo são seguidos e com quem há uma relação mais estreita com o médico que os segue. Poderá ser por aí.
E outra leitura que poderia fazer é que também podem estar mais alerta dos riscos que uma eventual automedicação não adequada possa ter.
Se calhar também estão mais informados sobre a sua condição, como o caso dos asmáticos, que eu conheço particularmente e que nós já sabemos como fazer em caso de crise. Aliás, os próprios médicos passam uma prescrição nesse sentido. Nélia Isaac, a dor persistente pode ser uma causa da automedicação ou, lá está, como dizia a Carolina, quem tem dor crônica já tem mais experiência acerca da medicação e dos tais riscos e já também tem maior noção de como agir em momentos de crise ou o que fazer em SOS?
Olá! Antes de mais, agradecer o convite por poder estar aqui e partilhar convosco as perspetivas dos médicos de família na abordagem da dor crónica. Eu acho que as conclusões que o relatório da Carolina chega vão muito ao encontro à nossa perceção. Efetivamente, os doentes com dor crónica e que já têm um conhecimento da medicação e que idealmente estão bem tratados para a sua dor crónica, que já têm esquemas terapêuticos de SOS, que já tiveram uma abordagem mais diferenciada, tendencialmente estão informados do que é que devem de fazer em crise. E é também essa a nossa perspetiva, porque sabendo o impacto que esta condição tem nestes doentes, nós queremos capacitar estes doentes para conseguir lidar com as crises. Em paralelo, as pessoas que, se calhar, como a Carolina diz, mais jovens, que têm um episódio pontual de dor e que não têm este trabalho todo prévio de fazer esta abordagem de dor, de estabelecer estes planos terapêuticos, se calhar têm uma maior tendência também a recorrer a estes medicamentos de alívio. Portanto, eu acho que na nossa perspetiva, não é que uns sejam mais que outros, são por motivos diferentes, que vai justamente ao encontro àquilo que a Carolina nos tem estado a dizer.
E é difícil para um médico de família perceber que uma pessoa recorre à automedicação, sendo que quando não é partilhado ou quando até recorre a alguns medicamentos que podem não ser até os mais convencionais, que no relatório também é abordado essa questão. Se o doente, através de análises, talvez, análises de sangue, mas como é que a Nélia sabe se uma pessoa está a recorrer à automedicação?
Nós temos o privilégio de ter uma relação com os doentes e acho que isso faz com que os doentes que têm médico de família consigam ter abertura para dizer o que é que tomaram perante determinada crise.
Também há uma confiança que não há noutros médicos.
Exatamente. Depois temos, naturalmente, também acesso aos sistemas informáticos. Sabemos que o doente terá alguns medicamentos em casa que não fomos nós que prescrevemos ou que se calhar já foram prescritos há mais tempo e que o doente nos diz que acabou por fazer, porque já tinha o medicamento lá em casa e acabou por tomar. Mas eu acho que no nosso contexto em específico de médicos de família com esta relação, nós conseguimos perceber porque o doente nos diz, facilmente nos transmite essa informação. De outra forma, não é tanto pelas análises. Se o doente não tem médico de família e recorre, por exemplo, a um serviço de urgência, é difícil chegar a essa conclusão e obtermos esses dados, a menos que o doente verbalize.
Mas aí recorrendo ao serviço de urgência, também não é automedicação, porque à partida é medicado para aquela crise, entre aspas. É isso. O estudo da Nova SBE concluiu que mais de 63% dos inquiridos com experiência de automedicação e que têm médico de família afirmaram não informar o médico sobre os hábitos de automedicação. É possível e relativamente fácil ou não partilhar o risco deste comportamento nas consultas quando existem listas extensas, um dia a dia muito corrido, consultas de 20 minutos?
Se falarmos concretamente da dor crónica, eu penso que isto é possível, porque faz parte das estratégias de capacitação dos doentes e de aumento da literacia dos doentes abordar estes riscos e abordar os inconvenientes do doente tomar doses acima do que é recomendado. Talvez em consulta de medicina geral e familiar, e este é um grande entrave do sistema, que é no meio da diabetes, da hipertensão, de todas as outras doenças crônicas, abordar a dor crónica de forma adequada é muito difícil para nós, porque justamente o tempo de consulta é limitado.
E quando são aqueles 20 minutos que a Cláudia referia. É bom quando se consegue ter esses 20 minutos. E ter 20 minutos de qualidade.
Eu acho também que em várias entrevistas que vamos fazendo, dizem-nos: "Os médicos de família devem alertar para anemias". E eu às tantas penso: "É muita coisa para o médico de família alertar".
Para alertar, exatamente.
É muito difícil. E muitas das vezes os próprios doentes na consulta também acabam por negligenciar um bocadinho os seus quadros de dor, porque associam a dor ao envelhecimento, porque isto são dores próprias do trabalho que eu desempenho e acabam por verbalizar isto, se calhar, é nos últimos motivos de consulta.
Só quando é uma dor aguda que as leva à urgência do hospital ou a pedir uma urgência no centro de saúde é que o referem.
Exatamente. Mas se nós conseguirmos dar a estes doentes espaço de consulta ou uma consulta em específico para abordar a dor crónica, eu acho que existem estratégias muito úteis, porque acho que um dos pilares desta abordagem é justamente ensinar o doente o que é que ele pode fazer. Porque se imaginarmos que esta dor vai persistir de forma crónica e o doente não tem sempre acesso aos cuidados de saúde, então é fundamental que ele saia da consulta com plano escrito da sua medicação. Por exemplo, pode fazer este medicamento de manhã e à noite, mas se for necessário e estiver pior, pode fazer até três vezes ao dia. E levar estes esquemas todos muito bem escritos e tudo muito bem explicado.
Nos momentos em que temos ainda receitas em papel, porque nem sempre as temos. Enfim, está lá escrito pelo punho do médico, SOS. E muitas vezes, depois, na farmácia, aquilo dá origem a uma etiqueta que o farmacêutico coloca no medicamento com essa indicação. Resta saber se a pessoa
Pois, isso às vezes é difícil.
Se toma nessas condições ou não.
Ou seja, passar a mensagem e a pessoa interiorizar e se calhar surgem dúvidas recorrentemente.
Mas por isso é que o que é ideal numa consulta de dor crônica, e quando abordamos um doente com dor crônica, que exista sempre adicionalmente à receita, um esquema terapêutico escrito. E o doente tem exatamente a medicação da analgesia de base, portanto o que ele deve fazer para controlar a sua dor crônica de base, e com estas nuances de poder aumentar a dose até este ponto, e depois a medicação de SOS. Nós temos mesmo esses papéis formulados de modo a que o doente tenha lá o papel em casa, junto da medicação e que saiba exatamente o que deve de fazer. E esta é uma estratégia útil para combater esta automedicação. E depois é justamente aquilo que disse, aumentar a literacia do doente face aos riscos da medicação e face à sua condição clínica. Eu acho que isto é muito importante, porque se os doentes estiverem informados do porquê é que têm aquela dor, o que é que está a acontecer com eles, eles percebem até onde é que podem ir com a medicação e a importância de todos os outros componentes do plano terapêutico. Porque temos que pensar que estes doentes se calhar precisam de fisioterapia, precisam de programas de reabilitação articular e é importante que compreendam que a hidroginástica e o pilates é tão importante quanto os medicamentos de base. E a Carolina falou na osteoartrose, que é uma doença muito prevalente na nossa população graças ao envelhecimento. E estes doentes beneficiam francamente de um programa de mobilização da articulação, de estarem em movimento. E se nós conseguirmos capacitar os doentes para perceber isto, eles conseguem também perceber porque é que têm que fazer aquela medicação e porque é que não vale a pena fazerem mais medicação, porque não é isso que vai mudar.
A propósito da questão do não vale a pena fazerem mais medicação e da facilidade, por vezes, de acesso à medicação, há uma questão que gostava de lhe colocar. A facilidade hoje de acesso a medicamentos não sujeitos a receita médica em supermercados ou parafarmácias, portanto, podemos comprar leite, ovos, fruta e paracetamol no mesmo momento. Isto vem aumentar os riscos da automedicação?
Francamente, na minha opinião. Ser natural ou ser suplemento ou ser de receita livre, não quer dizer que seja inócuo e que não tenha riscos associados. E de facto, as primeiras linhas de tratamento da dor são justamente o paracetamol e alguns anti-inflamatórios, que têm riscos associados. E justamente o paracetamol, como disse o Paulo e muito bem, está incorporado em muitos medicamentos de venda livre. E também existe de venda livre na farmácia. Todos estes medicamentos têm interações medicamentosas, têm dosagens-alvo que não podemos atingir pelo risco de criarmos efeitos adversos. E às vezes, vamos imaginar uma situação de alguém que tem uma dor crônica, já está medicado com uma medicação que já tem lá o paracetamol, depois ainda compra no supermercado um medicamento de venda livre que também tem paracetamol e depois, se calhar, está constipado e toma um antigripal que por acaso também tem paracetamol. Então facilmente estamos a atingir aqui doses tóxicas, sem que o doente tenha a percepção disto. Como é que colmatamos isto? Informando o doente.
Agora, para informar o doente, é preciso que o doente tenha médico de família, mas mais de um milhão e seiscentos mil portugueses não têm médico de família. Portanto, aumentamos aqui o nível de dificuldade junto desta população.
É verdade. E eu acredito que esta automedicação que exista, seja justamente um reflexo da fragilidade deste sistema. Porque na consulta temos sempre que perceber porque esta pessoa, porque este doente em específico teve necessidade de se automedicar. Não numa forma crítica, mas tentando perceber o que está a acontecer. Que se calhar esta dor é tão impactante para o doente, que ele não tendo acesso a cuidados de saúde, não teve outra hipótese senão recorrer ao tiro.
Que não seja essa mesmo. Carolina Santos, a sua investigação há pouco falava sobre as razões que podem levar a pessoa à automedicação, nomeadamente, e junto também de uma população mais nova, por uma questão de conveniência. Mas temos dados, sabemos, e é possível cruzar dados entre a automedicação e a dificuldade no acesso aos cuidados de saúde. O vosso estudo incidiu também sobre isso, não é verdade?
Sim. De facto, nós observamos esta descrição que a Nélia fazia e vemos que mesmo, controlando pelo fato de serem ou não doentes crônicos, por idade, sexo biológico, mesmo controlando por todos esses fatores, nós vemos que pessoas sem médico de família têm uma probabilidade que ronda os 25% de se automedicarem às vezes ou frequentemente. Ao passo que pessoas com médico de família, pessoas semelhantes, têm uma probabilidade de apenas 18%. E portanto, há aqui um indício que, de facto, pessoas sem acesso a médico de família tendem a automedicar-se mais frequentemente e portanto sugere que parte da automedicação está a ser usada como substituto de cuidados de saúde formais necessários, e não é esse o objetivo correto. A automedicação deve existir partindo do princípio que temos aquela possibilidade.
E que o doente está informado.
E que o doente está informado, exatamente. Mas sim, surge aqui esta noção de recurso à automedicação. Só fazer um parêntesis. É verdade que Muita da informação é transmitida em consulta, nomeadamente medicina geral e familiar, mas acho que não devemos descurar também o papel das farmácias. Correto? Enquanto ponto contacto. E há uma rede com grande capilaridade. Há muitas farmácias no país, felizmente.
A expressão: "Pergunte ao seu médico ou farmacêutico" faz sentido.
Exato, faz sentido. E felizmente vemos que a maioria das pessoas que se automedica ainda obtém o medicamento na farmácia. Portanto, há aqui uma possibilidade. São cerca de 60% que reportam obter o medicamento que usaram aquando da automedicação numa farmácia. E nestas circunstâncias até se costuma falar numa automedicação orientada. Porque é verdade que não foi prescrita, mas já teve aqui um aconselhamento por parte de um profissional de saúde.
Isso remete-me também para as outras especialidades, porque depois o médico de família também tem que fazer a ponte. Porque o que acontece muitas vezes, e já tivemos aqui na secção Dor do Observador alguns médicos a dizer que muitas vezes um doente chega a uma consulta, ou uma pessoa com dor crônica chega a uma consulta e está a tomar 20 medicamentos e tudo aquilo está a interagir de forma inadequada.
Exato, é isso mesmo. Porque é preciso justamente isto que estávamos a falar, que é sentar, olhar para a dor crônica, olhar para o impacto que aquilo tem e ver o que é que faz sentido naquele caso em específico. E às vezes quando o doente vai a múltiplos profissionais de saúde que estão a tratar componentes específicos das suas doenças de base, se calhar falta esta visão. Agora vou, naturalmente, enaltecer os médicos de família.
E bem.
Falta esta visão generalista do médico de família para integrar aquilo tudo no contexto do doente e perceber: "Olhe, já está a fazer este medicamento, se calhar não faz sentido fazer este". E depois também capacitar o doente justamente para gerir esta medicação.
Eu estava a pensar há pouco aqui numa questão que eu acho que é importante. A consulta do dia, ou seja, uma consulta de urgência, que eu acho que hoje em dia já não é tão facilitada assim. Tem que se ligar para a Saúde 24.
Podes ter acesso a ela, mas através da Saúde 24.
Exato. Mas aí depois os critérios, ou seja, um doente pode estar muito desesperado em termos de dor e não ser propriamente referenciado para essa consulta de urgência.
Correto.
Há uma diferença, se calhar é pouco tempo ainda para perceber, mas há uma diferença em relação às pessoas que tinham esse acesso e que agora dependem da Saúde 24? Ou pode também ser uma coisa boa porque muitas vezes as urgências— bem, cada pessoa tem o seu motivo para ir à urgência e será certamente válido. Mas como é que esta mudança pode interferir aqui neste processo, depois de levar a pessoa a automedicar-se?
Se falarmos exclusivamente de dor crônica, o ligar para a Saúde 24, a única coisa que determina é onde é que o doente vai ser observado, quais são os critérios de gravidade daquele doente, que determina se pode ser avaliado em cuidados de saúde primários ou se tem que ir para contexto hospitalar. Mas mesmo em cuidados de saúde primários, essa avaliação não é garantidamente pelo médico de família.
Mas é o médico que estiver-
Que estiver de urgência. Com o tempo de consulta também tendencialmente mais limitado. E portanto, em bom rigor, não deixa de ser uma consulta de urgência.
Desculpe interromper, mas sendo encaminhado em cuidados de saúde primários, não será um especialista em MGF?
É, mas não é o seu médico de família.
Ah, não é o seu médico de família. Certo. Até pode ser, a pessoa pode estar noutro local. Eu agora em férias, eu e com certeza muitos portugueses, tive que recorrer ao SNS 24 e fui encaminhado para um centro de saúde do local donde eu estava. E naturalmente não era o meu médico de família.
Exato. E não deixa de ser uma consulta de urgência e com pouco tempo.
Claro.
E se falarmos exclusivamente da dor crônica, é uma condição muito complexa, que afeta vários domínios do doente. E em 15 minutos de consulta de urgência é muito difícil nós vermos a medicação crônica do doente, que doenças é que tem, que interações é que possam existir. Nós queremos aliviar a dor do doente naquele momento, mas depois falta toda a outra abordagem por trás, que deve ser feita numa consulta mais estruturada de abordagem de dor crônica, naturalmente, idealmente, e por isso é que todos os médicos deverão conseguir abordar esta condição, que é olhar para todo o impacto que esta dor tem, seja no som do doente, seja no humor do doente. No contexto de todas as doenças crônicas do doente. Por exemplo, eu tinha há dias um doente, vou dar o exemplo, que me disse: "Desde que tomo este medicamento para dor, parece que esta doença que eu tinha está descompensada". Nós temos que ter tempo para desconstruir isto, para explicar ao doente se isto é ou não verdade, se isto pode ou não acontecer, e depois também tranquilizá-lo na medida que sim, se calhar isto pode acontecer, mas é importante que faça esta medicação para ter a dor crônica e nós otimizamos a outra doença também da mesma maneira.
Até porque a medicação precisa de tempo de adaptação.
Exatamente, precisa de tempo de adaptação. Muita da medicação da dor crônica precisa de esquemas demorados de titulação para não termos efeitos adversos. Idealmente, nas minhas consultas de dor crônica, se eu abordo um doente uma primeira vez, eu tento avaliá-lo uma semana depois. Como podem imaginar, isto em contexto de cuidados de saúde primários, às vezes é muito complicado.
É muito complicado.
É uma casa organizada.
Exato. Mas idealmente é isto, o doente deve ser reavaliado num curto espaço de tempo para vermos se está a tolerar a medicação, se podemos ajustar a medicação. E portanto, tudo isto leva tempo
Naturalmente que se o doente não tem acesso a esta consulta mais diferenciada, é mais frequente que perante uma exacerbação do seu quadro de dor, que não consegue ir trabalhar e a família depende dele ou não dorme há dias com dor, no desespero é natural que as pessoas recorram à automedicação.
Carolina, esta pergunta até pode ser para as duas e já estamos perto do fim desta conversa. Este relatório mostra também que a automedicação pode ser positiva, entre aspas, e até segura. Todos nós temos uma farmácia caseira, muitas vezes até com medicamentos com prazo de validade. Atenção a isso, que de vez em quando convém fazer uma reciclagem. O que diz o relatório em relação a isso?
Fazer uma reciclagem e levá-los para a farmácia.
Levá-los para a farmácia, claro.
Para serem eliminados.
Era mesmo nisso que eu estava a pensar. Em que situações é que a automedicação pode ser segura, segundo o relatório?
Em primeiro lugar, a pessoa tem que ter informação correta e fidedigna. E neste sentido, nós reforçamos a necessidade de talvez se repensar o papel que a Direção Geral da Saúde e mesmo linhas como SNS 24 possam ter no aconselhamento de eventuais medicações que possam ser utilizadas para questões pontuais. Em termos sistémicos, diria que também há aqui um ponto de vista positivo, porque para problemas menores, pontuais, em que a pessoa tenha, de facto, acesso a informação de qualidade e tenha noção dos riscos, podemos ver a automedicação como uma primeira etapa do percurso de cuidados. Fala-se muito hoje em dia em integração de cuidados. Tipicamente, a primeira ideia que temos como integração de cuidados é entre cuidados de saúde primários e cuidados hospitalares. Mas nem todas as decisões de uma pessoa, de um utente, num episódio de doença, têm necessariamente ter contato com profissionais de saúde. E portanto, assegurando que as condições de informação estão lá, esta automedicação pontual e informada pode ser vista como um exercício de autonomia da pessoa. E aliviar um sistema de saúde, nomeadamente o Serviço Nacional de Saúde, que já está sobrecarregado e deixar essas consultas e recursos diferenciados para quem efetivamente precisa deles. Agora, tem que haver, e vocês sentem informação, comunicação com os profissionais, isso é muito importante. Ou seja, felizmente a Nélia diz que a maioria dos seus utentes comunicam a automedicação que fizeram, mas no relatório, a grande maioria dos inquiridos reporta não fazê-lo. Portanto, incentivar talvez os médicos dentro dos limites que tenham de tempo, de incentivar os doentes a partilhar e talvez adotar uma postura mais empática, não punitiva, porque alguns doentes podem ter até receio de partilhar o que fizeram.
Têm medo do puxão de orelha.
Exato. Ou podem simplesmente não querer ocupar o tempo do médico, podem também achar que não foi relevante. E depois, caso tenha havido algum episódio de automedicação, eventualmente inserir no sistema, mas pode ser importante nesse sentido. Deve haver informação estruturada, nomeadamente disponibilizada pela DGS, porque de outra forma sabemos que todas as pessoas não há internet.
Cada vez mais. Passamos do chat GPT. Nélia.
Então, eu concordo com aquilo que a Carolina disse. Numa primeira abordagem e principalmente num caso agudo, isto poderá acontecer até, idealmente, sobre aconselhamento farmacêutico. Mas aqui o risco surge quando esta atitude se torna prolongada. E aí depois temos os atrasos de diagnóstico, temos a cronificação de quadros de dor, especificamente. Mas acho que, se calhar, a parte do doente transmitir ao médico passa muito por aquilo que a Carolina disse de desconstruir esta ideia de punição. E então reforçar aquilo que disse, de olharmos pra automedicação como uma consequência do sistema de saúde que temos, da falta de acesso que temos. E inquirir isto ativamente na consulta, porque se nós perguntarmos ativamente ao doente: "Olhe, e pra isto, já fez alguma medicação, mesmo alguma coisa que tenha lá em casa?" Se calhar, havendo esta questão, o doente já se sente mais tranquilo pra partilhar, porque se calhar o médico está preocupado em saber. Mas é muito importante que o doente esteja capacitado, e volto a frisar, pra que isto não aconteça de forma crônica, porque vamos começar a ter efeitos adversos acumulados pelo uso prolongado destes medicamentos de venda livre e esta automedicação, como a Carolina disse, muitas vezes utilizada noutros contextos e que o doente acaba por reutilizar quando necessita. E depois também o atraso de diagnóstico que isto causa, porque se calhar, se o doente recorre à automedicação e aquilo resolve, então não vai ao médico por este problema. E nós estamos a atrasar o diagnóstico.
E a um adiar de um problema.
De um diagnóstico. E perdemos aqui a oportunidade de implementar um plano de tratamento em várias vertentes que faz com que esta doença não progrida.
Na dúvida, os conselhos dos vizinhos e dos amigos, se calhar, ficam pra atrasar.
Exatamente, as redes sociais. Aquilo que está escrito nas redes sociais, na internet, tem que ser olhado de uma forma muito crítica e em contexto específico daquele doente, com base em todas as medicações que faz, se o rim funciona bem ou não, se o fígado funciona bem ou não, todas as doenças que tem, porque determinados medicamentos agravam outras condições. Um exemplo muito típico é, por exemplo, os anti-inflamatórios, que podem agravar a hipertensão. E se os doentes estão constantemente a tomar o anti-inflamatório que têm lá em casa, depois é possível que surjam nos cuidados de saúde primários com as suas doenças de base descompensadas. Portanto, é muito importante que seja olhado de uma forma mais integrada no contexto do doente.
Muito obrigada às duas. Foi uma excelente conversa. Obrigada, Paulo.
Obrigado, Cláudia. Carolina Santos, Nélia Isac, obrigado pela vossa disponibilidade. Esta conversa e as outras anteriores do podcast Conversa Sobre Dor está disponível nas plataformas habituais e no site do Observador, onde temos uma secção totalmente dedicada ao diagnóstico e tratamento da dor crônica. Até a próxima.
Esta entrevista faz parte do Projeto Dor, uma iniciativa do Observador com o apoio da Ferraz Lins