(A)Ceuta que dói menos

🗓️ 2026-08-01 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Uma civilização não morre sempre por falta de força, mas pode ser moribunda por excesso de boas maneiras. Aconteceu em Ceuta, em Julho de 2026, no Estreito de Gibraltar. Mil e quinhentas almas em dez dias, atravessaram de madrugada, porque algum burocrata, algures, decidiu que a fronteira de um continente vale menos do que o lucro de uma rede de tráfico e o conforto de quem devia tê-la fechado há muito.

Os comunicados oficiais eufemizam o sucedido, apelindado-o de “emergência humanitária” com aquela linguagem abstracta que já nada descreve e que apenas protege o colarinho de quem a escreve. Uma fronteira que se abre porque a polícia deixou de a conseguir segurar já não corresponde ao seu propósito e passou a ser uma cortina trapalhona que caiu a meio do espectáculo. E o que ficou por dizer nessa noite não foi a queda em si, mas o alívio mal disfarçado com que certos gabinetes a receberam, transformando a impotência numa enganosa e ludibriante forma superior de virtude.

Dir-se-á isto sem rodeios: o que se vê em Ceuta é o preço de uma soberania dissolvida às colheradas, em comités, directivas e eufemismos; em que ninguém, em Bruxelas nem em Madrid, convenhamos, sabe ao certo onde começa e onde acaba aquilo a que ainda chamamos  de “nós”.

Morrer afogado pela inépcia alheia não tem nada de nobre; mas abrir os portões à última hora, sob pressão das câmaras, não é fazer política. Assistimos à pura confissão desastrosa de que nunca houve política nenhuma, apenas uma gestão adiada da crise anunciada há uma década. As “compaixões” de comunicado, que se medem em palavras e não em fronteiras seguras, são hoje uma das mais requintadas formas de crueldade. Sacrifica-se o migrante ao mar e o cidadão à insegurança, para que ninguém tenha de ser suficientemente corajoso para impor limites e dar os murros na mesa que sejam precisos.

Porque é disso que se trata, de traçar o limite. Um povo incapaz de dizer “até aqui” a mais ninguém pertence, no sentido mais literal do termo; perde forma, perde memória comum e perde aquilo a que os antigos chamavam de  pátria e que hoje se troca, com pudor, por “espaço de valores”. Valores sem fronteiras não são valores; e um povo que hesita entre chamar-se de “cidadão” ou “consumidor de direitos” já perdeu a discussão antes de a começar, porque só se defende aquilo que primeiro se ama, e só se ama aquilo a que primeiro se dá um nome.

Este é o osso do argumento identitário, e seria uma atroz cobardia limá-lo; a fronteira não é uma linha no mapa, é o último gesto simbólico de um povo que ainda julga ter uma história própria a proteger.

Mas há outra leitura, e recusá-la seria desonesto e pouco corajoso.

Quem defende fronteiras abertas não o faz por ingenuidade, fá-lo porque fechar um mar torna-o mais rentável para quem trafica pessoas e mais mortal para as que tentam fugir. Os dezassete corpos no Estreito de Gibraltar tanto podem ser a prova de uma fronteira demasiado fraca como de uma fronteira já demasiado dura para se atravessar em segurança. É o mesmo padrão de Lampedusa, do rio Evros, do Canal da Mancha: o muro não faz desaparecer o movimento humano, empurra-o apenas para as rotas mais perigosas e para os intermediários mais sem escrúpulos.

Há um segundo argumento, e não menos incómodo. A Europa é, em larga medida, co-autora das condições que tornam a travessia preferível à permanência: políticas comerciais, cumplicidades com regimes autoritários e intervenções militares. Os europeus não são uma vítima passiva quando tratam a migração como um fenómeno meteorológico que simplesmente “acontece” à Europa. Falo de uma amnésia conveniente, que poupa o continente de se perguntar pela sua própria parte responsável na fabricação do desespero alheio.

E há, por fim, um argumento mais difícil de rebater com retórica; porque o direito de asilo não é um capricho sentimental. É uma das poucas conquistas que sobreviveram ao século mais violento da história europeia, desenhada precisamente para os momentos em que a “soberania” de um Estado se tornou um instrumento de morte para quem nele vivia. Abandoná-lo por comodidade administrativa é esquecer porque é que esse direito foi criado.

Não há aqui qualquer síntese de carácter confortável. Um povo consciente da sua identidade tem razão quando diz que uma comunidade sem fronteira reconhecível deixa de conseguir decidir o seu próprio destino — e decidir é exactamente o que distingue um povo soberano de um território administrado como um negócio. Um europeu tem razão quando diz que a resposta a essa perda de controlo não se constrói sobre corpos no mar, e que endurecer sem corrigir as causas apenas desloca a tragédia e não a resolve.

Ceuta não vai sair das manchetes só porque um governo mandou o Exército para uma fronteira que devia ter sido pensada há dez anos. O Exército apaziguará as imagens televisivas, mas certamente não resolverá as causas. E enquanto a Europa continuar trôpega entre o limite absoluto e a abertura absoluta, vai continuar a produzir, com regularidade quase litúrgica, o mesmo quadro de portões que cedem, corpos no mar, comunicados solenes, e o silêncio que se segue até uma próxima vez.

O que Ceuta expõe não é apenas uma fronteira porosa, nem apenas um direito de asilo sob pressão. É uma civilização que perdeu a coragem de governar — e que, por isso mesmo, já não sabe distinguir entre acolher e desaparecer, nem entre proteger e abandonar.