A Coleção Arqueológica Dr. José Coelho
Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, seja bem-vindo. Esta é a História das Histórias, eu sou o João Paulo Secadura e o Jorge Adolfo Marques, historiador e professor, ele que é mestre em arqueologia, vai hoje, depois de nos mostrar a estação rupestre de Molelinhos ontem, vamos à época romana e vamos falar de uma estalagem romana da Raposeira, que fica ali pra zonas de Mangualde. Vamos a isso. Jorge, bem-vindo.
Olá. De facto, ontem andamos por Molelinhos, hoje vamos um bocadinho mais para o interior, para o Conselho de Mangualde, e para visitarmos, para fazermos referência e incentivar a visita a uma estação arqueológica que durante muitas décadas foi conhecida como a Citânia da Raposeira. Aliás, ainda hoje, para se referir, é a Citânia da Raposeira. É um local que foi escavado já no século XIX. O primeiro arqueólogo que escavou foi José Osório de Castro, que foi apoiado pela Sociedade Martin Sarmento.
Sim, de Guimarães.
De Guimarães. A famosa Sociedade Martin Sarmento. Em 1889, ele andou lá em 1889. Mas depois, o local que fica ali, hoje dentro da cidade de Mangualde, até que há umas décadas atrás ficava na periferia, naqueles terrenos agrícolas, na periferia da cidade. Era uma pequena cidade, nas últimas décadas cresceu significativamente. E este local situado na base do Monte da Senhora do Castelo de Mangualde, um local muito conhecido, que curiosamente foi a cabeça, aí provavelmente situou-se o Castelo das Terras de Zurara, e que muito antes desse castelo que lá existiu no Alto da Senhora do Castelo, foi um castro dum povo, os Araocelum, que são referidos numa inscrição romana. Portanto, uma inscrição romana que refere esse povo que provavelmente vivia ali e que mais tarde vai dar origem a um castelo. Portanto, na base desse monte fica a tal Citânia da Raposeira. Que depois dessas escavações iniciais, foi também escavado por uma figura incontornável da arqueologia regional, que é a doutora Clara Portas, que durante 12 campanhas consecutivas, desde 1985, escavou, deu a conhecer aquela estação, aquele sítio.
Foi quase um século, agora que eu estou a ver, desde 1889, as primeiras sondagens arqueológicas. Quase 100 anos depois, voltou então a doutora Clara Portas a pegar naquilo. Incrível!
Exatamente. Quase 100 anos depois, há um arqueólogo, claro, um arqueólogo com as técnicas modernas de investigação, que escavou o local, pôs quase a descoberto tudo quanto hoje podemos visitar. Que é importante dizer que o local pode ser visitado muito facilmente. Estaciona-se o carro ali mesmo à portinha do sítio onde fica a estação e caminham-se 20 metros, se tanto. Não se paga bilhete pra entrar. Tem uns painéis acesso livre.
Painéis explicativos?
Painéis explicativos. Acesso livre, mas responsável.
Sim, claro, muito importante.
E nós devemos sempre chegar e deixar o sítio mais limpo do que quando chegamos lá.
Exatamente, quando saímos.
E portanto, em 2012, 2013, a estação arqueológica foi objeto de recuperação, de requalificação.
Pela Câmara de Mangualde.
Pela Câmara de Mangualde, não se encontrava nas melhores condições de visita. E essa intervenção permitiu recuperar e perante as estruturas arqueológicas, os muros que estavam à vista e os materiais, porque é importante dizer que saíram de lá muitos materiais cerâmicos, moedas, objetos em metal, que saíram do espaço que foi escavado. Mas conjugando todos esses elementos, foi dada uma nova interpretação ao sítio, isto é, até há alguns anos atrás, era interpretado como sendo eventualmente uma vila romana.
Portanto, uma muraria, uma casa.
Uma casa de um senhor de campo. Como no Alentejo, um monte alentejano que sucede precisamente a vilas, que na sua origem eram vila romana, e depois teve uma ocupação visigótica, árabe, por aí fora, até os nossos dias.
Então quer dizer, Jorge, pelo material que encontraram e que foram descobrindo, perceberam que não era uma vila, mas era mais do que isso.
Era provavelmente, ou será provavelmente, uma mansio ou mutatio. Estes são os nomes latinos para uma estalagem romana. Uma estalagem romana que seria pública, mas que era importante, era um bocado como as nossas estações de serviço nas autoestradas. Por quê? Por quê? Porque ali perto, ali ao lado, passava uma importante estrada romana que vinha lá de Mérida, da capital da Lusitânia.
Exatamente, Mérida Augusta.
E que passava ali neste percurso, dirigindo-se a Viseu.
Vissaium, como tu chamavas.
À Vissaium.
Como tu nos disseste.
À Vissaium romana, à cidade romana de Viseu. E que se dirigia à Braga, a Bracara Augusta. Portanto, havia ali uma estrada importante, uma estrada imperial. Essa estrada teria que ter, ao longo do seu percurso, locais onde as pessoas pernoitassem, mudassem de cavalo, alimentassem os cavalos, descansassem.
Faz lembrar como no norte de África, os caravan sarays, aquelas estalagens de caminho, da mala posta. Engraçado.
É a estação de serviço que nós temos, mas sem a dormida, basicamente. Mas dava-se combustível aos animais.
O prenso.
As pessoas comiam, podiam pernoitar.
Podiam repousar um pouquinho.
Tomar banho. Por quê? Porque entre as estruturas que foram identificadas naquele sítio, há, por exemplo, uns termas, uma parte de banhos, que embora relativamente reduzida.
Mas público. Exato.
Sim, permitia a quem pernoitasse também refrescar.
Poder refrescar. Exato.
Exatamente.
A sua higiene.
Fazer a sua higiene, muito ao costume romano.
Exatamente.
E não muito longe, naquele espaço todo escavado, há também vestígios de uma possível forja.
Onde trabalhava o ferro?
Onde se trabalhava o ferro, que podia ser precisamente para aspetos de compor uma carroça.
Exatamente. Uma roda.
As estruturas dos cavalos, uma roda. Esse tipo de coisas.
Uma oficina, digamos.
Exatamente, era ali uma oficina de rápidos.
Serviços rápidos.
Serviço rápido. Ora, esta mansio ou mutatio, como eu disse, esta estalagem romana, provavelmente dos inícios da nossa era.
Do primeiro século.
Exatamente. Terá sido ali do período do imperador Augusto, e que estava ali junto àquela estrada. Foram encontrados muitos materiais cerâmicos de grande qualidade, moedas. Foi encontrado um pequeno tesouro numismático de alguém que já não o recuperou. Escondeu as moedas, mas elas ficaram lá. Nunca mais as recuperou. Coitado do indivíduo que as escondeu. Ou se esqueceu do sítio ou aconteceu uma tragédia qualquer.
Tudo isso se pode visitar aqui?
Tudo isso se pode visitar. Os materiais encontram-se guardados numa associação em Mangualde, que promoveu as escavações arqueológicas e pela Câmara Municipal. Agora, o interessante aqui é nós, no local, percebermos que é um território profundamente romanizado e que estava ali junto à estrada imperial e que permitia o apoio a todos aqueles que circulavam nessa estrada imperial. É um local muito interessante, um local a visitar, um local em espaço aberto, ótimo para estes dias de calor.
Exatamente. Mais uma sugestão extraordinária e agradeço muito. Jorge, é sempre bom passear guiados por ti. Aqui estamos numa estalagem romana, eu adorei a ideia da estação de serviço. E de fato é muito interessante. Raposeira, ainda por cima, mas com tudo que lá se encontrou e que se pode visitar. Os quartos, aquelas dependências que há ali à volta com quartos, cozinha, armazéns, estábulo, a tal provável forja que tu falaste. Muito curioso. Fica então esta sugestão da estalagem romana da Raposeira e bem perto de Mangualde. E quanto a nós, Jorge Adolfo Marques, marcamos encontro amanhã. Até amanhã. Bem-hajas. Um abraço.
Até amanhã.