“A dor não passa”, diz mãe do ator Jeff Machado, assassinado após golpe

🗓️ 2026-08-29 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
Maria das Dores
Maria das Dores (./Arquivo pessoal)

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Quando recebi uma mensagem do celular do meu filho, em janeiro de 2023, senti que havia ali algo de errado. Jeff tinha se mudado de Santa Catarina para o Rio de Janeiro atrás do sonho de ser ator. Conversávamos todos os dias. Aqueles erros de ortografia e as expressões não eram dele. Outro sinal que acendeu em mim um alerta foram as seguidas desculpas que dava para não falar — preferia sempre escrever. Não passou muito tempo, e recebi a notícia de que um de seus oito cachorros, dos quais cuidava com tanto zelo, havia sido atropelado. E nada do meu filho. Foi aí que bateu a certeza de que ele estava com algum problema. Só não poderia imaginar que tinha sido vítima de um crime. Tudo o que Jeff queria, aos 44 anos, era conseguir papel em uma novela e caiu no golpe de um homem que conheceu na internet: ele cobrou 30 000 reais pela falsa promessa de emplacar seu nome em algum elenco da Globo. Acabou perdendo a vida. Assassinado, foi achado em um baú numa casa na Zona Oeste carioca. E eu nunca mais fui a mesma.

Jeff teria sido atacado em sua própria casa por Bruno Rodrigues. As investigações indicam ainda que o crime foi planejado: Bruno matou Jeff, e um comparsa, Jeander Vinicius, ajudou a ocultar o corpo em uma cisterna que havia sido recém-construída. Um pesadelo. Jeander foi recentemente condenado à prisão por homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e maus-tratos a animais. Como a porta da residência foi deixada aberta pelos criminosos, os cães fugiram de lá e uma ONG ajudou no resgate deles. Ainda sem saber o que havia acontecido, comecei uma batalha para que as autoridades se mobilizassem para identificar o paradeiro do meu filho. Queria encontrá-lo, vivo ou morto. E fui à luta. Já havia perdido meu primogênito em 1993, aos 17 anos, em um acidente de carro. Tirei forças de onde não tinha para criar os outros dois, com quem construí um vínculo forte. Fiz vários boletins de ocorrência entre Rio, São Paulo e Santa Catarina. Contratei um advogado, que o tempo todo me orientou. Não tenho do que reclamar dos agentes da Delegacia dos Desaparecidos, que acreditaram em mim quando mostrei as conversas no celular e me deram suporte.

Assim se passaram quatro meses de profunda angústia, com amigos indo de um hospital a outro — e nada. Um dia, recebi uma ligação do advogado dizendo que o corpo tinha sido encontrado. Não senti o chão: meu mundo despencou. Não conseguia assimilar a ideia de que meu filho estava sem vida, depois de sofrer tanta violência — teve os braços amarrados e um fio envolto no pescoço pelos criminosos. Movida por um sofrimento incapaz de ser traduzido em palavras, decidi que não mergulharia por inteiro na tristeza. Tinha que ficar de pé para brigar. A partir de um esforço de inteligência policial, os agentes conseguiram chegar a Bruno, que enganou e matou meu filho depois que ele passou a desconfiar daquela falsa promessa da Globo.

Foram três intermináveis anos, a dor não passa, mas pela primeira vez eu experimentei um sentimento de justiça. Em junho, fui ao Ministério Público do Rio para o julgamento popular de Jeander. Cheguei fortalecida, preparada para encarar um de seus algozes nos olhos. Tive a oportunidade de falar sobre o meu filho, da infância à vida adulta, mostrando que a sociedade havia perdido um homem bom e apaixonado pela família. Jeander foi condenado a 22 anos e nove meses em regime fechado. Quero que a pena seja maior e, por isso, entrei com recurso. O próximo passo será o julgamento de Bruno, a mente perversa por trás da trama, marcado para dezembro deste ano. Vou me preparar emocionalmente até lá, com ajuda de uma psicóloga e amparada pela minha fé. Desejo que Bruno receba a condenação máxima. Vou até o fim nessa batalha. Meu filho merece.

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Maria das Dores em depoimento a Paula Freitas

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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