A escolha é: poderes médios contra homens fortes - 15/09/2026 - Rui Tavares - Folha

🗓️ 2026-09-16 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Se eu fosse brasileiro, não quereria ler sobre mais nada senão as eleições brasileiras. Mesmo não sendo, partilho da obsessão com o assunto; mas a Folha já tem gente muito boa para escrever sobre o tema — e esta coluna faz parte da seção Mundo, pelo que decidi antes escrever sobre desenvolvimentos recentes que também terão de ter uma resposta por parte do Brasil quando estas eleições produzirem o seu resultado.

Hoje é dia do discurso do Estado da União Europeia em Estrasburgo, numa das sedes do Parlamento Europeu. Falará Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Mas pela primeira vez assistirá ao discurso um chefe de governo de um país não-europeu, o premiê canadense Mark Carney, que recentemente declarou que o Canadá procurará ter um tipo de integração por associação na União Europeia (da Austrália chegaram intenções semelhantes).

Este passo, à primeira vista surpreendente, não é tão estranho; o Canadá já tem um modelo de estado social, uma democracia liberal e uma afinidade cultural com o continente europeu que lhe facilita a aproximação. Acima de tudo, é do ponto de vista da "estratégia dos poderes médios", que Carney defendeu no seu discurso de Davos, que deve entender-se a ideia de juntar de alguma forma a União Europeia e o Canadá.

Escrevo antes de ser conhecido o discurso, mas espero que haja nele um anúncio que nos permitirá entender que forma de aproximação poderá ser essa: trata-se da proposta de criar um Conselho de Segurança Europeia do qual façam parte os chefes de Estado e de governo, ministros da Defesa e Estados-Maiores de todos os países da União Europeia, com possibilidade de extensão ao Reino Unido, à Noruega, à Islândia e precisamente ao Canadá. No fundo, uma espécie de Otan sem Trump, preparada para qualquer eventualidade futura.

É que Trump tem também ele uma estratégia global: a de favorecer a eleição em todo o lado de "homens fortes" alinhados ideologicamente com ele e que facilitam a expansão permanente de uma esfera de corrupção à escala global, de que se beneficia ele e a sua família. Na sua estratégia, não há diferença entre democracias e ditaduras, desde que o dinheiro corra para os seus bolsos, venha ele do Qatar, da Rússia ou do petróleo venezuelano.

Lá Fora

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Também o Brasil vai fazer uma escolha entre estas duas estratégias. Ou segue o resto da tendência no continente americano, da Argentina a El Salvador, passando pela Colômbia, e se estabelece como mero estado-cliente dos EUA trumpistas. Ou preserva a sua autonomia de decisão para poder fazer alianças, seja no quadro do Sul Global, dos Brics ou da estratégia de "poderes médios" preconizada pelo líder do Canadá e que tanto agrada aos europeus.

Na primeira opção, o Brasil ficará encerrado num caminho de sentido único. Na segunda, o Brasil manterá aquilo que o tem historicamente definido: a capacidade de ser uma potência com política exterior própria, uma diplomacia reconhecida e respeitada, uma voz própria no mundo.

Imagino que poucos brasileiros vão decidir por estas razões; mas é importante para o mundo a decisão que tomarem.

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