A FIFA diz que "ninguém está a vender o futebol" mas 143 países estão desconfiados. Entenda toda a polémica
A Confederação Asiática de Futebol juntou-se à UEFA e à CONCACAF. Apesar da oposição generalizada, a FIFA prometeu, esta sexta-feira, avançar com uma consulta “aberta e democrática” sobre o plano de investimento privado
A Confederação Asiática de Futebol (AFC) juntou-se à UEFA (Europa) e à CONCACAF (América Central e do Norte) na oposição aos polémicos planos de investimento da FIFA, o que praticamente deita por terra o projeto de Gianni Infantino.
Apesar da oposição generalizada, a FIFA prometeu, esta sexta-feira, avançar com uma consulta “aberta e democrática” sobre o plano de investimento privado.
A AFC não chegou ao ponto da UEFA, que ameaçou com um boicote às competições organizadas pela FIFA, mas exige que o organismo que rege o futebol mundial não prossiga com o plano anunciado, tendo em conta toda a controvérsia que "expôs fragilidades fundamentais" no seio da FIFA, quanto aos seus processos de consulta e tomada de decisão. "Isto precisa de ser resolvido agora", conclui. Sendo assim, pede à FIFA que "realize uma revisão urgente da sua governação e estrutura de tomada de decisões".
AFC stands in solidarity with UEFA and CONCACAF following recent developments surrounding the proposed establishment of FIFA Forward Enterprise (FFE).https://t.co/k7MjAvWOhX
— AFC (@theafcdotcom) July 31, 2026
Qual é o plano de investimento da FIFA?
A FIFA quer aumentar nos próximos anos o financiamento destinado ao desenvolvimento do futebol, através de uma nova estrutura comercial, cuja criação depende da aprovação da maioria do Conselho e das 211 federações-membro.
A proposta do presidente Gianni Infantino passa pela criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), avaliada inicialmente em 20 mil milhões de dólares (17,4 mil milhões de euros). A FFE será detida pela FIFA e reunirá os direitos comerciais do organismo (transmissão e patrocínios das suas competições), com "todos os lucros" a serem reinvestidos no futebol. Seriam fundos canalizados para infraestruturas, treinadores, seleções, competições, formação e futebol feminino, anunciou.
No entanto, a proposta prevê a venda de até 20% do capital a investidores externos privados, que serão sempre acionistas minoritários. Um dos principais nomes ligados às negociações com a FFE é Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump, que está em conversações para liderar o negócio através de um fundo de investimentos chamado Thrive Eternal Fund.
A FIFA afirma que o plano anunciado na terça-feira poderá gerar até 4,2 mil milhões de dólares (3,65 mil milhões de euros).
Se for aprovado, o projeto poderá garantir a cada uma das 211 federações-membros da FIFA um pagamento único de 20 milhões de dólares (17,4 milhões de euros) no início de 2027 e ainda aumentar consideravelmente a sua dotação de financiamento para o ciclo 2027-2030.
Quantos países já recusaram o plano?
A FIFA precisa que pelo menos 106 dos 211 países membros aprovem o plano de investimento.
Deu-lhes um prazo até 19 de setembro para decidirem, mas parece que a situação pode ficar resolvida antes disso.
UEFA e CONCACAF reúnem 55 e 41 federações, respetivamente. A AFC tem 47 membros. Isto significa que já 143 membros manifestaram a sua oposição ao plano.
A UEFA, organismo que tutela o futebol europeu e do qual faz parte a a Federação Portuguesa de Futebol, sublinhou que o anúncio da FIFA "atravessa uma linha que as instituições que governam o futebol nunca deveriam atravessar". "A UEFA leva este anúncio de forma extremamente séria. Todas as federações nacionais de futebol também o deveriam fazer, assim como cada acionista que se importa com o futuro do futebol. A alma e a governação do futebol não são bens comercializáveis - muito menos com zero transparência sobre quem ganha financeiramente. Nenhum de nós é dono do futebol. O futebol não é da FIFA para vender", disse.
Statement on behalf of UEFA and its 55 National Associations
— UEFA (@UEFA) July 30, 2026
"O Campeonato do Mundo da FIFA é o auge do futebol mundial e retira a sua força da participação de todas as confederações e das principais nações do futebol mundial. Qualquer proposta que ameace compromenter a unidade e o carácter universal da competição deve ser reconsiderada", afirma a AFC no comunicado divulgado esta manhã, acrescentando que a FIFA "não consegue, realisticamente, alcançar o amplo consenso e a unidade necessários para avançar".
"Ninguém está a vender o futebol", diz a FIFA
“Ninguém está a vender o futebol”, afirmou a FIFA, reagindo às críticas. “Isto é algo que a FIFA nunca admitiria."
A organização defende que todas as suas federações-membros devem poder analisar o plano, apelando a uma consulta “aberta e democrática”.
"Respeitamos o feedback e as preocupações expressas publicamente e reafirmamos o nosso compromisso com uma consulta aberta e democrática. O processo de consulta planeado foi interrompido por informações incorretas na comunicação social. Vamos continuar com este processo de consulta para garantir que cada Associação Membro possa expressar o seu voto com base em factos", diz o comunicado.
"A FFE foi proposta unicamente para garantir que todas as Associações Membro da FIFA tenham a oportunidade de assumir um papel significativo na exploração comercial do futebol nos seus respetivos países, sem que isso comprometa o espírito ou a governação da FIFA ou do próprio futebol. Ninguém está a vender o futebol. Isso é algo que a FIFA nunca consideraria."
"Um mau negócio para o futebol": conselheiro de Infantino demite-se
Carlos Cordeiro, conselheiro do presidente da FIFA, Gianni Infantino, demitiu-se esta sexta-feira do cargo com efeitos imediatos, em protesto contra a proposta, classificando o plano como "um mau negócio para o futebol".
"Deixem-me ser claro: não tive qualquer envolvimento nesta proposta e oponho-me a ela inequivocamente", disse Cordeiro em comunicado. "É um mau negócio para as Associações Membro da FIFA, um mau negócio para o futebol e um mau negócio para o futuro do desporto a longo prazo".