A geração do quarto escuro

🗓️ 2026-08-21 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Caminhamos a passos largos para o triunfo absoluto do isolamento doméstico. O leitor decerto recorda a promessa idílica que nos venderam há uns anos de que o teletrabalho seria a libertação final do homem moderno. Acabariam as filas de trânsito compactas, o suplício dos transportes públicos sobrelotados e a tirania do relógio de ponto. A casa passaria a ser o castelo da produtividade. O que se esqueceram de nos explicar é que, ao transformarmos as nossas salas em escritórios, transformámos também as nossas vidas num perpétuo e claustrofóbico dia de trabalho.

A ironia é puramente portuguesa nesta nossa asinina incapacidade de prever o óbvio. Substituímos o calor, ainda que por vezes irritante, do convívio humano pelo brilho azul e gélido de um monitor de computador. O colega de secretária que pedia uma caneta ou com quem se partilhava um desabafo na pausa do café a meio da manhã foi sumariamente demitido. No seu lugar, instalou-se a Inteligência Artificial; o colega perfeito, não é verdade? Não se queixa, não adoece e responde em segundos. Mas experimente o leitor pedir um sopro de empatia a um desses Chat I.A. Peça-lhe que entenda o peso de um dia cinzento e pesado. Não sabe. O algoritmo processa dados; não processa afectos.

O leitor poderá argumentar que se trata de um alarmismo cínico de quem tem saudades do trânsito na Ponte sobre o Tejo ou na Segunda Circular, mas não é. Olhemos para a frieza dos números que a realidade teima em esfregar-nos na cara. Um estudo do ISCTE chocou o País ao revelar que os portugueses têm hoje muito menos amigos do que há dez anos, sendo que são precisamente os mais jovens quem menos convive. E a isto junta-se a macabra rasteira estatística dos dados sobre a saúde mental em Portugal que provam que o bem-estar psicológico é dramaticamente pior entre os jovens adultos do que na população com mais de 55 anos. É a falência de um modelo de vida. Criámos uma juventude que habita uma paradoxal asfixia: estão hiperconectados por fibra óptica, mas profundamente sós na sua intimidade.

Imagine-se o percurso do jovem licenciado que se estreia hoje no mercado de trabalho. Entra numa multinacional tecnológica ou numa consultora a partir da secretária do quarto onde cresceu. O dia de estreia, outrora marcado pelo aperto de mão do director, pelo crachá novo ao peito e pelo embaraço natural de tentar decorar os nomes de vinte pessoas, resume-se agora à recepção de um computador por estafeta e a um e-mail com as credenciais de acesso.
A peripécia diária deste trabalhador moderno roça o absurdo. Passa oito, dez horas a discutir métricas com avatares sem rosto numa plataforma qualquer de reuniões à distância e, quando surge uma dúvida complexa, aquela que antigamente se resolvia inclinando a cadeira para trás e perguntando ao colega do lado, o jovem recorre ao seu novo e silencioso mentor: um assistente de Inteligência Artificial. A máquina resolve o problema em três segundos, eliminando eficazmente o atrito. Mas elimina também a conversa, o riso partilhado e a hipótese de criar um laço humano. Ao fim do dia, o balanço é aterrador: este jovem produziu linhas de código impecáveis, gerou relatórios automáticos brilhantes, mas a única voz humana que ouviu em doze horas foi a do estafeta que lhe entregou o jantar à porta.

Um estudo recente publicado na prestigiada revista Science veio dar contornos científicos a este isolamento, demonstrando de forma inequívoca que quem trabalha remotamente apresenta níveis significativamente mais elevados de depressão e ansiedade face a quem mantém empregos presenciais. A flexibilidade tornou-se uma prisão invisível onde as paredes da casa se fecham sobre a mente. Como refere a investigação, a falta de uma barreira física entre o local de descanso e o de labor destrói o sono e alimenta uma vigilância constante. O ecrã que trabalha é o mesmo ecrã que distrai; o quarto onde se dorme é o mesmo cubículo onde se responde a exigências laborais a qualquer hora.

Não nos iludamos, portanto, com os discursos assépticos sobre as maravilhas da “eficiência do remoto e da automação”. Desumanizámos o trabalho em nome de um rendimento abstracto e ao permitirmos que a Inteligência Artificial ocupe o espaço do convívio e que as nossas casas se transformem nos novos escritórios, assinámos um pacto de solidão individualista. O preço que este País está a pagar por este isolamento voluntário não se mede em pontos percentuais do PIB, mas sim na saúde mental de uma juventude que se vai esquecendo de como se olha nos olhos.