Pessimistas e divididos sobre um evento do qual não têm memória. A geração que nasceu "à sombra do 11 de Setembro"

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▲O ambiente "sóbrio" e de luto toma conta da cidade de Nova Iorque por altura do 11 de Setembro

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▲O ambiente "sóbrio" e de luto toma conta da cidade de Nova Iorque por altura do 11 de Setembro

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  • Madalena Moreira

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Perto de um terço dos norte-americanos não eram nascidos no 11 de Setembro, mas impactos diretos e indiretos fizeram-se sentir nas suas vidas — e moldaram a forma como olham para o país e o mundo.

11 set. 2026, 07:09

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“Onde é que estavas no 11 de Setembro?”. Ano após ano, a pergunta repete-se de cada vez que se aproxima mais um aniversário do maior ataque terrorista alguma vez perpetrado no território dos Estados Unidos da América. Contudo, em 2026, quase um terço dos cidadãos norte-americanos não tem resposta para esta pergunta: ainda não eram nascidos quando dois aviões embateram contra as Torres Gémeas na manhã daquela terça-feira, há precisamente 25 anos.

Mas para muitos jovens, as memórias desse dia não são requisito obrigatório para sentir o impacto que o 11 de Setembro teve — e continua a ter — no país que viu esta geração crescer. Sean Cleary é um dos destes jovens. Nasceu em setembro de 2002 e cresceu a apenas 40 minutos de Nova Iorque. “Eu vinha cá todos os fins de semana com a minha mãe e íamos a museus. Lembro-me de vir cá nos anos 2000, passar de carro na cidade e ver um enorme buraco na baixa de Manhattan”, relata ao Observador, a partir de Nova Iorque, onde estuda administração e gestão de empresas na NYU.

Mesmo sem memórias em primeira mão, as histórias partilhadas pela mãe e pela avó ajudaram-no a compreender o que define como o “ethos americano”: “As coisas más não acontecem muitas vezes. Mas quando acontecem é importante reconhecê-las, fazer o luto pelos que morreram, ter a coragem de avançar e reconstruir algo”. Para Sean, o 11 de Setembro marcou profundamente a primeira década da sua vida. Mas este sentimento não é partilhado pela restante Geração Z, as pessoas nascidas entre 1997 e 2012, que ainda não eram nascidas ou eram demasiado novas para terem memórias desse dia.

epa13210556 (FILE) - Fire and rescue workers search through the rubble of the World Trade Center in New York, USA, 13 September 2001 (reissued on 04 September 2026). On 11 September 2001, during a series of coordinated terror attacks using hijacked airplanes, two airplanes were flown into the World Trade Center's twin towers, causing the collapse of both towers. A third plane targeted the Pentagon, and a fourth plane heading towards Washington, DC ultimately crashed into a field. The 09/11 attacks were the deadliest terrorist attacks to occur on U.S. soil. In the days that followed, thousands of construction workers, firefighters, police officers, and volunteers flocked to the World Trade Center site to search for survivors and begin recovery efforts. Air travel came to a standstill, and people posted missing-person flyers all over the city as they moved through the dust and ash floating over Lower Manhattan  EPA/BETH A. KEISER / POOL / POOL *** Local Caption *** 57149225

▲ Sean Cleary recorda da sua infância "um grande buraco na baixa de Manhattan"

BETH A. KEISER / POOL / POOL/EPA

Um estudo de setembro de 2022 revela que apenas 38% da geração Z concorda com a afirmação “o 11 de Setembro mudou a minha vida“, por oposição aos 56% de todos os adultos inquiridos. A explicação mais óbvia para esta diferença está precisamente no facto de estes jovens não terem vivido os acontecimentos — são a primeira geração para a qual o 11 de Setembro não é uma memória vivida, mas um pedaço de História. No entanto, especialistas e jovens ouvidos pelo Observador apontam outra realidade que impactou esta perceção: as duas décadas atribuladas que se seguiram e marcaram as vidas desta geração.

Começando pelas guerras no Iraque e no Afeganistão e a crise financeira de 2008, durante a sua infância, passando pela sucessão de tiroteios em escolas quando eram eles mesmos crianças em idade escolar e pela pandemia de Covid-19 quando estavam a entrar na idade adulta e no ensino superior, até à polarização política, à explosão da Inteligência Artificial e à crise na habitação que pontuam a sua entrada no mercado de trabalho, a vida de um jovem norte-americano foi marcada por uma sucessão de eventos negativos num curto espaço temporal. Enquadrada nesta realidade, torna-se mais fácil perceber por que motivo a Geração Z não olha para o 11 de Setembro como as gerações mais velhas — e porque não partilha do seu otimismo face ao futuro em tempos de crise.

“Nós ainda estamos a viver isto”. Para alguns jovens, o 11 de Setembro é indissociável da sua existência

O 11 de Setembro “é a razão por que eu existo”, diz Sean. A correlação entre o atentado e o nascimento do estudante está na experiência da mãe nesse dia de 2001, um dos “mais terríveis da sua vida”. Da janela do seu gabinete, a mãe de Sean viu os aviões embaterem nas Torres Gémeas, as torres a caírem e os caças da Força Aérea norte-americana a sobrevoarem a cidade no rescaldo dos atentados. Na agenda, tinha marcada para a semana seguinte uma reunião no World Trade Center. Nesse mesmo dia, decidiu que “a vida era demasiado curta” e que queria ser mãe o mais rapidamente possível. O filho nasceu poucos dias depois do primeiro aniversário dos ataques.

Attack on New York City

▲ Dezenas de bombeiros entraram no corpo de Nova Iorque para seguirem as pisadas dos pais

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Tal como Sean, as histórias de vida de múltiplos nova-iorquinos confundem-se com a história da cidade e com o fatídico dia. O caso mais conhecido é o dos “legados”. É o nome dado aos homens e mulheres que se juntaram às forças de segurança e de emergência para seguir as pisadas dos pais, que morreram na queda das Torres enquanto retiravam pessoas dos escombros, ou, posteriormente, vítimas de doenças cardíacas, respiratórias e de cancros provocados pela inalação de fumos e pós. Pertencem ao Departamento de Bombeiros de Nova Iorque pelo menos 58 “legados”, 12 dos quais integraram o corpo na turma de 2019 — o maior grupo de “legados” a juntar-se aos bombeiros de uma só vez.

Com 22 anos, Scott Larsen era o mais novo desta turma. Hoje, com 29, trabalha no mesmo quartel em Woodside onde trabalhava o pai quando morreu no dia 11 de Setembro. Nas paredes do quartel, estão penduradas fotografias do pai e uma placa com o seu nome, Scott Larsen, tal como o filho. “A memória dele surge todos os dias. Não há um dia em que eu não entre aqui e não olhe para ele”, afirmou Larsen à Reuters, por ocasião dos 25 anos dos atentados. O mesmo sentimento era partilhado por Caitlin Spor, cujo pai também foi um dos 343 bombeiros que morreram naquela terça-feira. “Os outros miúdos não percebem o quão difícil é. Nós ainda estamos a viver isto”, disse ao USA Today em 2021.

Os jovens com esta ligação intrínseca ao 11 de Setembro e que sempre tiveram consciência do que acontecera naquele dia são, contudo, uma minoria. A maioria dos norte-americanos entre os 18 e os 24 anos dizem ter tomado conhecimento dos ataques na escola (60%) ou através de algo que leram ou viram sozinhos (8%), segundo um estudo do Pew Research Center conduzido no final de agosto deste ano.

"Lembro-me de estar a folhear uma enciclopédia de história dos EUA e do mundo quando estava no primeiro ou no segundo ano e de ter visto imagens impactantes do colapso do World Trade Center. Lembro-me de ter ficado a olhar para aquelas imagens sem perceber muito bem o que tinha acontecido."

Peter Kennedy, estudante de licenciatura na Universidade da Pensilvânia

É o caso de Peter Kennedy, estudante de licenciatura na Universidade da Pensilvânia. “Lembro-me de estar a folhear uma enciclopédia de história dos EUA e do mundo quando estava no primeiro ou no segundo ano e de ter visto imagens impactantes do colapso do World Trade Center”, recorda ao Observador. Mas tomar conhecimento dos acontecimentos é muito diferente de os ter vivido. “Eu lembro-me de ter ficado a olhar para aquelas imagens sem perceber muito bem o que tinha acontecido”, elabora.

A “compreensão mais concreta” só chegou mais tarde, depois de ter ouvido da boca dos pais o “medo e incerteza” que sentiram nesse dia. Eram, à data, jovens adultos a trabalhar em Washington D.C., onde um terceiro avião atingiu o Pentágono, matando todas as 64 pessoas a bordo e outras 125 na sede do Departamento de Defesa.

Ansiedades geracionais, guerras e discriminação. As consequências na Geração Z de um evento que nunca testemunharam

O sentimento de incompreensão que assaltou Peter depois de ter visto as imagens dos ataques numa enciclopédia continua a assombrar muitos jovens da mesma geração — como é possível estar de luto por algo que não se viveu? “Ouvi a história pelo menos uma centena de vezes na minha infância, mas sempre senti que a história era dos meus pais, não a minha”, escreveu Samantha Matthews, estudante de comunicação, numa coluna do jornal da Universidade Fordham, em 2019. “Sinto-me invalidada para falar sobre este dia e o seu significado”, ecoou Emily Phally, estudante da University of Southern California, num artigo de opinião do jornal universitário em 2023.

Bush Signs Free Trade Agreement with Singapore and Chile

▲ A invasão do Afeganistão e do Iraque, pós-11 de Setembro, tiveram um impacto negativo mais prolongado

Corbis via Getty Images

Olhando para a relação complexa que os mais jovens têm com a memória dos ataques, Pamela Aronson, professora de sociologia na Universidade de Michigan-Dearborn, aponta o facto de “a Geração Z [ter nascido] à sombra do 11 de Setembro“. “Embora ainda não tivessem nascido ou fossem demasiado novos para se lembrarem, isso não significa que o 11 de Setembro não tenha afetado as suas vidas”, elabora a especialista ao Observador, mencionando as “inseguranças e as incertezas” que podem ter sido transmitidas no contexto familiar e social em que cresceram, por aqueles que efetivamente viveram o dia dos ataques.

Para além das ansiedades diretamente relacionadas com os ataques e que podem ser transmitidas de geração em geração num período fulcral de desenvolvimento socioafetivo, a verdade é que os membros desta geração elencam outras consequências mais indiretas. Estas vão de questões tão simples como o facto de não terem conhecido uma realidade em que se pode entrar num avião com líquidos superiores a 100 mililitros e sem passar por um detetor de metais a temas muito mais complexos, como a “Guerra contra o Terror” e a criação do Departamento de Segurança Nacional (DHS, na sigla em inglês).

“Isto mudou as prioridades da política doméstica e da política externa da América e da forma como pensamos sobre segurança nacional”, considera Peter, que menciona diretamente estas duas questões. O estudante recusa fazer paralelos diretos entre o pós-11 de Setembro e o momento atual da política norte-americana, mas as realidades que destaca têm sido temas frequentes da administração de Donald Trump. As guerras do Afeganistão e do Iraque têm sido utilizadas como “aviso à navegação” para a atual guerra no Irão, como lembrança dos perigos de entrar numa guerra prolongada no Médio Oriente. Já a criação do DHS resultou também numa nova força de controlo de imigração, o ICE — o mesmo serviço cuja atuação está agora debaixo de fogo, uma vez que já resultou este ano na morte de vários cidadãos norte-americanos.

epa12844849 A US Immigration and Customs Enforcement (ICE) agent patrols the John F. Kennedy International Airport, amid congestion caused by the Department of Homeland Security (DHS) shutdown, in the Queens borough of New York, New York, USA, 23 March 2026. ICE agents have begun deploying to major US airports to assist the Transportation Security Administration (TSA) as a partial government shutdown triggers widespread security checkpoint delays. With the Department of Homeland Security (DHS) facing a funding lapse, TSA screeners and thousands of other federal employees are currently working without pay.  EPA/OLGA FEDOROVA

▲ O ICE só foi criado no pós-11 de Setembro, integrado numa nova política de segurança

OLGA FEDOROVA/EPA

Após os ataques do 11 de Setembro, perpetrados por radicais islâmicos de Al-Qaeda, verificou-se ainda um aumento da xenofobia contra árabes e muçulmanos nos EUA. A discriminação é denunciada, entre outros jovens, por Khalid El-Halabi, jovem muçulmano que cresceu em Nova Iorque. “Se aquele dia não tivesse acontecido, talvez eu pudesse ter sido totalmente americano”, lamentou ao New York Times. 25 anos depois dos ataques, esta questão voltou aos holofotes esta semana, devido aos apelos de vários nova-iorquinos, incluindo Rudy Giuliani, presidente da Câmara de Nova Iorque durante o 11 de Setembro, para que o atual autarca, Zohran Mamdani, o primeiro muçulmano a ocupar o cargo, não comparecesse às cerimónias desta sexta-feira.

Uma geração pessimista, vítima de um “contexto particularmente sombrio”

Em março de 2002, cerca de seis meses depois dos atentados, uma sondagem da Gallup dava conta dos níveis mais altos de otimismo acerca do progresso nacional desde 1959 — 52% dos inquiridos mostravam-se “muito otimistas”, em comparação com 39% no ano anterior, antes dos ataques. Mesmo que muitos dos inquiridos salientassem preocupações com o estado da economia, predominava um efeito de “união em torno da bandeira”. O sentimento refletia-se também na confiança expressada pela sociedade norte-americana no Governo de George W. Bush. Depois de esse valor se ter mantido estável na casa dos 30% ao longo da década de 1990, depois de setembro de 2001, o valor disparou para o dobro, escrevia à data o Pew Research Center.

Passados 25 anos, o número caiu a pique, principalmente entre os mais novos. Um estudo de abril de 2026 da Universidade de Harvard revela que apenas 15% dos jovens entre os 18 e os 29 confia no Governo “para fazer o que está certo” e um número ainda menor (13%) acredita que o país “está a ir na direção certa”. O pessimismo da Geração Z é explicado por Pamela Aronson em grande parte pelo contexto em que esta cresceu. “A Geração Z, mais do que qualquer outra geração, experienciou um contexto histórico particularmente sombrio enquanto jovens adultos”, aponta a especialista.

"A forma como eles experienciaram a pandemia muito provavelmente vai afetar o resto das suas vidas — a forma como confiam no governo e na ciência, o papel das relações e das conexões, como as aprendizagens devem ser feitas e decisões de carreira à prova de pandemia."

Corey Seemiller, professora de estudos de liderança na educação na Wright State University e especialista na Geração Z

Em causa não estão apenas as possíveis ansiedades desenvolvidas na infância, no seio familiar. Entre os dois jovens ouvidos pelo Observador e os quase 30 jovens ouvidos pelo New York Times surgem menções a outros eventos transformadores (e potencialmente traumáticos) na vida desta geração: a crise financeira de 2008, o massacre na escola básica de Sandy Hook em 2012, em que 36 pessoas foram mortas num tiroteio, ou outros tiroteios em escolas — que também contribuíram para a banalização e um certo distanciamento emocional da violência —, a subida ao poder de Donald Trump em 2016, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o ataque do Hamas a Israel a 7 de Outubro de 2023 ou, de uma forma mais geral, a preponderância das redes sociais e da Inteligência Artificial nas suas vidas, na escola, no local de trabalho, nas relações afetivas.

Todavia, o evento apontado de forma unânime como mais significativo é a pandemia de Covid-19. O número de mortos, a pressão nos sistemas de saúde e as sucessivas quarentenas tiveram efeitos negativos em todas as gerações, mas a pandemia atingiu a Geração Z “durante uma altura em que os jovens estão mais sujeitos a ter valores e perspetivas moldados”, aponta Corey Seemiller, professora de estudos de liderança na educação na Wright State University e especialista na análise desta geração.

“A forma como eles experienciaram a pandemia muito provavelmente vai afetar o resto das suas vidas — a forma como confiam no Governo e na ciência, o papel das relações e das conexões, como as aprendizagens devem ser feitas e decisões de carreira à prova de pandemia”, elabora ao Observador, dando um exemplo concreto. Tal como muitos jovens que experienciaram o 11 de Setembro escolheram candidatar-se a serviços de emergência e resgate, de forma a manter este legado, a pandemia pode afetar a escolha dos serviços de saúde como carreira — seja no mesmo sentido dos bombeiros no pós 11 de Setembro, seja no sentido contrário, de querer evitar a pressão que testemunharam durante a pandemia.

epa09194702 Norma Rosales Luna (R) gets a COVID-19 vaccination at Grand Central Terminal in New York, New York, USA, 12 May 2021. The pop-up site is part of a city-wide initiative to get more New Yorkers and tourists vaccinated. Those who receive the free vaccine, Johnson & Johnson's single-shot dose, will receive a free seven-day MetroCard pass. The walk-up vaccines will be offered at Penn Station, Grand Central Terminal, Broadway Junction, and other stations through 16 May.  EPA/Peter Foley

▲ Os jovens norte-americanos olham para a pandemia como o evento histórico mais impactante das suas vidas

Peter Foley/EPA

O peso das desigualdades na forma de interpretar a memória

As cerimónias oficiais do 11 de Setembro cumprem-se apenas esta sexta-feira. Mas a energia de “sobriedade e reconhecimento” já se faz sentir em Nova Iorque há alguns dias, relata Sean. “Temos umas luzes gigantes que sobem até ao céu e simbolizam as torres e são acesas algumas noites antes do dia 11 e alguns dias depois. Há uma energia diferente na cidade e é possível senti-la”, relata. Este sentimento ecoa o que se fez sentir em 2001 e que, para Sean, representa muito bem o país onde nasceu e cresceu.

“Eu diria que a América tem duas identidades. Quando as coisas estão a correr bem, é a ousadia, [um sentimento de] ‘vou construir isto sozinho’. Quando alguma coisa má acontece, quando há adversidades, é certamente a coragem”, pondera. Questionado sobre que momento os Estados Unidos vivem agora, faz uma pausa antes de arriscar: “Diria que uma mistura das duas, ousadia e coragem”. Todavia, o estudante da NYU também é rápido a reconhecer que a sua leitura do momento é bastante mais otimista que a dos seus pares. “Sou uma pessoa que vê o copo meio cheio“, admite.

Mais ponderado, Peter reconhece que o país ultrapassa um momento “particularmente divisivo”, mas também vê na memória do 11 de Setembro uma lição útil. “[É] um momento de memória e luto partilhado que ainda une os americanos como muito poucos outros eventos fazem”, classifica ao Observador. Ainda que os dois jovens ouvidos pelo Observador prefiram manter as declarações politicamente neutras — as comemorações do 11 de Setembro são um evento apartidário —, as especialistas consultadas são bem mais certeiras a definir o momento que os Estados Unidos atravessam: um de “profunda divisão política” e “bipolarização”.

"Obviamente, as diferenças geracionais não explicam tudo o que diz respeito à consciência, à memória ou a acontecimentos marcantes."

Pamela Aronson, professora de sociologia na Universidade de Michigan-Dearborn

A Geração Z, numa análise superficial, tende a ficar do lado mais progressista desta divisão — “nem sempre é assim, e falou-se muito sobre os rapazes jovens que votaram de forma conservadora em Trump em 2024”, salienta Pamela Aronson —, o que também contribui para acentuar as suas diferenças em relação às outras gerações. Mas esta questão não explica a diversidade de posições dentro de uma mesma geração em relação à forma como olham para o 11 de Setembro: uma parte intrínseca do seu crescimento ou um momento da História em segundo plano?

“Obviamente, as diferenças geracionais não explicam tudo o que diz respeito à consciência, à memória ou a acontecimentos marcantes”, responde a socióloga. Em vez disso, os fatores relevantes para estas diferenças são outros: a “proximidade aos eventos físicos e a localização social” — razão pela qual um nova-iorquino ou um filho de um bombeiro pode ter uma leitura específica dos eventos — o “género, a raça, a etnia” (o que pode ajudar a explicar a visão mais negativa das minorias árabes e muçulmanas) e a “classe social” — face à crise no mercado de trabalho e na habitação, é mais provável que um jovem de uma classe desfavorecida não escolha o ataque terrorista de 2001 como uma das suas maiores preocupações.

Depois do 11 de Setembro, estas diferenças, que se fazem sentir em todas as gerações, foram ultrapassadas em detrimento de um sentimento de união e patriotismo. 25 anos depois, para a Geração Z — mais diversa do que as outras gerações, mas também com desigualdades mais profundas — o uso da memória já não parece ser uma ferramenta suficiente para alcançar os mesmos resultados.