A guerra híbrida chegou à Europa. E vai piorar
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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A guerra híbrida chegou à Europa e vai piorar. É uma daquelas expressões que vamos ouvindo em várias línguas e cada vez com mais frequência. De Putin aos líderes europeus, toda a gente fala da guerra híbrida que transformou a nossa perceção daquilo que é uma guerra e que, quando bem feita, consegue atacar um inimigo sem o levar diretamente pra guerra. Confuso? Hoje vamos tentar explicar exatamente o que é isto, numa conversa com o jornalista de internacional do Observador, o José Carlos Duarte. Queremos perceber o que está acontecendo na Europa, quais são os principais alvos dos ataques, por que a Rússia precisa desta nova forma de fazer a guerra e, já agora, perceber se Portugal está a salvo ou também passou a ser um alvo. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 22 de setembro. Olá, Zé Carlos, bem-vindo.
Olá, Pedro, tudo bem?
Bem, obrigado. Vamos falar aqui de um assunto que nos deixa com alguma ansiedade.
Controverso.
É, controverso. Este termo, guerra híbrida, é uma coisa que nós estamos a ouvir com mais intensidade agora. O que ele quer dizer exatamente?
Guerra híbrida, basicamente, é um estado em que há várias provocações, várias táticas assimétricas de um país noutro. Isto é, um país recorre a certos ataques que são difíceis de prever e que são muito difíceis de perceber quando e de que forma vão ocorrer, e provoca-os de uma forma em que depois é muito difícil atribuir a responsabilidade a esse mesmo país que o provocou. Por exemplo, é avistado um drone junto de uma base militar, avistado um drone junto de um aeroporto comercial. O drone pode ter sido enviado por qualquer, por uma pessoa, por um grupo, e é muito difícil depois entender quem realizou isto, mas também, ao mesmo tempo, esse tipo de ações criam vários constrangimentos aos países afetados. Por exemplo, nesta questão do drone, os aeroportos encerram, o espaço aéreo encerra momentaneamente.
Logo, do ponto de vista econômico, há impacto.
Exato. Não é um ataque direto, não é um ataque com armas, isso também é uma das características desta guerra híbrida. São métodos até um pouquinho primitivos, incêndios, explosivos artesanais, drones, mas que em determinados contextos geram muitos constrangimentos e acabam por levar a que os países que são afetados tenham prejuízos e tenham de lidar com esta ameaça, que é muito difusa, é muito difícil perceber quando e como.
Ou seja, em vez de ser aquilo que as pessoas estão habituadas, e que os Estados estão habituados, na verdade, numa guerra dita convencional, que é, vamos imaginar, um país atira mísseis para outro país e esse país que vai recebê-los sabe que eles estão aí, pode ter mecanismos de defesa. Neste caso, estamos a falar de operações, que podem ter vários tipos de formato, em que é difícil rastrear de onde é que elas vieram, quem é que as fez.
Sim, essa é a principal dificuldade, é perceber quem fez isto. As autoridades também têm que investigar de forma bastante exaustiva, perceber o que aconteceu, como aconteceu. E muitas vezes, uma tática desta guerra russa é também criar e levar pessoas que não têm nada a ver, neste caso, com a Rússia, a cometer este tipo de atividades. Ou seja, não existe uma ligação direta. As pessoas não são espias, as pessoas não têm qualquer ligação à Rússia, nem sequer são russos, muitas vezes são ucranianos.
São recrutados para fazer esse tipo de operações.
São recrutados, muitas vezes nas redes sociais. Não são o molde de pessoas que geram problemas a uma sociedade. Não, são recrutados por dinheiro ou por ideologia, fazem ataques de sabotagem em infraestruturas críticas na Europa, mas depois o motivo pelo qual fazem não é bem claro. Portanto, há aqui vários enigmas. É muito difícil depois não só prever, como também investigar, porque pode ser um lobo solitário, pode ser alguém que simplesmente decidiu pôr fogo a uma fábrica de munições e não sabem por quê.
Muito vago, muito disperso.
Exato, não é nada direto.
E isso faz parte. Mas tu disseste aí uma coisa-
É uma espécie de uma névoa que existe.
Tu disseste aí uma coisa curiosa, que foi: a Rússia tem feito isso. Ou seja, é difícil de perceber de onde é que eles vêm, mas muitos destes ataques, e têm acontecido vários na Europa, em vários países da Europa, são atribuídos à Rússia.
Exato. Vários estão a ser atribuídos à Rússia. Existem já investigações das secretas ocidentais, dos países europeus, que apontam efetivamente o dedo à Rússia. Há alguns ataques híbridos que é muito difícil apurar. Que efetivamente as autoridades já conseguiram identificar a Rússia e muitas vezes, por exemplo, em ciberataques é mais comum, há a reivindicação do ataque, ou seja, os grupos pró-russos informáticos reivindicam, dizem: "Fomos nós que fizemos o ataque."
Mais orgulhosos, gostam.
Sim. É mais fácil porque não lidam com as consequências. Quando alguém mete fogo a uma fábrica de munições, depois tem que fugir, senão é preso. Um hacker está em casa.
Não existe, ninguém sabe quem ele é, é difícil chegar lá.
Por exemplo, um ataque há pouco tempo a vários serviços governamentais da Noruega, e os hackers reivindicaram o ataque, disseram que foram eles e até declararam guerra cibernética à Noruega, porque a Noruega aumentou o apoio militar à Ucrânia. É muito difícil, neste caso, principalmente por estar dentro da Rússia, rastreá-los e perceber onde é que estão. Mas quando são ataques mais primitivos ou mais básicos, é mais fácil rastrear. Apesar de já não haver tanto essa reivindicação, é mais difícil para as autoridades entenderem o rasto e perceber onde é que estes caminhos vão levar e se vão mesmo levar à Rússia.
Os líderes europeus têm falado muito disso, não só na União Europeia, mas em estruturas como a NATO também, se tem falado muito sobre a necessidade de defesa contra ataques híbridos, que é este tipo de ataques que nós estamos a falar. Ainda assim, parece haver uma espécie de impreparação, ainda está tudo aqui sem saber exatamente como é que se vai fazer, até porque outra característica é que estes ataques não levam diretamente a uma guerra.
Sim, essa é a grande questão. As infraestruturas críticas, por exemplo, alguém mete objetos num caminho de ferro, uma linha. Obviamente que isto não leva a uma guerra. Pode complicar todo o sistema ferroviário de um país, mas não gera particularmente uma guerra. E é precisamente isso também que a Rússia quer criar. A Rússia quer testar, quer provocar, eu diria mesmo, desta forma, em que é muito difícil que depois lhe sejam imputadas quaisquer responsabilidades. Obviamente que já existe a suspeita, quando, por exemplo, há um grande incêndio numa fábrica de munições, de armas que vão para a Ucrânia, é um bocado óbvia a ligação, mas precisa também de ser investigada. Mas essa é uma questão que é bastante difícil, é perceber as ligações todas e também entender que a Rússia quer precisamente testar e provocar. Eu acho que essa é a estratégia.
Essa era a pergunta que eu ia fazer agora. Por que a Rússia está a apostar neste tipo de operações? Qual é a necessidade dos russos?
Eu acho que neste momento a Rússia percebeu que no campo de batalha é muito difícil a guerra ser ganha. Desde 2023, que foi mais ou menos o último ano em que houve alguns avanços, a guerra praticamente estancou. A Rússia faz avanços, não estou a dizer que não, avança em algumas aldeias, algumas localidades no Donbass, no leste da Ucrânia, mas os avanços são muito limitados. Não conseguem ter uma ofensiva sustentada e prolongada ao longo do tempo. E isto já se prolonga, esta fase da guerra de atrito, que parece não acabar, já se prolonga há vários anos. E portanto, eu acho que o Kremlin chegou à conclusão que se calhar não vão lá por mísseis na linha da frente, vão lá a minar o apoio europeu à Ucrânia.
E é isso que tentam fazer, é que os europeus-
Exatamente. E também por puni-los. A Rússia sabe perfeitamente que mesmo que as autoridades ocidentais emitam condenações, emitam notas de protesto, sabe que, se calhar, na mente do cidadão comum, vão perceber que estes atos de sabotagem só são praticados porque esses países ocidentais estão a enviar armas para a Ucrânia. Também há este raciocínio aqui.
Tentar virar a opinião pública.
Exatamente, a Rússia também sabe fazer isso. A linha ferroviária só ficou bloqueada porque vocês enviam armas para a Ucrânia. E é essa a mensagem que a Rússia também quer enviar para os europeus. Na linha de batalha, as coisas não estão a correr muito bem, não são um fracasso, mas também não são um sucesso e portanto, o grande objetivo da Rússia é precisamente este, que é minar o apoio ocidental à Ucrânia, que o Ocidente deixe de enviar armas à Ucrânia e que, no fundo, a Ucrânia tenha de se render e não possa continuar a combater.
Tentar ganhar a guerra de outra forma.
Exato, de uma forma um pouquinho mais perversa, mas que continua a ser uma forma que os russos acham válida.
Os especialistas que tu consultaste no teu artigo também dizem que a Rússia tendencialmente vai incrementar este tipo de operações. Nós já vimos vários países, sobretudo países da fronteira que têm sido alvos, mas também a Dinamarca, enfim, vários países onde aconteceram casos desses. Dúvida: Portugal está a salvo ou não exatamente?
Eu acho que não exatamente. Até o momento, Portugal não teve nenhum ataque da dimensão que aconteceu noutros países, não teve, por exemplo, avistamento de drones perto de aeroportos, não teve incêndios em fábricas de armas, mas o que é facto é que não se sabe, isto é tudo muito difuso. Portugal também não é propriamente um alvo prioritário para a Rússia, porque geograficamente está muito longe do país e depois não é um dos principais países que envia armas para a Ucrânia. Não é propriamente um Reino Unido, uma França, que apesar de também estar longe das fronteiras, sustenta o esforço de guerra ucraniano. É um país um pouco mais discreto e, portanto, eu acho que a Rússia também não tem grande interesse em fazer este tipo de operações em Portugal, mas há riscos. O relatório do RASI já o apontou no ano passado, ou seja, existem riscos, principalmente em termos cibernéticos, em termos de ataques informáticos, também riscos de incêndios a fábricas de armas que depois são enviadas para a Ucrânia. Esse também é um risco que o relatório apontou. E outro, que é o principal em Portugal, tem a ver com os cabos submarinos, ou seja, são cabos que estão na costa portuguesa e que a Rússia Já houve vários navios que passaram pela costa portuguesa, a Marinha depois tem que os acompanhar, e estes cabos a serem danificados podem gerar problemas não apenas em Portugal, como no resto do mundo, nos Estados Unidos e no resto da Europa.
Cabos de quê?
De telecomunicações, internet. Portanto, estes cabos submarinos que estão na costa portuguesa são realmente o ponto mais frágil de Portugal e o ponto que eu acho que a Rússia já tentou explorar. Nunca fez nada, mas acho que está também a testar.
Mas é um potencial alvo.
É um potencial alvo. Acho que em Portugal seria talvez o alvo, porque poderia não gerar só constrangimentos a Portugal, como também à Europa e aos Estados Unidos. Portanto, há aqui realmente um risco associado nesse âmbito.
Não é a nota mais positiva com que terminamos esta conversa.
Não.
Mas a vida é assim também, temos de falar destas coisas. José Carlos, obrigado.
Obrigado.
Eu conversei hoje com o jornalista internacional do Observador, o José Carlos Duarte, sobre aquilo que se sabe e sobre aquilo que se suspeita que a Rússia já conseguiu fazer: perturbar, aumentar custos económicos, criar a sensação de medo e insegurança e mobilizar recursos por toda a Europa. O que Moscovo ainda não conseguiu foi atingir o objetivo político mais importante para Vladimir Putin: conseguir que os europeus abandonem o apoio à Ucrânia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.