Da ajuda à mãe aos desafios de ser pai de um filho autista: a história que é muito maior do que os cabelos de Cucurella

🗓️ 2026-08-02 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Não era a primeira vez que acontecia, também não era a primeira vez que, existindo, não levava a um cartão vermelho. Jack Stephens já tinha sido expulso num encontro do Southampton frente ao Chelsea por puxar o cabelo de Marc Cucurella, João Neves repetiu esse filme na final do Mundial de Clubes de 2025. “Antes do jogo, estávamos na brincadeira e o Vitinha disse assim: ‘Quem puxar o cabelo ao Cucurella ganha não sei quanto, eu pago’. Mas sempre na brincadeira. Mas o João [Neves] fez isso e depois passados uns dois ou três meses lembrou-se: ‘Olha lá Viti, tu disseste isto, estás a dever-me dinheiro’. Se pagou? Não, não… Nem encaixa muito no perfil do João, o Nuno por exemplo estava mais de cabeça perdida nesse jogo. Aquilo foi uma coisa instintiva”, contou Gonçalo Ramos, companheiro do médio na Seleção e no PSG, no watch.tm com Pedro Teixeira da Mota onde esteve com Nuno Mendes ainda antes do Mundial de seleções deste ano.

“Se é chato jogar contra ele? É, mas os espanhóis são mesmo assim, nós temos o Fabián Ruíz connosco e percebemos que é top ter na nossa equipa mas jogar contra eles é horrível… Mas não são o expoente máximo porque depois há os argentinos e os uruguaios mas é chato”, acrescentou depois o avançado, recordando essa final como um dos momentos mais duros da época pela forma como o Chelsea venceu esse Mundial saindo a ganhar por 3-0 já ao intervalo e pelo acumular de jogos que os franceses já levavam numa temporada em que tinham ganho a Liga dos Campeões frente ao Inter e a Liga das Nações diante da Espanha… de Cucurella. Antes, ainda em 2022, o central argentino Cuti Romero tinha-se atrevido também a arriscar um puxão de cabelos na área antes de um canto num dérbi londrino entre o Tottenham e os blues e conseguiu sair sem qualquer sanção. Em 2025, Daniel James, do Leeds, fez o mesmo sem sanção. João Neves, que antes tinha sido “picado” pelo defesa espanhol, que lhe deu um encosto sem bola, não teve a mesma sorte e foi expulso.

O cabelo comprido tornou-se uma imagem de marca de Marc Cucurella com o passar dos anos. No limite, o defesa até pode admitir fazer uma tatuagem do seu selecionador em caso de vitória, como aconteceu agora no Mundial de seleções com Luis de la Fuente, mas deixar de ter aqueles caracóis compridos foi sempre algo fora de qualquer equação. Existe uma justificação, que tem a ver com tudo menos com imagem. E foi através do aprofundar dessa história que o defesa espanhol passou de vilão a herói discreto não só na seleção de Espanha mas também no futebol mundial e na sociedade. Mais do que isso, Cucurella tornou-se aos 28 anos num exemplo a vários níveis pela forma como humanizou a figura do jogador de futebol ao partilhar a sua vida mais privada e os desafios que qualquer pessoa pode enfrentar no quotidiano. Se Erling Haaland deixou os Estados Unidos como figura mais mediática e Vozinha ganhou o bilhete dourado de nova estrela da modalidade, o espanhol, que vai reforçar o Real, promoveu a maior metamorfose na perceção dos adeptos.

Hoje, Cucurella deixou de ser aquele defesa chatinho dos cabelos grandes que é amado pelos seus e “odiado” pelos outros. Não precisa necessariamente de ser amado por todos, até porque é crível que vários catalães não tenham achado piada à mudança de Londres para Madrid nesta nova versão dos merengues com José Mourinho no comando, mas sobretudo ganhou o respeito pelo trajeto feito dentro e fora de campo.

E para que não existissem dúvidas, até a promessa mais “complicada” de cumprir foi concretizada. Antes de juntar-se aos restantes companheiros no Real, o defesa escolheu um local para fazer uma tatuagem do seu selecionador, Luis de la Fuente, na sequência da conquista do Campeonato do Mundo após o Europeu de 2024 e da prata nos Jogos Olímpicos de 2020. “Tenho de pensar onde é que vou colocar. As pessoas também me vão perguntar, por isso não tem de ser num sítio visível, mas enfim… Acho que agora temos um longo caminho pela frente, espero que me deem ideias. Vou pensar nisso e, mais cedo ou mais tarde, terei de o fazer”, tinha assumido Cucurella depois da vitória frente à Argentina no prolongamento. “Eu disse aos meus jogadores que cometeram um erro ao prometer tatuar a minha cara porque eles cumprem a palavra e vão mesmo fazê-lo. De qualquer forma, também não sou assim tão feio”, dissera antes o técnico.