A IA democratizou o código. A competência não
A IA derruba uma barreira real: a de escrever o código. Isso é verdadeiro e é útil. Mas escrever código não é o real diferenciador.
Nas redes sociais, entre alguns atores da indústria, circula uma ideia que soa a libertação. A inteligência artificial, dizem, fez de toda a gente um construtor de soluções de software. O jurista, o gestor das operações, o colega de recursos humanos que nunca escreveu uma linha de código passam todos, com um modelo ao lado, a produzir as ferramentas que antes tinham de esperar que alguém lhes fizesse. Um curso gratuito, uns fins de semana, e está feito. E não falo de ferramentas para consumo próprio: falo de software no qual outras pessoas dentro da empresa ou até clientes vão confiar. É aí que a fasquia não deve descer.
Já ouvi esta história antes com os bootcamps de programação, que prometiam a qualquer pessoa, depois de algumas semanas de formação, um lugar numa indústria onde a maioria dos profissionais tem anos de formação em engenharia informática. Estas iniciativas são meritórias. É sempre melhor mais formação, e algumas pessoas de facto iniciam uma carreira de sucesso. Mas não nos podemos iludir, achando que somos todos o Messi ou o CR7 da engenharia de software.
É uma ideia bonita. Vale a pena, ainda assim, reparar em quem a repete com mais entusiasmo. Muitas vezes são empresas cujo negócio é vender-nos a próxima ferramenta. Quando quem lucra com a venda de um martelo garante que somos todos carpinteiros, convém desconfiar.
A pergunta é simples: ter acesso a uma ferramenta é o mesmo que saber usá-la?
Para responder, pode ajudar se olharmos para a história. Na China, durante o Grande Salto em Frente (1958-1962), o governo obrigou milhões de cidadãos a construir pequenos fornos nos quintais para promover a produção de aço para a indústria. Infelizmente, isso resultou em ferro de baixa qualidade, quebradiço e inutilizável, com a agravante de causar destruição ambiental e uma fome devastadora. O entusiasmo é importante, mas não é suficiente para transformar ferro em aço capaz de sustentar uma ponte.
A IA derruba uma barreira real: a de escrever o código. Isso é verdadeiro e é útil. Mas escrever código não é o real diferenciador. Os bootcamps de programação também treinam pessoas a escrever código, mas têm mais dificuldade em ensinar algoritmia, abstração, arquitetura de software e padrões de segurança informática. Difícil é saber o que construir, generalizar conceitos, perceber se aquilo que se construiu está certo, antecipar o que acontece quando falha, e ser a pessoa que responde por isso.
E não é preciso ir aos anos 50. Em março de 2025, um engenheiro que testava uma aplicação criada com o Lovable, uma das plataformas que prometem construir software a partir de uma conversa, retirou o cabeçalho de autorização de um pedido HTTP e recebeu de volta a base de dados de utilizadores inteira. Com um colega, correu o mesmo teste nas 1.645 aplicações que a própria plataforma exibia como vitrina: 170 delas, uma em cada dez, expunham dados da mesma maneira, incluindo nomes, endereços, chaves de acesso, valores de dívida. O código funcionava tal como fora escrito, incluindo as graves falhas de segurança. A falha chegou a ter um número oficial, CVE-2025-48757. A plataforma contestou-o e respondeu que a responsabilidade era dos utilizadores. Os utilizadores, em muitos casos, nem sabiam que a tinham.
A IA derruba uma barreira real: a de escrever o código. Isso é verdadeiro e é útil. Mas escrever código não é o real diferenciador. Os bootcamps de programação também treinam pessoas a escrever código, mas têm mais dificuldade em ensinar algoritmia, abstração, arquitetura de software e padrões de segurança informática. Difícil é saber o que construir, generalizar conceitos, perceber se aquilo que se construiu está certo, antecipar o que acontece quando falha, e ser a pessoa que responde por isso. Quem traz experiência de produto ou de engenharia consegue segurar as rédeas do modelo, corrigi-lo, desconfiar dele na altura certa. Quem não traz nada disso obtém um resultado que se parece com software. Corre bem na demonstração, mas parte-se no primeiro caso a sério. É código-lixo com bom aspeto.
Dirão que isto é elitismo, que há operacionais a resolver hoje, sozinhos, problemas que ficavam anos à espera de um programador que nunca chegava. É verdade e é bom. E a acusação não é absurda: a engenharia de software protegeu, durante décadas, o seu próprio território, e nem sempre por boas razões. Mas o meu argumento não é sobre quem pode escrever código, mas sim quem responde por ele. Repare-se também no que se está a contar: o caso que correu bem. Por cada um desses há muitos que produziram soluções frágeis, sem manutenção e sem segurança, que ninguém sabe explicar seis meses depois. Já há um mercado para limpar o resultado: plataformas dedicadas a ligar projetos encalhados a programadores contratados para os salvar da dívida técnica. Uma delas, criada em 2025, chama-se literalmente VibeCodeFixers.
O maior custo, porém, não é individual. Uma aplicação malfeita por uma pessoa perde-se. Um milhão delas ao mesmo tempo muda o mercado. Aconteceu com a roupa. A fast fashion encheu o mundo de peças baratas que duram uma estação. O problema é o desperdício de recursos e a poluição, mas é adicionalmente o ruído que faz com que os bons fabricantes, com peças bem feitas, sejam mais difíceis de encontrar e sejam forçados a competir no preço. Passa-se o mesmo com a informação, com meia dúzia de publicações sérias a disputar atenção com um oceano de conteúdo gratuito e descartável. Inundar um mercado com artefactos medíocres não deixa os produtores de bons produtos iguais, mas empurra-os para baixo, em prejuízo de toda a sociedade. Alguém dirá que o mercado acaba por separar o bom do mau, e em parte separa. Mas a separação passou a ter um custo: o bom ficou mais caro de encontrar, e a maioria fica pelo que lhe aparece primeiro. Não precisamos de mais e pior, precisamos é de menos e melhor. E isto tem impactos na sustentabilidade.
Escrever código à mão, linha a linha, sempre foi mais artesanato do que engenharia. Se a IA passar a escrever o código, o trabalho do engenheiro desloca-se para onde devia estar desde o início: desenhar o sistema, definir o que conta como correto, construir e manter a máquina que produz. Seria a melhor notícia da década para a profissão. Mas é o oposto de dispensar a engenharia.
No software este efeito é ainda mais grave, porque já baixámos demasiado a fasquia. Habituámo-nos a programas que às vezes funcionam. A aplicação que bloqueia e obriga a reiniciar. O botão que hoje responde e amanhã não. Toleramos isto porque o custo de cada erro nos parece pequeno. E, no entanto, não o toleramos em mais lado nenhum. Ninguém aceita um carro que arranca quando lhe apetece, um micro-ondas que reinicia a meio do aquecimento, um avião cujo sistema falha em pleno voo. Achamos a ideia absurda. Depois, encolhemos os ombros quando o equivalente digital nos acontece todos os dias. Facilitar que mais gente produza mais software frágil talvez seja contraproducente para a nossa sanidade. Quantas vezes chegamos a um balcão público e ouvimos que “o sistema está em baixo”? Quantas horas se perdem num controlo de passaportes porque um sistema cedeu? Queremos mais disto e mais depressa?
Nada disto é argumento contra aprender. Que mais pessoas percebam como o software se faz é excelente, tal como é bom saber cozinhar sem que isso obrigue a abrir um restaurante. O que me preocupa é o passo seguinte: tratar quem aprendeu o básico como se estivesse pronto para entregar aplicações importantes em escala. Compreender uma coisa e conseguir produzi-la com qualidade a sério são fases diferentes, e a distância entre as duas continua a chamar-se experiência.
E convém dizer o que isto não é: não é um argumento contra a IA. Pode até ser o contrário. Escrever código à mão, linha a linha, sempre foi mais artesanato do que engenharia. Se a IA passar a escrever o código, o trabalho do engenheiro desloca-se para onde devia estar desde o início: desenhar o sistema, definir o que conta como correto, construir e manter a máquina que produz. Seria a melhor notícia da década para a profissão. Mas é o oposto de dispensar a engenharia.
Não é por nos entregarem os controlos de uma central elétrica que passamos a entender de energia. O que a IA dispensa é a digitação, mas não dispensa o pensamento. E a competência não vem incluída numa subscrição mensal de 20 euros.
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