A ingratidão dos radicais livres
Será a liberdade uma extravagância de “burgueses” satisfeitos? Será a democracia apenas boa para adiar decisões e distribuir culpas? Será o comércio livre uma invenção sem pátria, empenhada em transformar povos em consumidores viciados? E, sobretudo, haverá no mundo uma alternativa mais humana, mais livre e mais decente à civilização ocidental e atlântica, que tão diligentemente aprendemos a desprezar?
São perguntas pouco elegantes. O nosso tempo prefere condenar o Ocidente em bloco, como se a História pudesse ser julgada por uma assembleia de boas intenções. Mas comparado com aquilo que realmente existe no mundo e não com as utopias dos extremos, haverá melhor lugar político para viver do que uma democracia liberal, aberta, plural, sujeita ao direito e integrada num espaço económico de liberdade?
A resposta é não.
Foi no Ocidente que a igualdade perante a lei se tornou uma ambição pública concretizada. Não aconteceu por milagre, aconteceu porque a organização da sociedade ocidental inclui a imprensa livre, parlamentos eleitos pelo povo, tribunais, partidos, associações, universidades e espaço público suficiente para que houvesse debate.
O que constitui uma diferença considerável para as outras geografias do globo.
A democracia liberal, tem uma virtude que nenhuma tirania consegue imitar, permite corrigir-se. Elege mal, por vezes, decide tarde, frequentemente, mas, permite mudar de governo sem guerra civil, contestar leis e debatê-las. A democracia não é um regime que assegure sempre a escolha dos melhores, mas claramente é único que oferece meios pacíficos para afastar os piores.
O problema das sociedades livres é que tornam invisíveis as suas próprias conquistas. Quem nasceu sem censura imagina que a liberdade de expressão é uma propriedade natural. Quem nunca conheceu uma polícia política julga que a privacidade é o instinto universal dos Estados. Quem pode votar em quem quiser, fundar uma associação, viajar, publicar um livro ou abrir um negócio esquece facilmente que, em grande parte do mundo, tudo isso pode ser vedado por um poder único e total.
A liberdade só parece pequena para quem nunca a perdeu, ou quem nunca a conquistou.
É por isso que se tornou tão fácil tratá-la como um luxo datado, uma peça de museu do liberalismo do século XIX, a remover em nome de uma nova virtude pública. Uns querem limitá-la para proteger as pessoas de palavras desagradáveis, outros para proteger a nação.
Todos têm uma boa razão. As liberdades tendem a acabar sob uma sucessão de pretextos virtuosos.
A Carta do Atlântico, proclamada por Churchill e Roosevelt em 1941, quando a Europa estava submetida ao nazismo, defendia o direito dos povos a escolherem o seu governo, a recusa da conquista territorial como princípio político, a liberdade dos mares e relações económicas mais abertas, ou seja, que a paz não podia assentar na submissão permanente de uns à vontade armada de outros.
O Ocidente é um melhor sítio para se viver porque institucionalizou a existência de hábitos públicos capazes de expor as suas próprias insuficiências.
Há uma ironia em ver esta civilização ocidental condenada por pessoas que só o podem fazer porque vivem no seu interior e porque a ordem que desprezam lhes concede direitos que os regimes que relativizam lhes retirariam no primeiro dia.
É, por isso, importante continuar a defender o modo de vida do Ocidente para torná-lo à altura dos seus próprios princípios. Porque, no fim, a escolha não é entre um Ocidente perfeito e uma alternativa igualmente livre. Aqui a alternativa é comprovadamente pior.