A Lisboa dos mortos-vivos

🗓️ 2026-08-14 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Há algumas semanas escrevi aqui sobre aquilo a que João Goulão na Rádio Observador definiu como “uberização da droga”, em “Verdinha — vende-se aqui”. Depois, em “Ai, Senhor Padre, a Mouraria já não é o que era”, fiz o relato do que vi quando visitei a Mouraria. Mais recentemente, em “VOLTA!: a miséria a dez cêntimos a garrafa”, escrevi sobre pessoas que revolvem contentores por dez cêntimos e sobre a possibilidade de existir uma ligação entre esse novo tipo de miséria urbana e o aumento das dependências. Não foi uma série planeada. Infelizmente, Lisboa tem tratado de lhe dar razão de existir.

No dia 6 de Julho, o Grupo Municipal do CDS-PP foi ao Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, o ICAD, no complexo do Hospital Pulido Valente. Depois de andar no terreno, fazia sentido ouvir quem dedica os seus dias a tentar impedir o problema. Receberam-nos a presidente do Instituto, Joana Teixeira, e Joaquim Fonseca, coordenador da Unidade de Prevenção e Promoção da Saúde.

O debate sobre a droga tem normalmente uma relação infantil com a realidade. De um lado, finge-se que basta proibir tudo e mandar a polícia tratar do assunto. Do outro, qualquer alarme é tomado por moralismo e qualquer exigência por repressão. No ICAD, em vez destas fantasias, encontrei gente a trabalhar.

E encontrei também confirmação para duas intuições. A primeira para a leviandade da expressão “drogas leves”. A propósito do Programa Cuida-te, foi-nos transmitido que o ICAD recebe famílias com filhos adolescentes já com problemas relacionados com esses consumos. É uma expressão extraordinária, “drogas leves”: tranquiliza os pais, seduz os filhos e arrasa tudo pelo caminho. A segunda para a dificuldade em tratar do problema do álcool, pela poderosa realidade económica e cultural à sua volta.

O Instituto intervém na prevenção, no tratamento, na reinserção e na redução de riscos. Tem equipas nas escolas, consultas para jovens, unidades de intervenção local e equipas de rua. Duas carrinhas multidisciplinares asseguram, todos os dias do ano, um programa de metadona de baixo limiar de exigência que acompanha cerca de 1500 pessoas. Há respostas residenciais, acolhimento, apoio integrado e uma sala móvel de consumo. O protocolo com a Câmara de Lisboa é financiado em 80% pelo ICAD e em 20% pelo município, e a cidade é objecto de um diagnóstico periódico, actualizado em Fevereiro deste ano.

Não começaram ontem. Há mais de vinte e cinco anos que existe uma intervenção continuada nas dependências em Lisboa. Entretanto, o mapa mudou, a droga também e os problemas, em vez de desaparecerem, aprenderam novas formas de se tornar invisíveis no meio da cidade.

Pelo menos até chegarmos à Mouraria.

600 a 700 consumidores de estupefacientes frequentam regularmente aquela zona. Não estamos a falar de uma dúzia de pessoas conhecidas do bairro, do arrumador do carro ou de um grupo residual que aparece depois de o sol se pôr. Estamos a falar de uma franja da população que circula pelo centro da cidade. Nas notas que trouxe da reunião ficou uma imagem particularmente forte: “centenas de pontos ambulantes que definham pelo centro da cidade, quais zombies”.

E é difícil encontrar melhor imagem.

Lisboa começa a parecer o cenário anterior ao primeiro episódio de uma série de mortos-vivos. Ainda ninguém mordeu ninguém. Os mortos não saíram dos cemitérios. Os eléctricos continuam a passar e os turistas publicam fotografias de pastéis de nata no Instagram. Mas, no meio desta tranquilidade, há centenas de pessoas a definhar nas ruas. E o problema não está confinado à Mouraria: o ICAD identifica também territórios particularmente associados ao tráfico e ao consumo no Lumiar, Olivais, Chelas, Olaias e Alcântara.

O crack ajuda a perceber a urgência. A passagem de algum consumo injectável para substâncias fumadas trouxe a vantagem de menos seringas partilhadas, mas não trouxe propriamente uma boa notícia. A irrupção do consumo desta substância foi-nos descrita como alarmante e em crescimento exponencial. É uma droga de elevado potencial aditivo, com episódios intensos e breves de euforia, seguidos por uma forte necessidade de novo consumo, e associada a comportamentos agressivos.

Na Mouraria, um espaço destinado ao consumo fumado teve mesmo de ser desactivado por excesso de procura. Isto é real. Não fechou porque não havia consumidores. Fechou porque havia consumidores a mais para as suas possibilidades. Na reunião, o ICAD insistiu na urgência de uma nova resposta naquela zona. Três dias depois, o Público noticiava que o Instituto e a Câmara de Lisboa estavam já a negociar a instalação, na Mouraria, da segunda sala de consumo assistido da cidade.

Há ainda uma transformação no perfil de quem consome que merece atenção. Segundo nos foi explicado, a pressão migratória, designadamente proveniente do Paquistão e do Bangladesh, tem contribuído para o aparecimento de novos consumidores destes países. Mas o ponto interessante é precisamente aquele que contraria a explicação mais fácil: não estamos necessariamente perante pessoas que já chegassem viciadas em crack. Pelo contrário, descobrem nesta variante da cocaína uma substância muito mais potente do que aquilo com que tinham contacto nos países de origem.

Enquanto discutimos ideologias, há instituições que sabem onde estão os problemas. E há qualquer coisa de tranquilizador em entrar num organismo público perante um problema desta dimensão e descobrir pessoas que não estão ocupadas a inventar palavras para o esconder.

Tenho criticado, nestas páginas, a normalização da droga, a ambiguidade legal, o abandono da Mouraria e a miséria que começa a ocupar o espaço público. Seria intelectualmente desonesto não dizer também isto: há gente no Estado a fazer bem o seu trabalho. É o caso do ICAD.