A mulher que "bordou" a vida, quatro filhos e a arte - NeoFeed
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Durante décadas, os bordados de Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo ficaram dentro de casa. Feitos em ponto cruz, com motivos florais e geométricos, eram parte da rotina de uma mulher que dividia o tempo entre o trabalho e a criação dos quatro filhos — entre eles, Gustavo e Otávio Pandolfo, da dupla Osgêmeos.
Pouco reconhecida como artista, Margarida só passou a ter sua produção inserida no circuito artístico aos 61 anos.
Em julho, pouco antes de morrer, aos 82 anos, ela teve a oportunidade de ver uma exposição dedicada à sua produção:
“Assim bordei meus sonhos”, em cartaz no Museu da Imigração de São Paulo até 6 de outubro.
A mostra reúne cerca de 100 bordados, além de fotos, documentos e vídeos que recontam sua trajetória e a herança lituana da família.
Aprendido com a avó, o bordado era também uma forma de preservar a identidade cultural. Para a pesquisadora Ana Paula Cavalcanti Simioni, da USP, Margarida foi uma exceção.
Durante séculos, o bordado foi valorizado como habilidade feminina, mas raramente reconhecido como expressão artística.
Nos anos 2000, os bordados de Margarida ganharam impulso quando o curador Luiz Nogueira propôs que ela transformasse em ponto cruz um desenho dos Osgêmeos.
A obra foi selecionada para uma bienal e abriu caminho para exposições no Brasil e no exterior. Depois de décadas dedicadas à família, Margarida finalmente encontrou tempo para se afirmar como artista.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Motivos florais e padrões geométricos bordados em ponto cruz em um tecido perfurado. É provável que você já tenha visto um trabalho como esse — ou até tenha um em casa, feito por sua mãe ou por sua avó. Durante muito tempo, esses bordados foram vistos apenas como artesanato doméstico. Raramente eram reconhecidos como obras de arte e, menos ainda, suas autoras eram consideradas artistas. Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo foi uma das raras exceções.
Como tantas mulheres de sua geração, encontrou pouco espaço para dedicar-se à criação artística em meio ao trabalho e à criação dos quatro filhos, entre eles Gustavo e Otávio Pandolfo, que formam a dupla de artistas Osgêmeos.
Em 10 de julho, pouco menos de um mês antes de morrer, em 3 de agosto, aos 82 anos, teve a oportunidade de ver uma exposição dedicada à sua produção, Assim bordei meus sonhos, em cartaz no Museu da Imigração de São Paulo até 6 de outubro.
Margarida já estava hospitalizada quando recebeu o convite para a mostra, realizada em parceria com o consulado da Lituânia. "Minha mãe ficou superempolgada. Se agarrou à exposição. Foi o melhor remédio", diz Gustavo Pandolfo em entrevista ao NeoFeed.
A mostra reúne cerca de 100 itens entre bordados produzidos ao longo de mais de quatro décadas, além de fotografias, documentos e vídeos que ajudam a reconstruir a trajetória da artista e da família, que imigrou da Lituânia no início do século XX.
Adriana, a única entre os irmãos que não seguiu carreira artística, havia preservado cuidadosamente os bordados, fotografias e documentos acumulados ao longo dos anos. Para Gustavo, a exposição é um retrato da mulher por trás dos bordados: "Queríamos contar quem é a Margarida, quem é a nossa mãe. Essa mulher que bordou não só o trabalho dela, mas bordou quatro filhos, bordou uma história muito linda".
Artista de casa
Margarida bordava nas brechas da vida entre o trabalho e o cuidado com os filhos e a casa. O bordado, aliás, durante séculos, ocupou um lugar ambíguo na cultura ocidental: valorizado como habilidade feminina, mas raramente reconhecido como expressão artística.
"Era uma forma de educação ética do corpo e também de imposição de uma moral de feminilidade sobre as mulheres", afirma Ana Paula Cavalcanti Simioni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, ao NeoFeed. “Havia um entendimento de que a prática do bordado deixava as mulheres mais concentradas, detalhistas e calmas.”
No caso da família de Margarida, que aprendeu a bordar com a avó Ona, o bordado também era uma forma de preservar uma herança cultural. "Muitas vezes a língua e a religião se perdem, mas essa materialidade permanece como elemento de memória afetiva e identitária do grupo", diz Simioni.
Segundo a pesquisadora, a maior parte das mulheres não bordava pensando que estava produzindo arte. "Margarida foge um pouco à regra porque entendia que seu trabalho tinha valor artístico", explica destacando o fato de sua produção ter sido preservada, enquanto tantos bordados feitos por mulheres da mesma geração desapareceram.

"Eu tive quatro filhos, eu parei por causa deles. Só que agora eu sinto que renasci por causa da arte", diz Margarida em um dos vídeos exibidos na exposição. Esse renascimento aconteceu quando ela tinha 61 anos (Foto: @jowhead)

Margarida bordava nas brechas da vida entre o trabalho e o cuidado com os filhos e a casa

Durante séculos, o bordado ocupou um lugar ambíguo na cultura ocidental: valorizado como habilidade feminina, mas raramente reconhecido como expressão artística

No início dos anos 2000, o trabalho de Margarida começou a sair do ambiente doméstico, quando, por sugestão de um curador, ela bordou em ponto cruz uma das obras dos filhos Otávio (à esq.) e Gustavo, Osgêmeos

Aqui, a mãe retrata os gêmeos como DJs, uma das paixões de Otávio e Gustavo

As obras de Margarida circularam em exposições no Brasil e no exterior, consolidando um reconhecimento que chegava depois de décadas dedicadas quase exclusivamente à família

Em cartaz até 6 de outubro, a exposição reúne cerca de 100 itens entre bordados produzidos ao longo de mais de quatro décadas, além de fotografias, documentos e vídeos
O primeiro contato de Margarida com a arte veio pelos ouvidos. Cresceu em uma casa tomada por música clássica e óperas admiradas pelo seu pai. O interesse pelo desenho surgiu cedo, mas a família não tinha dinheiro para comprar os materiais das aulas extras para as quais foi convidada por um professor.
Anos depois, já casada, recusou outro convite, desta vez do tio, o pintor Nicanor Ferracciu, para aprender pintura em seu ateliê — na época, não era considerado apropriado que uma mulher casada passasse horas sozinha com um homem, ainda que ele fosse da família. O bordado, ensinado pela avó Ona, foi o caminho que permaneceu.
Se as circunstâncias limitaram sua própria formação artística, Margarida fez questão de que os filhos aproveitassem as oportunidades. "Ela era muito curiosa e incentivava isso em nós. Levava-nos para ver exposições, fazer cursos… E fomos, um dia, conhecer o ateliê do Volpi", lembra Gustavo.
Na visita, Alfredo Volpi, célebre por suas “bandeirinhas”, presenteou Margarida com o cartaz de uma de suas exposições. Em casa, ela traduziu a imagem para o ponto cruz.
E não havia oportunidade em que Margarida não usasse sua criatividade. Transformava os bolos em pequenos cenários, inventando decorações com os materiais que tinha à mão. Em um dos vídeos exibidos na exposição, conta que, para criar um circo sobre um bolo, chegou a tingir pedaços de plástico para montar a lona que cobria o doce.
O renascimento pela arte
"Eu tive quatro filhos, eu parei por causa deles. Só que agora eu sinto que renasci por causa da arte", diz Margarida no filme. Esse renascimento começou quando ela tinha 61 anos.
No início dos anos 2000, com os Osgêmeos já consagrados internacionalmente, o curador Luiz Nogueira conheceu seus bordados e propôs que Margarida reinterpretasse, em ponto cruz, um desenho criado pelos filhos. O resultado foi A Moça, a Borboleta e o Querubim, obra selecionada para a Bienal Naïf de Piracicaba.
Pela primeira vez, os bordados que durante décadas haviam permanecido dentro de casa passavam a circular no circuito artístico. Um ano depois, no dia em que completou 62 anos, Margarida recebeu um convite para integrar a delegação brasileira da 7ª Bienal Têxtil de Kaunas, na Lituânia.
Nos anos seguintes, Margarida desenvolveu uma série de trabalhos em colaboração com os Osgêmeos transformando em bordados desenhos criados pelos filhos além de imagens de sua autoria. As obras passaram a circular em exposições no Brasil e no exterior, consolidando um reconhecimento que chegava depois de décadas dedicadas quase exclusivamente à família.
"É difícil encontrar tempo para fazer arte quando se trabalha fora e se cria quatro filhos", diz Gustavo. "Eu acho que ela sempre se enxergou como uma artista. Ela só precisava encontrar esse tempo para começar."