A nega da Islândia à União Europeia
No dia 29 de Agosto, os islandeses foram às urnas e rejeitaram em referendo a possibilidade de reabrir negociações de adesão à União Europeia. A primeira-ministra socialista Kristrún Frostadóttir havia prometido realizar um referendo antes de 2027 e o resultado, com 52,8% dos islandeses a rejeitarem a proposta apresentada pelo Governo por si liderado, constitui uma derrota política que já se comprometeu a respeitar.
A campanha pelo “Sim” foi inteligente, assentando no slogan “Já til ad sjá” (que pode ser traduzido por algo como “Sim para descobrir”) para tentar contrariar um sentimento popular tradicionalmente muito céptico quanto à possibilidade de integração na UE. A ideia do Governo era tentar que o “Sim” pudesse triunfar numa lógica de abrir caminho à descoberta do que a UE poderia oferecer à Islândia num contexto de abertura de negociações – e não como um compromisso sem retorno de integração na UE.
Ainda assim, e apesar desta estratégia de campanha inteligente e bem financiada, apenas uns insuficientes 47,2% votaram a favor, um resultado que certamente causou mais uma desilusão aos eurocratas sediados em Bruxelas. Num contexto em que a política externa errática de Trump – e em especial as afirmações sobre a Gronelândia – poderiam favorecer a lógica de integração na UE, este resultado pode parecer particularmente intrigante. Mas será menos se atendermos às razões económicas e políticas que lhe estão subjacentes, assim como à debilidade institucional e de liderança da própria UE.
Em primeiro lugar, a Islândia está longe de estar isolada do resto da Europa. A sua pertença desde 1994 ao Espaço Económico Europeu (juntamente com a Noruega e o Liechtenstein) proporciona um elevado grau de integração económica ao mesmo tempo que preserva uma substancial autonomia em matérias cruciais para a Islândia como as pescas, a agricultura, a política monetária e alguns aspectos do comércio internacional. A preservação dessa autonomia foi um dos principais elementos valorizados por quem votou “Não” no referendo, receando especialmente a perda de autonomia em matéria de pescas, uma actividade fundamental para o país.
Ainda no plano económico, também terá pesado o facto de que a próspera Islândia iria contribuir muito mais em termos líquidos para a UE do que iria receber. Da mesma forma que os eurocratas viam a potencial integração da Islândia como uma fonte adicional de rendimento para redistribuir (e até para compensar os custos com a potencial integração de países como o Montenegro), os islandeses que votaram “Não” expressaram a sua rejeição dessa equação.
Adicionalmente, no plano político pesou também a forte identidade nacional dos islandeses, forjada ao longo de séculos frequentemente em contextos e grande adversidade. O árduo caminho até à conquista da soberania perante a Dinamarca em 1918 deixou marcas profundas. O mesmo pode ser dito dos inúmeros conflitos que os islandeses enfrentaram ao longo da sua história para preservar os seus recursos marítimos de vários tipos de incursões e ameaças externas.
Finalmente, as próprias perspectivas oferecidas pelo estado da UE também não terão sido suficientemente persuasivas para a maioria dos eleitores islandeses. Infelizmente para os europeus de países membros (como Portugal), a UE é hoje um bloco em notório declínio político, económico e demográfico. A Islândia partilha alguns desses problemas, mas tem uma economia bem mais robusta (por exemplo com um PIB per capita que é cerca do dobro da média da UE e com um forte pilar de capitalização no seu sistema de pensões, um dos mais sustentáveis do mundo) e, apesar das dificuldades e incertezas recentes, uma aliança de defesa sólida com os EUA, que a maioria dos islandeses deseja manter. Integrar um bloco em decadência geopolítica e que conta nos seus mais altos cargos com uma linhagem de figuras que oscilam geralmente entre o ridículo e o deprimente – veja-se, por exemplo, o caso de Ursula von der Leyen – não foi, assim, compreensivelmente um cenário suficientemente atractivo para os islandeses.
Seria bom que a UE aproveitasse esta rejeição para um exercício de auto-análise sobre os seus próprios problemas internos, mas infelizmente é pouco provável que tal aconteça.