"A polícia bateu à porta. Foi o meu primeiro encontro com a morte"
Pedro Chagas Freitas partilhou com os seguidores uma dolorosa recordação de quando era apenas uma criança e teve o primeiro contacto com a morte. O escritor recordou quando soube da notícia da partida do seu tio Paulo, momento que foi vivido em família e que o deixou com um profundo medo de quem poderia morrer a seguir.
"O meu primeiro encontro com a morte foi a 19 de Agosto, há muitos anos. Foi mais um confronto do que um encontro. A morte de quem amamos mata-nos. Um vai, o outro fica. Não sei qual dos dois morre mais. Naquele dia, eu era a criança que soube que o tio Paulo morreu. Ninguém me tinha morrido até àquele dia. Nunca tinha visto o meu avô a chorar, a minha avó a chorar, os meus tios, os meus primos a chorar, tantos adultos a chorar. Nunca tinha visto uma casa a chorar. Poucas imagens magoam mais do que a da morte dos que amamos no meio da vida dos que amamos", começa por recordar.
"Eu estava lá quando a polícia bateu à porta. Eram dois. Traziam a tristeza de quem não sabe como se carrega a morte de um filho até à mãe, até aos pais. O grito da minha avó. O grito de toda a gente. Quando se morre por dentro, resta um grito ou o silêncio. Ou o grito e depois o silêncio. O Paulo morreu. Antes de partir para a última viagem veio lá a casa dar um abraço. Não sei se foi coincidência mas foi assim: «já sabes chutar com o pé esquerdo, russo?», eu a querer mostrar-lhe num instante que já conseguia, que estava a ficar um craque. As mãos dele no meu cabelo pela última vez, aquele sorriso inteligente (a inteligência vê-se, não vê?), o carro a ir, ele a ir.", acrescentou.
Para Pedro Chagas Freitas, o amor continua a existir mesmo que já não estejam juntos fisicamente mas este acontecimento marcou-o profundamente e a pensar em quem poderia ser o próximo a morrer.
"Só o que não se amou deixa de existir. Há um espaço em nós que não se vê, que está desfocado, uma massa infindável de medos, de contradições, de caminhos sem destino, sem denominação, sem definição, intangíveis, intocáveis: inacabáveis. É isso o que somos. A imortalidade dos que amava morreu ali, com ele. Eu menino a tentar perceber quem seria o próximo. Nessa noite, nem dormi, ou dormi pouco: passei as horas a pensar que iria ver morrer todos aqueles que amava.
Eu era o mais novo: iriam todos antes de mim. Chorei ali a morte de cada um, um por um, por antecipação. Ainda cá estamos quase todos. Ainda continuo a ser aquele menino, cheio de medo, embrulhado debaixo dos lençóis a pensar quando será o próximo. Acho que somos todos esse menino debaixo dos lençóis cheio de medo de que a morte chegue. Nunca deixamos de ser esse menino, nunca, nunca. É a nossa desgraça e o nosso milagre. Resta-nos aguentar, aproveitar. Resta-nos amar contra a morte", concluiu.

Morte de criança? "Os erros não vêm sempre da maldade"
Pedro Chagas Freitas pronuncia-se sobre a morte da criança de 18 meses que ficou esquecida no veículo, alegadamente da funcionária da creche, em Almada. O escritor fez questão de se manifestar sobre a notícia que marcou a semana.
Notícias ao Minuto | 21:00 - 25/07/2026