A volta dos jatos supersônicos

🗓️ 2026-07-14 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Os jatos supersônicos – que passaram os últimos 50 anos impedidos de voar comercialmente sobre os EUA devido à sua elevada emissão de ruído – estão ensaiando um comeback.

Seguindo uma ordem executiva do Governo Trump, a Administração Federal de Aviação (FAA) apresentou uma proposta de regulamentação que prevê a certificação destas aeronaves pelo nível do som que emitem – e não mais pela velocidade que atingem, como é hoje.

Se aprovada, a proposta da FAA permitirá que as aeronaves supersônicas comerciais produzam um estrondo sônico (sonic boom) de 0,11 libras por pé quadrado ao nível do solo, uma fração das 1 a 10 libras por pé quadrado produzidas por um jato militar.

O plano ficará em consulta pública até o mês que vem e, se não houver impeditivos, deverá ser finalizado até meados do ano que vem pela FAA. 

A medida abre caminho para que fabricantes de aviões voltem a pensar no modelo, mas as cinco décadas de proibição mostram que o assunto não é trivial e exigirá muito investimento da indústria, ou seja, um novo boom da aviação supersônica comercial ainda pode estar distante.

As aeronaves não militares que ultrapassavam a velocidade do som – cerca de 1080 km/h a 10 mil metros de altitude, ou Mach 1 – foram proibidas de realizar voos sobre terra nos EUA em 1973 devido ao estrondo que causavam.

O ruído era tamanho que quebrava janelas e disparava alarmes, emitindo um som semelhante ao de um tiro no ouvido humano.

A proibição foi um dos motivos para a aposentadoria do Concorde, o último avião supersônico comercial até aqui, em 2003. As companhias aéreas precisavam reduzir a velocidade para cruzar os EUA com a aeronave, o que aumentava muito os seus gastos com combustível. 

De lá pra cá, houve avanços tecnológicos capazes de atenuar o problema, como a técnica batizada de “corte de Mach”, em que uma aeronave projeta o estrondo sônico de volta para a atmosfera. 

A NASA tem experimentado com o tema no seu jato X-59 – o que inspirou o Governo Trump a buscar uma alteração da legislação – agora a grande questão é quais empresas estão dispostas (e preparadas) a embarcar nesta nova jornada supersônica comercial.

À Bloomberg, o consultor de aviação Rolland Vincent opinou que o retorno das viagens supersônicas civis deve ocorrer através dos jatos executivos.

“O mercado é grande o suficiente – entre indivíduos de alto poder aquisitivo, operadores de frotas particulares e chefes de Estado – para fornecer o volume necessário para que tal aeronave seja lucrativa,” ele disse.

Entre as grandes fabricantes de jatos executivos, a Dassault e a Embraer já produzem jatos militares supersônicos; a Gulfstream estudou uma parceria com a NASA na área; e a Bombardier tem o jato mais rápido do mundo, o Global 8000, que atinge Mach 0,95.

Mas para tirar o projeto do papel, elas precisarão se associar a uma das principais fabricantes de motores para aeronaves, um grupo ainda mais seleto com GE Aerospace, Pratt & Whitney, Safran e Rolls-Royce entre as poucas que já fabricam para aviões comerciais e militares.

Uma negociação difícil, já que as fabricantes de aviões vão querer exclusividade e as de motores precisarão de volume, que antecederá um longo e bilionário processo de desenvolvimento. 

Talvez seja melhor esperar sentado.

Até aqui, as empresas engajadas no tema são a Boom Supersonic, uma startup do Colorado que trabalha em um jato para até 80 passageiros e tem pré-encomendas da United e da American Airlines; e a Spike Aerospace, de Atlanta, que está desenvolvendo uma aeronave com capacidade para até 18 passageiros. 

As duas afirmam que poderão realizar voos transatlânticos em menos de quatro horas no futuro.

Matheus Prado