Acidente Voepass: Anac avaliará falhas apontadas pelo Cenipa | G1
No relatório, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira, apontou que as fiscalizações da agência foram insuficientes para impedir que o avião da Voepass caísse.
Segundo a Anac, o prazo para conclusão da análise das recomendações é de até quatro meses.
"As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil". informou a Anac.
O que diz o relatório

Avião da Voepass que caiu não poderia ter decolado, aponta Cenipa
O relatório final da investigação apontou falhas da companhia aérea, dos pilotos e da fiscalização da Anac, além de indicar que a aeronave tinha uma falha que impedia que voasse em condição de previsão de chuva.
O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa para essa investigação, apontou que antes do voo de Cascavel a Guarulhos, a aeronave apresentava 10 itens com falhas - uma delas no limpador de para-brisa.
"Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", disse Fróes.
"A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", completou.
Durante a investigação, o Cenipa analisou 1.206 voos feitos entre agosto de 2023 até o dia da queda. Em nota, a Voepass afirmou que vai se manifestar posteriormente, depois que tiver acesso à íntegra do relatório final.
Falhas no sistema de degelo
Coletiva do Cenipa responde perguntas de jornalistas sobre acidente com avião da Voepass — Foto: Gabriella Ramos/g1
O avião também apresentou falhas no sistema de degelo das asas em dois voos na véspera da queda, mas a tripulação responsável não registrou em diário de bordo, apontou o tenente-coronel.
Fróes afirmou que, em voo na véspera da queda, o avião decolou de Guarulhos com destino a Ribeirão Preto e teve uma falha no sistema responsável por eliminar o gelo acumulado nas asas.
Segundo ele, a tripulação, que não era a mesma do voo que caiu, não reportou isso em diário de bordo.
"A tripulação deveria ter relatado no diário de bordo essa falha para que a manutenção, após o pouso, pudesse verificar o que estava acontecendo com o sistema. O que a comissão verificou é que após o pouso em Ribeirão Preto, na noite anterior, essa falha não foi registrada no diário de bordo da aeronave", disse Fróes.
Pilotos conversavam sobre assuntos pessoais e esqueceram de sistema de degelo

Cenipa cita conversas pessoais de pilotos e "esquecimento" de acionar sistema de degelo
O avião por diversas vezes acionou o alerta electronic ice detector, que indica situação favorável para acúmulo de gelo na aeronave e deveria levar ao acionamento de protocolos, como mudança de velocidade e acionamento do sistema de degelo.
No entanto, segundo Fróes, durante toda a gravação da caixa-preta os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais.
"Há uma grande parte das gravações que os dois pilotos estão conversando sobre assuntos pessoais", relatou o tenente-coronel.
'Cultura de normalização de desvios'

Cultura de informalidade fez com que pilotos não relatassem panes em diários de bordo
Além disso, o tenente-coronel apontou que havia uma "cultura de normalização de desvios".
"Essa normalização de desvios, ela vem de uma cultura de informalidade em que pilotos e mecânicos não relataram as panes e as falhas em diário de bordo", detalhou Fróes.
Como era o avião que caiu em Vinhedo — Foto: Arte g1
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Entre os principais trabalhos realizados estão:
- análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);
- reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave;
- exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
- análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;
- entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
- estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia;
- testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
- análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos;
- análise de equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave;
- análise das lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda.
Revisão internacional
Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). — Foto: Divulgação/FAB
- pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500;
- e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave.
Investigação criminal também está na reta final
Familiares das vítimas do voo 2283 e advogados em reunião na Delegacia da Polícia Federal, em Campinas (SP) — Foto: Arquivo pessoal
Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos.
Relembre o acidente
Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo — Foto: Gabriella Ramos/g1
Foi o acidente aéreo mais grave do Brasil desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.
Logo após a tragédia, duas investigações foram abertas. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) passou a apurar os fatores que contribuíram para a queda e indicar medidas para evitar novos acidentes.
Já a Polícia Federal iniciou um inquérito para apurar se houve crime e produzir um laudo próprio sobre o caso, já que o relatório do Cenipa não pode ser usado para responsabilização criminal.
Também mostrou que o sistema foi acionado e desligado várias vezes ao longo da viagem, mas sem concluir se isso ocorreu por ação dos pilotos ou por outro motivo. O relatório, porém, não apontou a causa do acidente.
Enquanto as investigações avançavam, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu as operações da Voepass, em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a companhia de operar voos comerciais.
Na semana em que a tragédia completou um ano, o g1 publicou reportagens exclusivas sobre o caso. Uma delas revelou o relato de um ex-funcionário da Voepass de que um piloto havia informado verbalmente, horas antes do acidente, falhas no sistema antigelo durante um voo anterior, mas que o problema não foi registrado no diário técnico da aeronave.
Quase dois anos depois da tragédia, o Cenipa concluiu as investigações e divulgou o relatório final, que reúne a análise técnica do acidente e recomendações para aumentar a segurança da aviação e evitar novas tragédias.