Adoção: mais de mil animais aguardam a chance de ter um lar em Juiz de Fora

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Laís e os gatinhos acolhidos por ela  (Foto: Leonardo Costa)

Atualmente, cerca de 1100 animais estão à espera de adoção responsável no Canil Municipal. São oitocentos cães e cerca de trezentos gatos em busca de um lar. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), a situação se agravou após as fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira no mês de fevereiro. 

Laís Nunes integra a equipe da Secretaria de Bem-estar Animal (Sebeal). Apesar de trabalhar no escritório da secretaria, durante o período das fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, ela atuou nos abrigos de animais. Para a Tribuna, Laís compartilhou detalhes sobre as operações de acolhimento realizadas para a proteção de gatos e cachorros durante e após a tragédia socioambiental.

Ela, que também é estudante de Medicina Veterinária, conta que muitos animais foram resgatados durante a calamidade – alguns porque seus tutores precisaram deixar as casas em que moravam e não tinham condições de levar os pets. Neste cenário, pelo alto fluxo de animais e pelos trauma que muitos haviam experienciado, a equipe do Canil optou por separar os gatos dos cães.

“(Acho que) por causa do temperamento natural do felino, eles chegavam mais traumatizados. Tiveram, inclusive, mais problemas de saúde em decorrência desse momento de estresse. Muito rapidamente, percebemos que não seria possível manter os gatos ali. Então os separamos: tivemos uma casa, que a gente chamava de casa dos gatos, o nosso gatil emergencial”, explica.

Se, por um lado, os gatos estavam mais assustados com a situação, por outro, a maioria deles tinha lares garantidos. Laís conta que muitas famílias deixaram os felinos sob a responsabilidade da Sebeal apenas durante um período, enquanto a maioria dos cães foi entregue para a adoção de forma definitiva ou não tinha tutores conhecidos.

Os traumas, no entanto, foram um denominador comum entre eles. “Nos primeiros dias, ficavam todos dentro de caixas de papelão, às vezes na mesma posição, urinando em si mesmos, olhando para a parede. Esse era o grau de nervosismo que eles chegaram lá. Com muita paciência e muito carinho, tanto da equipe técnica quanto de voluntários, essa realidade foi mudando aos poucos”, relembra Laís.

Ela também ressalta a importância do apoio da equipe do Grupo de Resposta a Animais em Desastres (GRAD), que, no período mais crucial, esteve ao lado da Sebeal e orientou profissionais e voluntários sobre como lidar com os animais durante e após a crise.

Amor para quem perdeu tudo

Não há quem não tenha se sensibilizado com a família que morreu no Bairro Paineiras e com tantas outras afetadas cidade afora. No caso da casa que desabou na Rua do Carmelo, mãe, padrasto, avó e duas crianças foram vítimas fatais das chuvas. Outra parte da família, no entanto, sobreviveu à tragédia: Lua e Everest, um casal de gatinhos que tinha acabado de ter filhotes.

Com os deslizamentos que atingiram a região e a fatalidade com a família, os vizinhos acreditaram que os animais também tinham sido mortos na tragédia. Os filhotes realmente faleceram, mas, alguns dias depois, o casal felino foi visto andando sobre os escombros. 

Resgatados com o auxílio do GRAD, Lua e Everest, apesar de muito traumatizados, foram levados para o gatil emergencial, onde receberam amor e cuidado da equipe da Sebeal e de voluntários e mostraram-se dóceis e carinhosos.

“Começamos a tirar fotos deles e a divulgar, na tentativa de conseguir uma adoção conjunta, que é muito difícil especialmente para gatos adultos. Seria mais um trauma separá-los”, relembra Laís.

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Thaís, o marido, Lua e Everest (Foto: Felipe Couri)

Dois meses e meio após as chuvas, chegou o momento de desmobilizar o gatil, e Lua e Everest precisariam ser direcionados para a sede do Canil, que já estava superlotada. A artesã e voluntária Thaís Matos, que, durante o período emergencial, estava auxiliando nas ações do canil, mudou o destino do casal de gatinhos.

Thaís se tornou voluntária a convite de uma amiga e conta que, no início, tentou ao máximo se distanciar das histórias dos animais. Mas o coração falou mais alto quando conheceu Lua e Everest. “Eles já haviam perdido absolutamente tudo. Perderam a casa, e gato é muito apegado ao ambiente. Perderam a família felina e a humana. Entendia que, pelo menos, eles precisariam continuar um com o outro. Chegamos a conseguir uma adoção promissora, só que Everest estava com conjuntivite. A pessoa interessada decidiu pegá-los após o fim do tratamento. Ela desistiu e não voltou”, recorda.

Já com oito animais em casa, a artesã conta que o objetivo era não se apegar, mas, quando viu que os gatos iriam para o abrigo, voltou para casa chorando. “Eu dei meu nome e disse que, se não houvesse outro interessado, eu os levaria para casa.” Ela sabia que eles seriam bem cuidados no canil, mas o temor era de que o casal fosse separado. “Decidir trazê-los para casa não foi uma decisão difícil, porque eles são muito amáveis.” Aumentar a família foi uma decisão não só apoiada, como incentivada pelo marido, conta. 

Filhotes vulneráveis

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Mimados, os gatinhos são o xodó de Laís (Foto: Leonardo Costa)

Não foi apenas Thaís quem se emocionou com a história dos animais. Laís estava fazendo o seu trabalho, até encontrar mais quatro companheiros.

Ela conta que a Sebeal foi mobilizada para resgatar os animais de uma casa no bairro Olavo Costa, que estava em rota de deslizamento. A família tinha conseguido um local para ficar de forma provisória, mas não poderia levar seus animais de estimação, entre gatos e cachorros.

“Entre esses animais tinha uma gata, uma mãezinha, com três recém-nascidos. A família tutora era muito humilde e muito consciente de que talvez não conseguisse reaver esses animais todos no futuro”, relembra.

Abandonar animais em circunstâncias normais é crime, mas, durante a tragédia ambiental, a Sebeal reconheceu que as circunstâncias atípicas forçaram diversos tutores a abrir mão dos seus animais. “O que a gente estava vivendo ali, eram pessoas que não sabiam como ia ser o dia de amanhã. Se elas iam estar trabalhando, se iam ter casas, se iam ficar vivas. Era uma outra situação.” Na noite após o resgate destes animais e da mudança da família, houve um deslizamento na casa, sem vítimas. 

A gata e seus três filhotes foram enviados para lares temporários. A tutora que recebeu os animais tinha disponibilidade para acolhê-los apenas por um mês e, quando chegou o momento de levá-los ao abrigo, Laís mudou o destino e os acolheu em casa.  

Agora, Laís encontrou famílias para todos os animais, mas reconhece que entregá-los a outras pessoas não é um processo fácil: “eu estou entregando esses gatos sem querer entregar. A mãezinha vai ficar comigo. No meio daquela tragédia toda, nós conseguimos ter alguns desfechos muito bons”, orgulha-se.

À espera do final feliz

Mas ainda há animais à espera do seu final feliz. As entrevistadas defendem que os animais precisam, merecem e aguardam lares amorosos para que consigam se recuperar de um trauma que marcou toda a cidade. “Esses animais perderam tudo, perderam a família. Adotar um animal que passou por um trauma dessa magnitude é ainda mais importante”, afirma Thaís.

Laís defende que os abrigos devem ser espaços de passagem, porém explica que nem sempre isso acontece na prática. Com a adoção, explica, o animal passa a ser um indivíduo dentro de um contexto familiar. “Você muda completamente a realidade desse animal. É isso que a gente gostaria para todos que estão lá.”

E o trabalho não para: em 2026, mais de trezentos animais do Canil Municipal foram adotados, enquanto muitos outros aguardam uma nova chance. Por isso, quem tiver o desejo de adotar, pode procurar a Sebeal nos eventos de adoção responsável e no próprio canil, munido de documentos pessoais, uma guia e coleira para cães ou caixa de transporte para gatos. Após a realização de uma entrevista com os candidatos à adoção, pronto! Já é possível ter um amigo de quatro patas para chamar de seu!

*Estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa

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