ICE prende advogado chinês de direitos humanos e corre o risco de deportação

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Um advogado chinês dos direitos humanos foi detido na quarta-feira na Pensilvânia por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, sigla inglesa) e corre o risco de ser deportado para a China, onde poderá ser perseguido pelo seu ativismo contra a opressão por parte das autoridades de Pequim.

Shaoping Wu fugiu da China para os Estados Unidos em 2020, após o Governo chinês ter começado a perseguir participantes de uma reunião de advogados defensores dos direitos humanos, refere o The New York Times. Instalou-se na Pensilvânia com a sua família, onde trabalhava como motorista de entrega de produtos da Amazon, ao mesmo tempo que continuava envolvido na luta pelos direitos humanos na China.

Na quarta-feira, enquanto fazia uma entrega em Mount Holly Springs, na Pensilvânia, foi parado numa operação stop com o polícia a pedir-lhe o comprovativo de cidadania, refere Shi Minglei, um colega de Wu, ao The Guardian. Por não ter o documento, apesar de ter entrado legalmente no país através de um visto de turista, apresentou o comprovativo de pedido de asilo pendente e o documento de autorização de trabalho.

No entanto, por não ter o estatuto de requerente de asilo, a polícia notificou o ICE e foi levado para o Centro de Processamento de Moshannon Valley, na Pensilvânia, correndo agora risco de deportação para a China, onde poderá ser preso. Wu tem sido alvo de perseguição por parte do aparelho de segurança ao longo dos anos, segundo contou a mulher, Caoliu Li, ao The New York Post.

Num comunicado, enviado ao jornal norte-americano, o Departamento de Segurança Interna afirmou que Shaoping Wu “havia excedido o prazo do seu visto em seis anos e que teria direito ao devido processo legal”, e referiu que ofereceu ao detido 2.600 dólares (2.267 euros) e um bilhete de avião “para que se autodeportasse”.

No entanto, Wu mantém-se “otimista” em relação à aprovação do seu pedido de asilo, segundo o colega Shi Minglei. “Ele também se sente frustrado porque acha que não deveria ter sido preso”, acrescentou, em declarações ao The Guardian.

A audiência do tribunal de imigração está marcada para 27 de julho, refere o advogado de Wu, John Visher.

A prisão de Wu tem suscitado preocupação por parte de dissidentes chineses pelo risco de deportação e de represálias caso tal se concretize. O ativista Zhou Fengsuo, um dos líderes dos protestos da Praça Tiananmen, em 1989, sublinhou que a detenção gerou “um enorme medo entre muitos dos amigos que fugiram do Partido Comunista Chinês em busca de algum tipo de proteção nos Estados Unidos”.

Em janeiro, o dissidente chinês Heng Guan, que registou as violações dos direitos da minoria uigur na China, obteve asilo nos Estados Unidos, após ter sido detido pelo ICE, que tentou deportá-lo para o Uganda, um dos aliados mais próximos de Pequim, refere o The New York Times. Outros dissidentes chineses, sobretudo uigures, enfrentam também o risco de deportação, segundo a organização sem fins lucrativos Campaign for Uyghurs.

Shaoping Wu trabalhava como advogado comercial em Xangai quando, em 2015, se juntou ao movimento de defesa dos direitos humanos, numa altura em que o Governo chinês iniciou a maior onda de repressão contra advogados dos direitos humanos em décadas. “Ele esperava que o povo chinês pudesse desfrutar de liberdade e democracia e não gostava da maneira como o sistema autoritário da China oprimia o povo comum”, detalhou a mulher, ao The Guardian.

Durante a sua carreira, começou a assumir “casos delicados”, defendendo ativistas dos direitos humanos, dissidentes políticos e direitos de minorias religiosas, que culminaram na sua participação numa reunião de 2019, com outros advogados e ativistas. Muitos dos participantes acabariam presos e condenados a longas penas de prisão.

Após fugir para os Estados Unidos, continuou a defender os direitos humanos na China, tendo participado este mês num evento online em memória das vítimas da repressão contra os advogados desde 2015.

“Para o mundo exterior, os advogados de direitos humanos podem parecer um grupo de heróis idealistas e trágicos”, afirmou no encontro. “No entanto, para nós, isto não é um ato romântico ou performático, mas sim a nossa missão e responsabilidade incontornáveis”, acrescentou.

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