Agora querem que o Amália seja o dono da verdade

🗓️ 2026-07-17 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Os governos, como se sabe, são todos iguais a Oscar Wilde. É ele o autor da célebre frase “Consigo resistir a tudo, menos a uma tentação”. A principal tentação a que, desde a Idade da Pedra, os governos não conseguem resistir é a de controlar a informação. Pior: é a tentação de definir aquilo que é, ou não é, a verdade. Nesta semana em que um ministro se embrulhou em obras e outro tropeçou em exames, passou relativamente despercebida a notícia de que uma “variante” do Amália, o modelo de inteligência artificial pensado e financiado pelo governo, está a ser “treinada” para andar a farejar a verdade e a mentira nas notícias dos jornais.

Segundo parece, uma “equipa de linguistas” pegou numa lanterna e numa picareta e varreu 104 notícias numa tentativa gloriosa de “identificação de narrativas dominantes em artigos noticiosos de natureza manipuladora” e de “deteção de técnicas de persuasão em conteúdos jornalísticos”. Mais concretamente, esta brigada linguística definiu, com argúcia e minúcia, “23 técnicas de persuasão” — não foram duas, nem três, foram vinte e três — que pelos vistos são usadas por entidades malévolas que nos querem enganar. Entre essas “técnicas” tenebrosas estão “apelos ao medo” e “ao preconceito” e, ainda, “linguagem carregada”.

Como perceberá qualquer pessoa que tenha lido um livro na vida — a não ser que esse livro tenha sido “A Verdade do Amor”, de Gustavo Santos — esta história está cheia de conceitos vagos e indeterminados. O que é que corresponde a um “apelo ao medo”? Como se define uma “linguagem carregada”? Numa sociedade livre, cada pessoa terá a sua opinião. Mas, em Portugal, essas opiniões contarão pouco, porque a única válida será a da “equipa de linguistas” que é paga pelo governo e que tem a patriótica missão de comandar o Amália.

Lá fora, também há Estados que estão dispostos a tudo para combater a terrível “desinformação”. Nos Emirados Árabes Unidos, é crime publicar ou partilhar “notícias, declarações ou rumores falsos ou tendenciosos” que possam “prejudicar o interesse público” ou “incitar a opinião pública”. Na Turquia, uma diretiva sobre Princípios Morais da Imprensa proíbe qualquer notícia que “não seja verificada pelas autoridades” e, recentemente, o Presidente criou uma plataforma de fact-checking dirigida, adivinharam, pelo Estado. Em Singapura, a Lei de Proteção contra Falsidades e Manipulação Online avisou todos aqueles que pretendam usar a sua má índole para envenenar a população virtuosa com fake news que, para o Estado, “uma declaração é falsa se for falsa ou enganosa, na totalidade ou em parte”. Não sei se estavam atentos, por isso vou repetir, resumindo: “Uma declaração é falsa se for falsa”.

O Amália foi, desde o início, uma megalomania e um equívoco. Quando foi anunciado, as almas mais inocentes terão pensado que o Estado português pretendia competir com o ChatGPT, com o Gemini e com o Claude. Mas, no momento do lançamento oficial, todas as dúvidas foram esclarecidas: o Amália estava para o Claude como uma caneta Bic está para um MacBook Pro. Infelizmente, não nos limitámos a ser pobres de espírito, coisa a que já estamos habituados. Sem que se percebesse bem como, até porque o Governo agora tenta afastar-se desta trapalhada, alguém decidiu aproveitar a parca inteligência artificial do Amália para tentar limpar Portugal da “polarização”, da “desinformação” e das “fake news”. Os linguistas do Amália pretendem devolver a tranquilidade aos lares da nação aspergindo sobre eles a sua inesgotável virtude. Sem o Amália, ficaríamos nas mãos do “fascismo”. E, isso, os linguistas não podem admitir. Se depender deles, o Amália será o novo dono da verdade. E, nesse momento, todos ficaremos livres do mal. Não pretendendo fazer “apelos ao medo” ou usar “linguagem carregada”, resta-me pedir, piamente, que Deus nos acuda.