Alguém precisa parar os 'tech bros' - 30/08/2026 - Mafalda Anjos - Folha
Em 2014, fiz uma reportagem na sede do Facebook e Instagram, em Menlo Park, no Vale do Silício. Dentro do campus, encontrei uma palavra escrita por todo o lado —nos grafites, nas decorações e até no chão, na praça central, em letras tão grandes que eram visíveis do céu. Consegue, caro leitor, adivinhar qual era esse termo?
As sugestões são normalmente benevolentes, como conexão, rede, união. Porém, a palavra onipresente que simboliza a cultura da empresa é "hack" ou "hacker". Vem de piratear, ou na tradução mais clássica, de golpear grosseiramente, estraçalhar.
Esse trabalho, feito anos antes do escândalo da Cambridge Analytica (que revelou como era possível fazer manipulação política em massa nas redes sociais), foi um dos que mais me impactou na minha carreira de jornalista.
Entrevistei o homem que liderava a equipe do algoritmo e me senti num Matrix. À minha frente, de boné, bebendo uma Coca-Cola, estava um homem que falava do poder incomensurável de escolher o que os utilizadores da maior nação do mundo viam nas suas timelines —e como ficariam a se sentir e que percepção do mundo guardariam depois de umas quantas horas a navegar—, com a mesma leveza de quem explicava uma opção estética.
Ficou à vista o potencial gigantesco dos algoritmos das grandes plataformas: tanto podiam informar, construir e conectar como criar realidades alternativas e fazer colapsar os nossos valores e chão comum. Desde então, tenho acompanhado com misto de deslumbramento, pasmo e horror a voragem digital que assolou o mundo e que resultou na inteligência artificial. Umas vezes sinto-me num Admirável Mundo Novo; em outras, vejo o planeta numa irreversível descida ao abismo, sob a contagem regressiva: "esta civilização vai autodestruir-se em 5, 4, 3…".
Há dias, para pôr fim a um megaprocesso judicial, a Meta aceitou fazer mudanças em seu algoritmo para atenuar os riscos de vício de jovens, além de pagar mais de US$ 17 bilhões (R$ 88 bilhões) de indenizações. Fica, mais uma vez, claro que, quando o serviço é gratuito, o produto somos nós —com todo o mal que isso pode causar na saúde mental, nas nossas escolhas diárias, mas também na economia e na democracia.
Na mesma altura, o New York Times publicou uma alarmada entrevista com Bill Gates, que defende que a IA pode nos destruir e que discuti-la é 1.000% mais essencial do que o debate nuclear. Gates propõe novas taxas, uma reserva de trabalhos apenas humanos e critérios claros para restringir os riscos extremos.
Os todo-poderosos magnatas tecnológicos são os novos imperadores, e as mudanças disruptivas que impõem acontecem em velocidade vertiginosa, com a IA generativa a desbravar caminhos que ninguém mais entende, nem mesmo os programadores que a desenharam.
Atordoadas, as comunidades políticas tentam fazer sentido da disrupção e ensaiar alguma autoridade. A União Europeia foi pioneira na imposição de regulamentação, mas a passos lentos, embrulhada em processos complexos e burocracia atávica. O Brasil tenta travar abusos. Mas quando os políticos partem para a corrida, as big techs já deram várias voltas ao campo sem parar na casa de partida.
Bem sei que há guerras em várias frentes. Porém, a luta para impor limites aos "tech bros" tem de ser prioridade absoluta. É mesmo o maior combate de nossas vidas.
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