Alguém recorde a Luís Neves que é apenas o MAI
Há duas questões distintas. Uma é o comportamento de Luís Neves como Director da Polícia Judiciária. Ele considera que não há razões para se demitir e o PM fez a mesma avaliação. É um julgamento político legítimo. Mas também é legítimo que partidos da oposição façam perguntas incómodas e até que peçam a sua demissão. É a vida política. O ministro defende-se, o PM apoia, e a oposição ataca. Houve dezenas de casos semelhantes no passado com todos os governos.
Uma questão completamente diferente é o ministro da Administração Interna afirmar que tem como uma das suas missões “derrotar o populismo”. Não, a obrigação do MAI é exercer as suas funções de ministro, como manter a ordem pública, combater a imigração ilegal, o crime, os fogos, os desastres naturais. Também pode fazer reformas nas forças e nas instituições sob a sua autoridade, se assim considerar ajustado. O que o MAI não pode fazer é colocar-se acima de todos os outros ministros e declarar que quer destruir um partido da oposição.
Mostra um ministro com algum desnorte, e com instintos de justiceiro populista. Quem derrota os partidos são os eleitores, não são ministros. Nós vivemos numa democracia, e não num regime onde ministros substituem eleitores para acabar com os seus adversários políticos. Aliás, se o MAI quer ajudar os eleitores a derrotarem o Chega, a melhor contribuição será executar com competência as suas funções.
A cruzada de Luís Neves contra o Chega causa dois problemas ao governo. Em primeiro lugar, ajuda o Chega a crescer. André Ventura colocou uma armadilha à frente do MAI, e ele caiu, e caiu a correr. Luís Neves trata Ventura como o líder indiscutível da oposição, um enorme favor ao Chega. Não haverá alguém no governo que explique ao MAI que os ministros de um executivo minoritário, num contexto político muito polarizado e com demasiada emoção à solta, devem manter a cabeça fria e a calma? E também podiam explicar a Luís Neves que está a fazer o que Ventura mais gosta, dar-lhe palco político.
Além de ajudar o Chega, o MAI está a criar um segundo problema ao governo. Está a colocá-lo inteiramente dependente do PS. A estratégia dos dois governos minoritários de Luís Montenegro foi sempre evitar a dependência de um dos principais partidos da oposição, e negociar com ambos para, precisamente, garantir a sua autonomia política. Luís Neves está a tentar construir um bloco central para combater o Chega, empurrando o governo para os braços do PS. Não tem mandato político para o fazer.
Luís Neves recusou demitir-se. Seja então coerente, concentre-se nas suas funções de MAI e esqueça o que não faz parte das suas competências, como o combate ao populismo.