Alicante Bullshit
O consumo de vinho está a cair?
As novas gerações vão deixar de beber vinho?
Não me parece.
O que está errado é a teoria conveniente de que tudo aquilo a que a lei permite chamar “vinho” é necessariamente vinho no verdadeiro sentido da palavra.
Perante a quebra do consumo, culpa-se a juventude, mas para os jovens a decisão é simples: se isto é vinho bom, então não gosto de vinho.
Quando as uvas são produzidas em quantidades que chegam a superar 15 toneladas por hectare, colhidas antes da maturação fenólica, até ao limite da rentabilidade e, depois, corrigidas em adega com ácido tartárico, sulfuroso, taninos, enzimas, leveduras, nutrientes, gomas e chips destinados a impor rapidamente um aroma de madeira, o resultado pode cumprir todos os procedimentos e regras legais, mas isso não o transforma num produto de qualidade. É o moderno vinho-a-martelo.
Quando o perfil do produto é decidido antes da vindima, com base em estudos de mercado, tendências de consumo e segmentos de preço, a vinha deixa de comandar o vinho. O enólogo recebe uma encomenda sensorial: mais fruta, mais acidez, menos doçura, mais madeira, taninos mais macios, um sabor directo e imediatamente reconhecível.
O resultado não é vinho, é “Coca-Cola Wine”: uma bebida previsível, repetível e ajustada ao consumidor estatístico.
A indústria constrói o produto, o marketing posiciona-o como “muito bom”, a origem atesta o rótulo, a ementa inflacionada faz crer que é de bom nível e, assim, se não gostas, é porque não entendes… não tens cultura de vinho. E esta, é a facada final.
Diz-se que as novas gerações não bebem vinho, que perderam a cultura da mesa, que preferem cerveja, gin, cocktails ou bebidas sem álcool. É uma explicação cómoda, porque evita discutir a qualidade e a identidade do produto que lhes está a ser oferecido.
As novas gerações não são fundamentalmente diferentes das anteriores. Há consumidores influenciáveis e consumidores atentos. Há quem siga modas e quem desconfie delas. Há quem compre uma história e quem procure substância.
A lógica continua a ser a mesma: “Value-for-Money”. A diferença é que nunca existiu tanta pressão sobre o consumidor.
O planeta está inundado de produtos, categorias, marcas, tendências, dietas, suplementos, modas de saúde e promessas de bem-estar. Existe uma indústria de influenciadores a transformar opiniões em fortunas e outra indústria de investigação pronta a produzir estudos ajustados às perguntas de quem os financia. Há sempre um especialista disponível para explicar o que devemos beber, comer, evitar ou substituir.
Muitas vezes, a decisão de beber cerveja, gin, vinho ou água com gás não resulta de uma rejeição racional do vinho. Resulta do ambiente, do grupo, do preço, da imagem, da conveniência e, não raras vezes, das teorias do personal trainer.
A população está cada vez mais segmentada. Para as grandes indústrias, isso é uma oportunidade: cada grupo recebe um produto, uma mensagem, uma promessa e uma embalagem.
O problema do vinho foi ter entrado nesse jogo sem perceber que estava a destruir a sua principal vantagem: não ser apenas mais uma bebida formulada.
Será que a indústria do vinho caminha para a extinção?
Não creio. Mas uma parte dela caminha para a irrelevância.
O vinho banal, indistinto, construído para agradar ao maior número possível de pessoas, terá cada vez mais dificuldade em competir com outros produtos mais baratos, mais fáceis de compreender, mais consistentes e apoiados por máquinas de comunicação incomparavelmente mais poderosas.
O futuro do vinho não está na corrida pelo volume. Está na diferença, na qualidade, na identidade e na transparência. Isto implica inverter a lógica da regulação.
Durante demasiado tempo, a burocracia caiu com maior peso sobre o pequeno produtor, enquanto os grandes grupos dispunham de departamentos e consultores, dominaram as associações e criaram a influência suficiente para adaptar as regras aos seus modelos de negócio.
A regulação deve começar de cima para baixo porque o problema central é o dumping induzido e a cartelização espontânea, ambos legais. Quem produz milhões de garrafas, movimenta grandes volumes, condiciona preços e exerce poder sobre a distribuição deve ser mais questionado sob o ponto de vista ético, uma vez que o seu impacto social e económico transcende o mero lucro privado, transformando as suas decisões comerciais em forças que moldam toda a fileira.
Mas os investidores e os lóbis não querem essa mudança. O negócio deles são as massas. Precisam de volume, uniformidade, estabilidade, velocidade e margens. Precisam de vinhos que cheguem ao mercado e dominem sem surpresas, que saibam exatamente ao que o consumidor espera… só que isto, talvez já não faça sentido nos dias de hoje.
A distribuição terá por isso de se redesenhar, tornando-se mais específica e direcionada.
Hoje, quem produz assume o risco, quem distribui controla o acesso ao mercado e quem vende ao público fica com a maior margem. No meio desta cadeia, o produtor perde autonomia, o vinho perde valor, entra-se na espiral da perda de qualidade, e o consumidor paga mais sem receber necessariamente mais qualidade.
É igualmente necessário rever o sistema de certificações e Denominações de Origem.
Há demasiado greenwashing, demasiados selos, demasiadas auditorias e demasiadas portagens burocráticas. Criaram-se certificações que pesam sobre quem tem menos estrutura, enquanto as grandes empresas transformam o cumprimento formal em argumento de marketing.
Os vendedores de paleio e os “salvadores do planeta” encontraram nas instituições terreno fértil para estabelecerem as suas portagens.
Certificar não é sinónimo de melhorar. Uma certificação inútil não protege a natureza, não aumenta a qualidade e não esclarece o consumidor. Apenas cria mais uma taxa, mais um intermediário e mais uma barreira à entrada.
As Denominações de Origem também têm de responder a uma pergunta incómoda: como é que é possível que um Vinho Regional Alentejano custe no supermercado menos do que um quilo de uvas? Estão realmente a proteger a identidade do vinho ou limitam-se a proteger a utilização comercial de um nome geográfico? O consumidor não compreende como é que um vinho com Denominação de Origem pode estar na prateleira abaixo de 5€, e, pior ainda, exposto a depreciações de 70%.
Uma Denominação de Origem que aceita produções massificadas, padronização sensorial, perfis industriais e sobretudo preços de combate, factura por certo muito mais, mas sabe que se está a transformar numa simples marca depreciativa. Este é o cerne da questão.
O vinho que resulta essencialmente da vinha, da uva, da vindima, do ano e da fermentação espontânea, não pode continuar a ser confundido com uma bebida construída através de sucessivas correções para reproduzir um perfil comercial. Ao vinho industrial não se pode dar o mesmo nome.
A solução não é proibir. A solução é deixar de permitir que produtos profundamente diferentes sejam escondidos sob a mesma palavra. Pode ser vendido. Pode ter mercado. Pode ter consumidores. Pode ser legal e tecnicamente competente, mas não é correcto nem justo que possa apropriar-se da mesma identidade, da mesma história e do mesmo prestígio do vinho verdadeiro.
O vinho não está a morrer porque os jovens deixaram de o beber. Está a perder relevância porque a indústria alargou tanto o significado da palavra “Vinho” que, hoje, quase tudo cabe dentro dela.
Hoje diz-se que já não há vinhos maus, já não há vinho a martelo: quando tudo é Vinho, a palavra Vinho deixa de significar arte, cultura e valor.