Helton Simões Gomes: Alvo de Flávio, ANPD vai mirar rolagem infinita e vício nas redes em 2027

🗓️ 2026-10-19 📁 technology 📝 ⏱️ 👁️ : -
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O presidente Lula durante regulamentação do ECA Digital
O presidente Lula durante regulamentação do ECA Digital Imagem: Reprodução/YouTube/CanalGov

A ANPD está reformulando sua agenda regulatória para os próximos dois anos. O documento funciona como bússola do que a agência vai transformar em regulamento ou guia a ser seguido pelas empresas seguirem. E, a partir de 2027, o norte estará apontado para os seguintes pontos:

  • Será a primeira agenda a reunir as três competências da agência (LGPD, ECA Digital e Marco Civil da Internet). Como essas leis exigem relatórios de transparência e, em muitos casos, as empresas obrigadas a seguir as normas são as mesmas, a primeira mudança será simplificar: bastará enviar um documento para contemplar as três legislações. É o que acontecerá, por exemplo, com as avaliações de risco das plataformas;
  • Um dos esforços regulatórios e de fiscalização prioritárias será o combate ao design manipulativo. Proibido no decreto presidencial que regulamentou o ECA Digital, é o conjunto de técnicas para promover o uso compulsivo de plataformas digitais;
  • Exemplos citados expressamente pelo decreto são a rolagem infinita (ocultação de pontos naturais de parada), vídeo e similares com autoplay (acionamento de novos conteúdos sem solicitação), notificações excessivas e a oferta de recompensas pelo tempo de uso;
  • Mal comparando, pense na seguinte situação: uma família confia na plataforma e compra um copo de refringente para sua criança; mas esse copo veio com rolagem infinita, que funciona como um refil automático; nem pai, nem mãe, nem criança decidirão sobre tomar o quinto refrigerante, porque o copo sempre estará cheio; o ponto de parada é o garçom perguntando, "quer mais?";

A ANPD não só pode [regular o fim do design manipulativo] como deve. A gente tem o dever de detalhar isso agora, porque a lei já dá parâmetros. Agora a gente precisa dar concretude
Iagê Miola, diretor do Conselho Diretor da ANPD

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  • Nesse caso, "concretude" é responder a perguntas como: o que é um "ponto natural de parada" no feed? A partir de quantos alertas a notificação passa a ser excessiva? A agência também vai avaliar, com base em evidência técnica, se limites de horário para certas funcionalidades ajudam a frear o uso compulsivo;
  • Fará parte da agenda regulatória publicar guias com detalhes caracterizando cada uma dessas funções proibidas. O trabalho começará no início de 2027 e deve terminar no fim do ano;
  • O processo é longo. Primeiro, a superintendência de regulação da ANPD estuda alternativas. A minuta com a proposta vai para consulta pública. Mudanças podem ser feitas a partir das contribuições. A síntese é encaminhada ao Conselho Diretor, que aprova ou não. Isso deve levar cerca de um ano. Ou seja, a regra sai do forno no fim de 2027, já sob o próximo governo;
  • Também devem fazer parte da nova agenda da ANPD as regras para chatbots de IA voltados a crianças e adolescentes e as regras para reconhecimento facial e manipulação de dados biométricos;
  • O que está mais adiantado é o guia de verificação etária. Ele recebeu mais de 80 contribuições, já passou pela procuradoria e volta ao Conselho Diretor para ser publicado até o fim do ano;
  • Exigência do ECA Digital, a verificação da idade é obrigatória para lojas de aplicativo e sistemas operacionais, que devem compartilhar essa informação com os outros serviços. Mas há previsão legal para outras plataformas também promoverem aferição etária própria;
  • O grande impasse é se basta usar o sinal de idade enviado pelas lojas da Apple, do Google e da Microsoft, ou se a batata quente continua no colo de cada aplicativo. Para quem oferece conteúdo proibido a menores (pornografia, álcool e tabaco), a verificação já é obrigatória. Para os demais, a resposta vem da avaliação de risco: um app que permite contato com estranhos pode concluir que precisa saber a idade de quem está do outro lado. O guia tratará disso;
  • O documento não deve proibir os métodos que usem dados biométricos, como a estimativa de idade por reconhecimento facial. Mas haverá dispositivo indicando que o ônus de quem escolher esse caminho será bem maior em caso de falhas;
  • Ainda que o guia não esteja publicado, a fiscalização já começou. A ANPD já tem acompanhado as lojas de aplicativo e os sistemas operacionais. Outro foco são os sites de conteúdo adulto, porque a autodeclaração de idade está proibida desde 17 de março, mas alguns deles ainda não adotaram outros métodos.
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Mark Zuckerberg, CEO da Meta, deixa corte de Los Angeles, na Califórnia (EUA), após ser ouvido em sessão sobre se redes causam vício em crianças
Mark Zuckerberg, CEO da Meta, deixa corte de Los Angeles, na Califórnia (EUA), após ser ouvido em sessão sobre se redes causam vício em crianças Imagem: Apu Gomes/AFP

Rolagem infinita e notificação incessante são engrenagens do design das plataformas que movem o modelo de negócio. Mais tempo de tela significa mais anúncio exibido, mais receita. Quando um regulador diz que o feed precisa ter fim, ele está mexendo no bolso das big techs, não só no layout. Quem ganha são pais, crianças e adolescentes. Quem perde é toda plataforma cuja principal métrica de sucesso é o minuto a mais que o usuário passa rolando.

O acordo feito pela Meta nos Estados Unidos para encerrar um julgamento com potencial catastrófico prevê limites ao feed infinito, supervisão parental e restrição de horário para menores. Lá, valerá apenas nos estados que integraram a ação e só nas propriedades da Meta, que se comprometeu a convencer o Google a embarcar.

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No Brasil, o ECA Digital já prevê tudo isso. E, na visão do diretor do Conselho Diretor da ANPD, Iagê Miola, com uma vantagem: a regra vale para todas as plataformas, sem depender de negociação caso a caso.

O caminho brasileiro é diferente ainda do escolhido pela Austrália, que baniu as redes sociais para menores de 16 anos. Agora, o país descobre que o banimento sozinho não protege ninguém. A Comissão Europeia está neste momento discutindo um caminho híbrido: proibição abaixo de 13 anos e contas especiais e blindadas entre 13 e 16 anos.

O ECA Digital não proíbe nada de cara. Ele exige que a plataforma seja segura para quem está lá dentro e informe se os conteúdos e interações são pertinentes à idade de crianças e adolescentes. Assim, a família pode decidir se permite ou libera ações como o contato com estranhos.

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O candidato à presidência do Brasil Flávio Bolsonaro discursa no Encontro do Grande Associativismo.
O candidato à presidência do Brasil Flávio Bolsonaro discursa no Encontro do Grande Associativismo. Imagem: Jean Carniel/Reuters

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Enquanto a agência estará trabalhando na regra contra o design viciante, haverá forças políticas no Planalto (caso Flávio Bolsonaro seja eleito), e no Congresso (caso os parlamentares da bancada digital cumpram o que vêm prometendo) tentando desarmar os arranjos que alçaram a ANPD ao papel de vigia da proteção às crianças no ambiente digital do Brasil.

O alvo prioritário da bancada digital e de um eventual governo Flávio é o decreto de junho que incumbiu a ANPD de responsabilizar as grandes plataformas por conteúdo de terceiros após decisão do STF sobre o Marco Civil. A bancada quer tirar essas atribuições e deixar apenas a atuação no ECA Digital, que deve ser modificado por nova regulamentação.

Para a senadora eleita Carol de Toni (PL-SC), são três as metas de ajustes ao ECA Digital: redefinir o que é conteúdo nocivo, impor obrigações proporcionais ao porte das empresas e reconhecer a primazia da família na educação dos filhos. Dependendo de como for escrito, cada um desses itens pode encolher o alcance do que a ANPD está desenhando.

Os ocupantes da cadeira também contam. Se as indicações pendentes não forem concluídas ainda em 2026, o próximo presidente vai indicar três das cinco diretorias da ANPD, incluindo a presidência. Os nomes passam por sabatina no Senado, e De Toni já avisou que vai cobrar limites claros dos dirigentes. A campanha de Flávio, por sua vez, diz que as propostas para a área serão aprimoradas durante a transição e em diálogo com a sociedade e o Congresso.

A ANPD quer obrigar as redes sociais a ter um ponto natural de parada, mas está em aberto se o ponto de parada não chegará antes para ela.

Reportagem

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