Amo Portugal, e é por isso que entro pelo Porto
Escrevi, em maio, que Portugal ia entrar no verão com quatro crises simultâneas nos seus aeroportos, e que ninguém parecia verdadeiramente preocupado. Escrevi, em junho, que a TAP seria vendida da pior maneira e no pior momento, porque um hub saturado e umas filas de duas horas valem, na mesa de negociação, milhões a menos. Não escrevo hoje para dizer que tinha razão, isso seria vaidade, e a vaidade é má companhia para um contabilista. Escrevo porque, meses depois, me preparo para viajar de novo para Portugal, e a decisão que tomei, sem pensar duas vezes, é a prova viva de tudo o que aqui denunciei.
Deixem-me contar-vos a viagem, porque ela é o artigo. Parto em breve para a África do Sul, a trabalho, na que será a minha primeira vez naquele país, e de lá sigo para Portugal, para reencontrar os muitos amigos que a vida me deu no Porto e em Braga, a cidade onde vivi e me fiz doutor. E é aqui que a história se torna reveladora. Ao organizar o trajeto para a Europa, tinha diante de mim a hipótese de entrar por Lisboa. Não hesitei um segundo. Escolhi voar diretamente para o Porto, contornando de propósito o Aeroporto Humberto Delgado, a bordo da Turkish Airlines. Não por antipatia, que a Lisboa só devo afetos, mas por cálculo puro, o de quem viu, leu e ouviu o suficiente para saber que entrar em Portugal por Lisboa, neste verão, é apostar o início da viagem numa fila.
Reparem no que isto significa, porque é mais do que uma escolha pessoal. Sou alguém com uma dívida de afeto a Portugal, que para lá viaja de propósito, que lá viveu anos, que lá deixou amigos e memórias. E, ainda assim, o meu comportamento racional de consumidor é fugir da porta de entrada da capital. Se até quem ama o país o contorna, o que farão os milhões que não têm com ele laço nenhum, e que apenas comparam preços e tempos de espera num ecrã antes de decidir onde passam férias? Esses não contornam Lisboa, contornam Portugal inteiro. E Portugal nunca saberá o nome de um único deles, porque o turista que não vem não deixa rasto, não gera cancelamento, não consta em estatística. Simplesmente escolhe Sevilha.
E o que fez o Estado português com os meses de aviso que teve? O que faz sempre. Pôs pensos rápidos numa fratura. Reforçou o aeroporto de Lisboa com algumas dezenas de agentes, acrescentou postos, e anuncia agora, orgulhoso, que reduziu os tempos de espera em cerca de metade. É a métrica perfeita da mediocridade satisfeita, gabar-se de ter reduzido para metade uma fila que não devia existir de todo. E, sobretudo, recusou fazer o que meia Europa fez sem drama. A Grécia suspendeu o novo sistema de controlo de fronteiras. A Bélgica, a França, os Países Baixos suspenderam-no também. Portugal, não. Portugal insistiu em mantê-lo no pico do verão, mesmo com o próprio ministro a admitir que as filas são, palavras dele, um embaraço e um prejuízo para a imagem do país. Preferiu o embaraço à decisão. Quando não se sabe decidir, mantém-se tudo como está, e chama-se a isso rigor.
Mas há um número nesta história que ultrapassa tudo o resto, e que devia estar gravado à entrada de cada ministério. O novo aeroporto de Lisboa, aquele que resolveria de vez a saturação que me faz desviar para o Porto, foi finalmente decidido, em Alcochete, e deverá abrir entre 2034 e 2037. Não é a data que espanta. É o caminho até ela. Portugal demorou cinquenta e cinco anos a decidir onde o construir. Cinquenta e cinco anos. O gabinete encarregado de escolher a localização foi criado em 1969, o ano em que o homem pisou a Lua. O homem foi à Lua e voltou nesse mesmo ano. Portugal, mais de meio século depois, ainda andou a discutir pareceres, impactos ambientais e aves migratórias, sem uma única pá de terra levantada. Chegámos ao ponto absurdo de o país ter demorado mais tempo a escolher o sítio de um aeroporto do que a humanidade demorou a ir à Lua, voltar, e quase se esquecer de lá ter ido.
E é aqui que as minhas duas preocupações, a do turista que foge e a da TAP mal vendida, se encontram numa só raiz. Não é falta de dinheiro, Portugal teve fundos europeus de sobra. Não é falta de aviso, os relatórios acumulam-se há décadas. Não é falta de necessidade, o aeroporto está saturado desde que me lembro. É falta de decisão. É a incapacidade, quase cultural, de um Estado que prefere a segurança de não escolher ao risco de escolher, porque quem não decide nunca é culpado de nada. Um aeroporto adiado meio século não é um problema de engenharia, é um retrato de carácter institucional. E dói-me escrevê-lo, porque é do país que amo que falo.
Quando, daqui a algumas semanas, eu aterrar no Porto, vindo da África do Sul pela Turkish Airlines, tendo contornado Lisboa como quem contorna uma obra na estrada, hei de sentir a ironia inteira daquilo que represento. Um homem que ama Portugal, a entrar-lhe pela porta das traseiras para não perder uma hora do reencontro com os amigos. Não é contra Lisboa que o faço, é contra a fila que Lisboa se recusa a resolver. E aqui vai a minha confissão, a de quem escreve isto com mais mágoa do que ironia. Envergonha-me um pouco, a mim que escolhi Portugal como segunda pátria do coração, ter de lhe entrar pelas traseiras. Um país com a história de Portugal, o país que ensinou o mundo a navegar, que chegou primeiro onde ninguém tinha chegado, merecia não obrigar quem o ama a desviar-se dele à chegada. E se um dia, num verão qualquer, eu voltar a poder entrar por Lisboa sem recear a fila, saberei que aconteceu o improvável, o Estado português tomou, enfim, uma decisão. Até lá, entro pelo Porto. Como muitos. Como cada vez mais. E cada um de nós que desvia é um número que Portugal nunca vai contar, mas que já está, silenciosamente, a pagar.