Ana Khouri transforma flores em alta-joalheria para a maior feira de arte do mundo

🗓️ 2026-07-29 📁 lifestyle 📝 ⏱️ 👁️ : -

A nova coleção de alta-joalheria de Ana Khouri sela sua descoberta de um novo feminino


Colar Muguet, de ouro, cristal de rocha e diamantes
Colar Muguet, de ouro, cristal de rocha e diamantes — Foto: Divulgação

No espaço ao lado, havia dois Munchs, um Toulouse-Lautrec, um Chagall e dois Modiglianis. Mas foi um buquê de muguets em cristal de rocha e diamantes que parou a mais recente edição nova-iorquina da TEFAF (The European Fine Art Fair). A autora da joia, a brasileira Ana Khouri, causou frisson entre os colecionadores mais exigentes do mundo. E o fez com flores.

Exposição da joalheria Ana Khouri na feira de arte TEFAF — Foto: Divulgação
Exposição da joalheria Ana Khouri na feira de arte TEFAF — Foto: Divulgação

A feira de arte talvez seja hoje a mais sofisticada do planeta. Nascida em Maastricht, na Holanda, em 1988, consolidou- se como a grande referência em mestres antigos. Já sua filial nova-iorquina, criada em 2016 e instalada no monumental Park Avenue Armory, dedica-se ao moderno, ao contemporâneo, ao design e à joalheria de exceção.Emmaio, havia apenas 88 galeristas selecionados no mundo todo. Ana Khouri estava entre eles, ao lado dos joalheiros Hemmerle, Didier Ltd. e FD Gallery. Foi sua quinta participação consecutiva – e a mais arrebatadora.

Brinco Muguet de ouro, cristal de rocha e diamantes — Foto: Divulgação
Brinco Muguet de ouro, cristal de rocha e diamantes — Foto: Divulgação

Brincos longos de cristal de rocha e ouro, com pequenos sinos esculpidos à mão que terminam em pavês de diamantes e caem em cascata ao longo do pescoço. Um colar-jardim em que galhos finos de ouro Fairmined 18 quilates se ramificam pelo decote inteiro, com dezenas de florezinhas de cristal e diamantes balançando em efeito tremblant a cada passo. Há ainda a versão broche, mais escultural, em que os muguets parecem ter sido apanhados poucos minutos antes. Tudo construído em torno de uma flor pequena, branca, francesa, sazonal – a que aparece em maio e desaparece quase imediatamente – agora suspensa, indefinidamente, em cristal.

A joalheira Ana Khouri — Foto: Divulgação
A joalheira Ana Khouri — Foto: Divulgação

O tremblant, aliás, é o coração técnico da coleção. A palavra é francesa, significa “tremendo”, e nomeia uma das técnicas mais cobiçadas da história da alta-joalheria. Inventada nos ateliês parisienses do século XVIII e levada ao auge nas cortes da era rococó e georgiana, consiste em montar pétalas, folhas e flores sobre minúsculas molas de metal, fazendo com que cada elemento estremeça ao menor movimento do corpo. Que Ana Khouri, sempre tão radicalmente contemporânea, retome agora essa tradição, que praticamente desapareceu no século XX, é uma declaração e tanto. Suas flores não são citação nostálgica; tremem porque a artista quer que tremam de verdade, vivas no corpo de quem usa.

Brincos de ouro, diamantes pera, diamantes e pérolas South Sea brancas — Foto: Divulgação
Brincos de ouro, diamantes pera, diamantes e pérolas South Sea brancas — Foto: Divulgação

Para quem acompanha seu trabalho, trata-se de uma virada. Vinda da escultura, formada em Belas Artes, Ana sempre foi a joalheira das formas abstratas, do ouro amassado à mão, das pedras em equilíbrio. Construiu uma linguagem de rigor, tida então como “masculina” em sua geometria silenciosa. “Eu nunca tinha feito flores antes”, ela me conta entre uma visita de cliente e outra. “Com o tempo, a gente vai trazendo uma coisa mais feminina. Tem uma fase de testar as coisas, e tem o momento em que você vai achando o seu trabalho como artista: o que você aprende coma natureza, o que sente em relação a tudo.”

Colar Muguet, de ouro, cristal de rocha e diamantes — Foto: Divulgação
Colar Muguet, de ouro, cristal de rocha e diamantes — Foto: Divulgação

Em seu moodboard, há detalhes de pinturas do século XVII, com mãos segurando conchas de pérolas, retratos alegóricos de damas. Ela está olhando para trás, para entender o que vem agora. Parte da coleção foi esculpida à mão em Jaipur, com engastes feitos em Paris. As pedras – uma paraíba que vibra ao centro de um colar, umfancy yellow numanel texturado por trás – não estão presas em caixinhas opacas, mas envoltas em cristal, que dispensa o fundo de ouro tradicional e deixa a luz atravessar a joia inteira. “Você quase não sabe quando a gema começa, quando termina”, explica a designer. “O cristal traz a luz para a pedra de uma maneira que o ouro não traz.”

Aqui mora a grande chave da coleção: o equilíbrio entre solidez e transparência. As pérolas pendem, nos colares e nos anéis, num suspense quase teatral. Quem espera uma alta-joalheria pesada, hierática, de pose, se alivia ao perceber que o muguet de Ana cabe numa t-shirt branca no meio da tarde. Há também as cordas vintage italianas – algumas do século passado – que ela garimpou para emoldurar suas pedras. Esgotaram-se nos poucos dias de duração da feira.

“Adorei a ideia de trabalhar com alguma coisa que já existiu. Você tem que aprender as regras para poder quebrá-las”, resume.

Tem sido um primeiro semestre especial para a designer brasileira. Em março, ela recebeu o Gem Award for High Jewelry Excellence de 2026, concedido pela Jewelers of America – a mais importante distinção da joalheria americana. “Ser a única joalheira independente a receber esse reconhecimento é surreal. Mas, mais importante que isso, é mostrar que há espaço para todos nós, para vozes independentes, para mulheres e para a próxima geração de artistas que estão remodelando o jeito de pensar a joalheria.”

Suas peças únicas são vistas apenas em seu salão de Nova York; as edições numeradas, sempre em séries de sete, dez ou 15, são exibidas nas lojas The Row, das irmãs Olsen. Tudo fora do calendário convencional da moda. “O resto é tempo: tempo de processo, de evolução, de espera. Como o do muguet, que só vem em maio. A natureza pede isso, não adianta apressá-la.”

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