Análise: Dune: Awakening chega aos consoles com um single player robusto e problemas técnicos

🗓️ 2026-10-01 📁 gaming 📝 ⏱️ 👁️ : -

Dune é um dos livros de ficção científica mais importantes da história, escrito por Frank Herbert, e o meu livro favorito do gênero. Tendo isso em mente, quando vi Dune Awakening sendo anunciado, um projeto baseado nesse universo, quase pirei. Até que vi que ele era um MMORPG com elementos de sobrevivência que, até aquele momento, era exclusivo dos PCs, o que me fez perder o interesse.

Contudo, após alguns anos em acesso antecipado, ele foi lançado para os consoles, trazendo um single player como uma de suas principais novidades, o que me fez ficar novamente animado. Após experimentar por algumas semanas esse ambicioso projeto, posso dizer que valeu a pena a espera, mas tenho algumas ressalvas a fazer.

Um mundo sem messias e profetas

Em Dune Awakening, vamos viver uma história que se passa em uma realidade alternativa, o famoso “What if”. Nela, Paul Atreides, o protagonista dos livros, não nasceu e, devido a isso, o planeta Arrakis e, principalmente, seus habitantes, os Fremen, nunca foram libertos do controle dos antagonistas Harkonnen.

É nesse contexto que entra o nosso herói totalmente customizável, que recebe uma missão das irmãs Bene Gesserit, uma organização de mulheres poderosas que vivem manipulando os acontecimentos: ir até o planeta desértico e buscar a qualquer custo os Fremen que teoricamente estariam “extintos”.

A trama do título é interessante, ao menos no começo, mas sinto que ela tem uma barriga muito grande logo no início, com uma sequência de missões que somente quem já tiver um conhecimento prévio dessa mitologia vai gostar. Isso afasta quem vai dar uma chance ao jogo por curiosidade ou pretende, por meio dele, conhecer esse mundo criado por Frank Herbert.

Aqueles que já são fãs também podem ficar decepcionados, pois sua narrativa não utiliza tão bem o conteúdo no qual ela é baseada. Durante minha experiência, senti falta de características como religião e política nos diálogos; elas ficam um pouco mais presentes na segunda parte da trama, mas alguns bugs que aparecem durante as cutscenes acabam atrapalhando a experiência.

Os rostos dos personagens ficam borrados, o que é uma pena, pois a criação do herói é robusta. Também presenciei a textura do corpo de alguns NPCs simplesmente sumir momentaneamente, fazendo-os parecer uma “massinha”. 

Além disso, mecânicas como a escolha de uma origem na criação do personagem — podendo ele ser, por exemplo, de uma classe nobre ou pobre — não afetam os diálogos, mesmo existindo escolhas durante eles, o que faz com que essas escolhas sejam apenas cosméticas e também torna as missões, no geral, lineares.

Arrakis nunca foi tão linda e lotada de areia

Porém, se a história não me impressionou tanto quanto eu esperava, não posso dizer o mesmo do planeta Arrakis, que recebeu uma adaptação visualmente impecável. As dunas de areia, montanhas, cânions e cidades, como a base da casa Atreides e dos Harkonnen, compõem cenários impressionantes.

Todos esses locais estão incríveis ao ponto de, em vários momentos da minha jogatina, eu parar para apreciar as paisagens ou escalar alguma montanha só para ter uma visão melhor de tudo. E, graças ao recém-adicionado modo solo, você realmente se sente sozinho em meio a um mundo gigante que às vezes faz o jogador parecer pequeno.

Essa sensação é exatamente o que eu imaginava quando li o primeiro livro pela primeira vez e, como estamos falando de Dune, não podemos esquecer dos garotos-propaganda: os vermes gigantes de areia capazes de engolir construções inteiras e os jogadores, caso você não ande devagar na areia, pois, se você correr, vai atraí-los.

Caso isso ocorra, vai ser necessário correr desesperadamente para uma encosta rochosa, senão você perde todos os seus itens equipados. Todavia, isso pode ser contornado utilizando veículos como ornitópteros, buggys e motos de areia, que possuem uma boa dirigibilidade e têm compatibilidade com os gatilhos adaptáveis do DualSense, aumentando a imersão ao pilotá-los.

Também é possível ir às configurações de jogo para desativar a minhoca ou mudar suas penalidades. Em geral, é possível alterar praticamente tudo, dando considerável liberdade ao jogador para ter a experiência do jeito que ele desejar, caso seja uma partida em um mundo single-player.

Mas nem tudo é perfeito. Andando pelos diferentes biomas do planeta, você vai perceber problemas visuais como pop-in, ou seja, objetos ou vegetações surgindo do nada na sua frente, texturas borradas e quedas de FPS ao fazer algumas ações, como abrir e fechar o mapa ou andar pelas cidades. 

Tais problemas aconteceram comigo jogando no modo fidelidade do PlayStation 5, que prioriza 30 fps; no desempenho, eles são menos frequentes. Isso revela que a obra precisa melhorar sua otimização, pois esses problemas, principalmente as quedas de frames, incomodaram consideravelmente.

Simulador de vida Fremen

Mas essa aventura não se resume apenas a paisagens bonitas e predadores gigantes; seus elementos de sobrevivência também estão excelentes. Com eles, é realmente possível experimentar a vida de um Fremen. Sendo assim, será possível construir bases gigantes com inúmeros materiais e detalhes, tendo como limite apenas a imaginação do arquiteto.

Tudo isso ocorre de uma forma amplamente prática graças à ferramenta de construção que mostra holograma das estruturas, permitindo ajustá-las antes de realmente construí-las. Tais aparatos de última geração também agilizam a coleta de materiais, pois, em vez de picaretas, temos cortadores de plasma que fatiam rochas, cobre e metal em segundos.

Porém, nem tudo está liberado desde o início; é necessário subir de nível e conquistar pontos de pesquisa por meio de atividades secundárias, como invadir cavernas, bases e até naves caídas, mas elas se tornam repetitivas rapidamente, pois os cenários internos variam pouco.

Essas características criam uma dinâmica divertida, fazendo com que tarefas como farmar recursos sejam satisfatórias graças à sua praticidade, enquanto as pesquisas ajudam a criar um excelente sentimento de progressão e permitem perceber que você está ficando mais forte.

Como esse é um título de subsistência, o gerenciamento das necessidades dos personagens faz parte do pacote, mas o diferencial é que, basicamente, a única necessidade é a sede; não existe barra de sono ou comida — admito que, mesmo após mais de dezesseis horas de jogo, ainda acho estranho o personagem não poder dormir. 

Adquirir água é relativamente fácil; temos duas opções: coletá-la de flores durante a noite ou drenar o sangue de seus inimigos e filtrá-lo numa máquina até torná-lo bebível, o que talvez seja meio nojento, mas, em Arrakis, não há muitas opções.

Os clássicos trajes destiladores também estão presentes e, assim como outros elementos, estão bem adaptados. Essas roupas únicas conseguem filtrar todos os fluidos corporais, como suor, para garantir que o jogador não pereça de sede. Porém, equipamentos diferentes, como esse, vão exigir peças que só podem ser adquiridas nas atividades já citadas.

Duelos lentos e desengonçados

Por mais atrativo que seja ficar apenas construindo casas ou maquinários, Arrakis é um planeta perigoso e, inevitavelmente, o herói vai precisar entrar em combates contra bandidos, cultistas, escravistas e outras escórias para sobreviver. 

Nesse momento entra em cena o combate de Duna: Awakening, que faz, até certo ponto, uma adaptação fiel do que é descrito nos livros. O jogador poderá utilizar ataques fracos e fortes, esquivar e aparar golpes físicos. 

Tudo isso contando com um arsenal generoso composto de adagas, espadas, rifles, escopetas e snipers. Admito que fiquei surpreso com essa quantidade de armas; todas elas são demasiadamente boas de utilizar.

O diferencial é que alguns inimigos vão possuir escudos portáteis que retardam objetos expressivamente rápidos; logo, agulhas e ataques leves não os penetram. É aí que entram os movimentos pesados, os quais são propositalmente lentos e atravessam a barreira.

A adaptação desse aspecto ficou fiel ao material original e, nas minhas primeiras horas de gameplay, gostei de enfrentar os oponentes, ainda mais porque o jogo utiliza os gatilhos adaptáveis do DualSense do PlayStation 5, o que ajuda a sentir o feedback dos golpes pesados, fazendo-me, mesmo que brevemente, sentir como um espadachim.

A questão é que, conforme o tempo vai passando, fica perceptível que a I.A. dos inimigos é bem “burrinha”; eles não pegam cobertura de tiros, às vezes não esquivam e as animações de lutas são meio desengonçadas, o que vai tornando monótono aquilo que era interessante.

A situação fica tão crítica que, mesmo existindo várias árvores de habilidades, com talentos únicos e focadas em arquétipos diferentes, como espadachins ou soldados, você nem precisa se dar ao trabalho de tentar criar uma build, pois não existe desafio que faça isso ser necessário.

Mesmo com o leque de opções para personalizar várias coisas nas configurações do single-player, o máximo que dá para fazer é aumentar o dano que eles causam, o que, convenhamos, não resolve o problema-chave.

Mas e o modo multiplayer?

O multiplayer funciona à parte da novidade. Em resumo, ele mantém as exatas mesmas características positivas e negativas citadas até o momento. O diferencial é que o jogador poderá entrar em conflitos PVP caso seja de sua vontade, pois eles, após algumas atualizações, não são mais obrigatórios.

Nesses momentos, as lutas são interessantes e possuem um fator humano que as torna imprevisíveis. Como o título possui servidores dedicados à América Latina, problemas de ping não são comuns. Além disso, existe um mercado criado pelos jogadores, o que permite comercializar recursos produzidos para adquirir a moeda do título ou outros materiais. Sendo assim, tanto a experiência solo quanto a cooperativa são agradáveis, cada uma à sua maneira.

Um jogo bem executado, mas com espaço para melhorias


Duna Awakening
é um jogo de subsistência bem executado, que adapta muito bem, até certo ponto, o universo criado por Frank Herbert, o que vai atrair os fãs, seja pela sua jogabilidade ou pelos belos visuais. Em contrapartida, a obra ainda precisa de mais polimento por apresentar bugs e quedas de FPS. Além disso, sua trama, embora interessante, não utiliza tão bem tudo o que o material original oferece.

Prós:

  • Os cenários e biomas de Arrakis foram muito bem adaptados, passando realmente a sensação de que você está no universo do material original;
  • A compatibilidade com gatilhos do controle DualSense dá uma imersão maior no controle de veículos e combates;
  • Legendas em português;
  • Criação de personagens robusta;
  • Elementos de sobrevivência bem aplicados e de fácil adaptação, tornando farmar materiais e construir bases algo dinâmico;
  • O modo single player apresenta muitas opções para customizar sua própria experiência, tornando o jogo mais acessível mesmo para quem não curta o gênero;

Contras:

  • Bugs em missões, nas texturas e no rosto dos personagens durante os diálogos atrapalham a experiência;
  • Quedas de FPS e muitos pop-ins durante a exploração;
  • A história até tem potencial, mas começa arrastada e carece de explicações, o que afasta quem não seja fã de Dune;
  • As atividades secundárias disponíveis se tornam repetitivas rapidamente;
  • A inteligência artificial dos adversários deixa bastante a desejar, principalmente no single-player, no qual só existe combate PVE.

Duna: Awakening – PS5/XSX – Nota: 8.0

Plataforma: Playstation 5

Revisão: Camila Sales

Texto de análise redigido com chave digital cedida pela Funcom.