Analistas veem acordo petrolífero EUA-Venezuela como revés para a China

🗓️ 2026-09-01 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Citado pela televisão iraniana Press TV, o jornalista e analista político Alejandro Kirk, baseado na Venezuela e com décadas de experiência como correspondente de meios internacionais, considerou que o acordo anunciado na sexta-feira pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, deve ser entendido no contexto da competição estratégica entre Washington e Pequim.

Kirk descreveu o entendimento como "uma barreira contra a participação chinesa, russa e iraniana no setor energético" venezuelano.

Segundo o analista, Washington procura consolidar a influência na América Latina perante uma eventual intensificação da competição com a China, pelo que o acordo ultrapassa a dimensão estritamente energética.

Trump anunciou, na sexta-feira, que os Estados Unidos alcançaram um acordo com Caracas que assegura a Washington o controlo maioritário de mais de 65 mil milhões de barris das reservas comprovadas de petróleo venezuelano.

Ao abrigo do entendimento, uma empresa privada apoiada pelos Estados Unidos deverá deter uma participação de 55% na produção de 17 blocos petrolíferos, com direitos de exploração durante 100 anos.

O acordo deverá mobilizar quase 100 mil milhões de dólares (86 mil milhões de euros) em investimento privado e gerar mais de 209 mil milhões de dólares (179 mil milhões de euros) em receitas fiscais adicionais para a Venezuela.

A crescente influência norte-americana sobre o setor petrolífero venezuelano ocorre após uma profunda alteração dos destinos das exportações do país.

A China, anteriormente o maior comprador individual de petróleo venezuelano, não recebeu qualquer carregamento desde dezembro de 2025, segundo dados da S&P Global Commodities at Sea.

Em agosto, cerca de 520.000 barris por dia foram enviados para os Estados Unidos, quase metade dos 1,1 milhões de barris diários exportados pela Venezuela, após os fornecimentos ao mercado norte-americano terem aumentado fortemente ao longo deste ano.

O afastamento da China tem também implicações financeiras. Durante anos, Pequim concedeu dezenas de milhares de milhões de dólares em empréstimos a Caracas, muitos dos quais deveriam ser reembolsados através do fornecimento de petróleo.

Estimativas citadas pela S&P Global situam entre 10 mil milhões e 15 mil milhões de dólares (8,6 mil milhões e 12,9 mil milhões de euros) o montante ainda devido pela Venezuela à China.

Rachel Ziemba, conselheira sénior da consultora Horizon Engage, afirmou, antes do novo acordo, que as licenças norte-americanas já estavam a limitar a atividade das empresas chinesas no país e antecipou uma redução adicional da sua presença.

"Prevejo que veremos os parceiros chineses nas empresas conjuntas encorajados a reduzir o seu papel e a serem substituídos por outros participantes", afirmou Ziemba, num relatório publicado pela empresa de notação financeira S&P Global.

Apesar da importância estratégica da Venezuela para Pequim, o impacto sobre o abastecimento energético global da China deverá permanecer limitado.

Antes da interrupção dos fornecimentos, o petróleo venezuelano representava apenas uma pequena fração das importações totais chinesas, embora fosse particularmente importante para refinarias independentes atraídas pelo preço descontado do crude pesado venezuelano.

Mas o novo acordo surge ainda num momento de pressão sobre outras fontes de petróleo barato para a China.

As importações chinesas de crude iraniano caíram de 823.000 barris por dia, em julho, para 534.000 em agosto, segundo dados da Kpler, empresa de informação e acompanhamento dos mercados de matérias-primas, na sequência do reforço das sanções norte-americanas contra a rede que assegura essas vendas.

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