Annie Silva Pais, a vida e os escândalos da filha do último diretor da PIDE

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Madalena Nita Palhota, prima de Annie Silva Pais, recorda que Raymond sempre foi muito bem acolhido pela família. O que, na altura, até soou estranho aos mais próximos: “Eu tenho ideia que [a mãe da Annie] gostava imenso dele. Eu achei estranho vê-lo a almoçar na mesma mesa que eu, lá em casa. Nunca via ninguém lá em casa, a não ser nós, próximos da família”, explica, crente de que aquela atitude era, desde o início, um “sinal de aceitação”.

Porém, não deixou de constatar que a prima e Raymond eram bem diferentes um do outro. Ele mais “pacato”, “uma pessoa muito virada para o trabalho, com uma carreira para sustentar, uma carreira para progredir” e mais parecido com Silva Pais; e ela uma “mulher alegre”, com ânsias de liberdade. Madalena acredita que casar com um diplomata foi “uma maneira de sair do país e do ambiente” da casa dos pais. Annie estava, recorda a prima, “deslumbrada” com essa ideia.

Anos mais tarde, Raymond ainda acredita que é possível voltar aos primeiros tempos de relacionamento. E espera que a mulher esteja disposta ao mesmo, que as semanas fora tenham ajudado — desde logo porque o diplomata tem um novo desafio profissional em breve: vai regressar a Berna no final do ano. Annie até já enviou para a Suíça algumas bagagens com roupa.

O avião da Cubana Aviación, que fez a viagem entre a Cidade do México e Havana, acaba de aterrar na pista e o marido da portuguesa está a assistir a tudo de bem perto. Aguarda longos minutos até ao início do desembarque. Saem dezenas de pessoas, mas Annie não aparece. Raymond ainda tem esperanças que tenha ficado para o final, contudo as escadas do avião começam a ser recolhidas, as portas fecham-se e o aparelho deixa o local.

Mais uma vez, Annie não regressou a Havana. E, mais uma vez, Raymond vai regressar a casa sozinho. Na pista, cruza-se com René Vallejo, comandante da revolução cubana, médico particular e um dos homens mais próximos de Fidel Castro, que é amigo de Annie e visita habitual da Embaixada da Suíça. É o cubano que o convida a sair da pista, gentilmente. Raymond não consegue esconder o desconforto da situação: “Esta menina só faz o que lhe dá na gana!

Ninguém sabe de Annie

Os dias seguintes vão ser uma montanha-russa para o suíço. Logo que chega à Embaixada da Suíça, onde vive, tem um telegrama de Annie à espera: “Partirei hoje via Europa. Escrevi à minha família.” Raymond não tem mais respostas, não consegue falar com a mulher e, além disso, não faz ideia do seu paradeiro. Aquela carta diz pouco ou nada. E, nesta fase, o diplomata nem sequer sabe se a mulher a enviou de livre vontade ou se está a ser coagida.

Raymond Quendoz vai usar tudo o que tem à disposição para obter respostas, não só procurando pessoas próximas a Annie, como utilizando o estatuto de diplomata — que lhe concede o acesso a informações impossíveis de obter pelos cidadãos comuns. E à medida que os dias vão passando, surge uma série de avanços e recuos, de dúvidas, de episódios estranhos — tudo a contribuir para as desconfianças do diplomata. A história é contada no primeiro episódio do novo Podcast Plus do Observador, “Os Escândalos de uma Revolucionária”.