Ao defender uma única liga, CBF tenta pôr fim a novela — mas há muita lição de casa pela frente
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Foi como um 7 a 1 fora do gramado. Logo depois do fim da Copa do Mundo, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, anunciou uma novidade sem direito a VAR: a venda de uma participação de 20% da entidade para um grupo de investidores liderado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, que vem a ser genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A iniciativa poria em mãos privadas uma parte da Copa e outros torneios. Os dirigentes da Uefa, a União das Associações Europeias de Futebol, espantados, anunciaram boicote de todas as competições promovidas pelo grupo de Infantino, que recuou, como se nada houvesse. Mas o bode permanece na sala, e parece ser difícil tirá-lo, a ponto de pôr em xeque a reeleição do italiano que manda na bola.
O estrondo internacional — mas como assim, uma confederação oferecer de bandeja a Copa, entregando a alma do esporte? — é fenomenal espelho para entender como funciona o jogo de poder econômico no futebol. Infantino fez o que fez, afinal, para se perpetuar no cargo. A saída saudável para posturas como a do cartolão é a organização, a estrita vigilância, o respeito às regras do mercado e à história do esporte — sem o quê, acaba valendo tudo. Cabe, portanto, acompanhar um movimento brasileiro, que caminha em silêncio e cujo futuro começou a ser decidido agora. Direto ao ponto: a existência de duas ligas no Brasil, a Libra e a FFU, a Futebol Forte União, atreladas a fundos financeiros, tem provocado mais distorção e brigas do que soluções. Os grandes times nacionais não se uniram e, portanto, ficaram divididos entre elas. Por isso, na segunda-feira 10, um encontro de dirigentes da CBF com os presidentes dos quarenta clubes das séries A e B representou o início de uma boa revolução.
A CBF, em postura correta, imagina a existência de uma única liga. “É fundamental um campeonato competitivo, e não uma cisão”, diz Amir Somoggi, diretor da SportsValue, um dos maiores especialistas brasileiros em marketing e gestão esportiva. Para Somoggi, parte dos clubes que se associaram aos negócios propostos pela Libra e pela FFU teve uma postura amadora ao fechar acertos de valores baixos, por precisarem de dinheiro emergencial. “Muitos deles já torraram o que receberam, sem planejamento algum”, diz Somoggi. O ideal seria a construção de uma estrutura como a NBA — nos últimos sete anos, houve sete campeões.
A Libra fechou com os times que atraiu, como o Flamengo, o Palmeiras e o São Paulo, a venda de direitos de televisão para a Globo. A FFU, de Corinthians, Vasco e Atlético-MG, em troca de aporte imediato, cedeu porcentual de até 20% de direitos televisivos para diversas emissoras e também para a CazéTV, por cinquenta anos, a um grupo de investidores. O racha pressupõe eterna queda de braço, em que os mais fortes sempre vencem.
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O movimento de bastidores da CBF — cujo desfecho pode vir até o fim do ano — está mais quente do que nunca, em um jogo de convencimento envolvido por lances jurídicos. Um conjunto de dezoito clubes da série B, por exemplo, pede cancelamento do acordo com a FFU, alegando “aprisionamento de forma perpétua até 2074”. A reportagem de VEJA teve acesso a um documento apresentado pela CBF para os clubes, na defesa de seu objetivo. É um pacote detalhado, com dados que mostram a defasagem de faturamento do Brasileirão em relação a outros torneios, a imensidão de partidas realizadas à noite, de acesso complicado para o torcedor, e o exagerado tempo de bola parada (veja nos quadros). São problemas que estragam a festa, e não por acaso a CBF já deu um primeiro passo ao atrelar as partidas de cá às normas usadas na Copa, com medidas como o limite de cinco segundos para bater lateral e reposição de jogo no tiro de meta.
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A liga, segundo a CBF, “eliminaria a fragmentação, que destrói valor econômico”. Mas, afinal de contas, qual seria a vantagem de um único grupo? A profissionalização e a compulsória transparência. Vale, é claro, mirar outros países. Na Espanha, a federação cuida da seleção, das séries B e C, mas não mais da série A. A Premier League inglesa e a Bundesliga alemã seguem trilha semelhante. No caminho brasileiro, a CBF zelaria pela seleção, pelo bom andamento das competições, pela arbitragem e pelo ambiente — mas sem ingerir-se no que a iniciativa privada faria muito bem. Seria algo como um poder moderador.
O diagnóstico da CBF, enfim, é esperançoso, de modo a construir um modelo de divisão de receitas que não exploda a cada temporada. Pô-lo em prática são outros quinhentos, e cabe eterna vigilância para evitar o balcão de negócios que tantos danos já produziu. A liga única pode ser uma solução, embebida de um sonho: um dia, quem sabe, chegarmos ao modelo de Inglaterra e Espanha, embora também nesses países, em muitos anos, haja prejuízo, tolerado porque se pensa a longo prazo. O jogo precisa mudar. É isso ou um eterno 7 a 1.
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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008
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