Estudante cria plataforma de preparação para o vestibular - 11/07/2026 - Educação - Folha

🗓️ 2026-07-11 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Assim como outros estudantes da idade dela, Marina Armelin, 17, passa os dias entre provas e simulados na preparação para o vestibular. A diferença é que, no caminho até a universidade, decidiu levar outros junto. A aluna do ensino médio criou o Gabarita, uma plataforma online gratuita para, segundo ela, democratizar o acesso aos estudos.

A ideia surgiu no final de setembro de 2025, durante as aulas voluntárias que ministrava para crianças do 5º ano em um instituto de Paraisópolis, comunidade na zona sul de São Paulo. Ali, Marina se deparou com a falta de materiais básicos para o vestibulinho de escolas da região, como provas anteriores.

O contraste com a própria realidade foi o que chamou a atenção de Marina. Estudante do colégio Móbile e em preparação para o SAT —exame usado no processo seletivo de universidades americanas—, ela tinha acesso a plataformas completas, com exercícios e simulados. "Foi esse desconforto de ver dois mundos tão diferentes que me motivou a criar o projeto", diz.

Apesar da iniciativa, Marina tinha conhecimentos limitados de programação. Para tirar o projeto do papel, recorreu à plataforma Replit, um site que simplifica essa criação, e a ferramentas de inteligência artificial, que utilizou no desenvolvimento do Gabarita por meio de programação assistida (live coding).

No início, ela extraía questões de PDFs e fazia a classificação uma a uma —chegou a reunir cerca de 4.000. A complexidade do material, muitas vezes interdisciplinar, tornou a tarefa ainda mais difícil. "Para classificar entre inglês, biologia e outras matérias, parecia um desafio muito grande", afirma.

Diante da dificuldade, chegou a interromper o projeto por um período, enquanto buscava alternativas. A virada veio com o uso mais avançado de inteligência artificial, que permitiu automatizar parte do trabalho e dar escala à iniciativa. "A IA não funciona sozinha, você precisa entender o que está fazendo, mas ela foi fundamental para o projeto ganhar eficiência", diz.

Lançada em fevereiro, a plataforma tem hoje cerca de 119 usuários cadastrados. Até agora, foram criados 43 simulados.

O Gabarita reúne questões de provas como Enem e vestibulares paulistas —Fuvest, Unesp e Unicamp—, além de exames de instituições privadas como Insper, FGV, Einstein e Santa Casa. A plataforma organiza o conteúdo por disciplina, tema e subtema e oferece ao usuário ferramentas de acompanhamento de desempenho.

Entre os recursos, estão simulados personalizados, que permitem filtrar questões por matéria ou por erros anteriores, e um painel visual com gráficos que ajudam a identificar pontos fortes e fracos. Também é possível adicionar anotações às questões, registrando dúvidas ou o nível de segurança na resposta, o que auxilia na revisão.

Antes da apresentação ao mundo, a validação inicial do Gabarita veio dentro da própria escola. Marina divulgou a plataforma entre os colegas, que passaram a utilizá-la na preparação para provas bimestrais. "O ponto mais alto foi no começo de junho, quando estávamos usando o site para estudar para as provas. Eu disponibilizei quizzes específicos, e muita gente estudou por lá na véspera", conta.

Segundo ela, alguns alunos encontraram nas provas questões idênticas às que haviam praticado no site no dia anterior, diz. O reconhecimento também veio no dia a dia. "Muitas pessoas com quem eu nem falava há um tempo vinham me procurar para agradecer. Diziam que o site estava ajudando muito", relata.

A experiência com os colegas também influenciou o desenvolvimento da plataforma. Foi ao perceber que muitos amigos estavam focados em universidades privadas que Marina decidiu ampliar o banco de questões para incluir exames dessas instituições.

Filha de engenheiros e com afinidade com as ciências exatas, Marina pretende cursar engenharia de produção. "Engenharia tem algo muito interessante, que é resolver problemas do mundo real. Você pega a teoria, junta com a prática e aplica isso de forma eficiente, com um objetivo muito direto", diz.

A escolha pela engenharia de produção se deve também ao caráter mais abrangente do curso. Aos 17 anos, ela prefere não se especializar precocemente, mantendo abertas as possibilidades de atuação no futuro.

Além dos planos de estudar nos Estados Unidos, Marina também se prepara para os principais vestibulares do país, como Fuvest (USP), Enem, Unicamp, FGV e Insper.

"Sempre ajudei muito minhas amigas, meio como professora. Mas a experiência com as crianças de Paraisópolis foi diferente. Foi ali que percebi que isso era algo que eu realmente sabia fazer bem."