Gabriele sobreviveu ao Holocausto e agora, aos 99 anos, regressa à estação de Viena de onde fugiu da perseguição nazi

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Gabriele Keenaghan tinha 12 anos quando deixou Viena, em abril de 1939, num dos comboios da Kindertransport, a operação que permitiu retirar milhares de crianças judias da Europa ocupada pelos nazis e levá-las para o Reino Unido. Esta semana, aos 99 anos, regressa à estação de Westbahnhof, de onde partiu há 87 anos, para celebrar o centenário com várias gerações da família.

Ao jornal britânico The Guardian, Gabriele recordou o momento em que se despediu da avó, nos longínquos anos 30. As lágrimas eram proibidas e as famílias tinham sido avisadas de que não deveria haver manifestações de emoção. “Eu estava apreensiva e preocupada porque havia nazis com uniformes pretos na plataforma”, recordou a agora professora reformada, acrescentando: “Eu tinha apenas 12 anos, por isso acho que eram assustadores e aterrorizantes. Tentei não chorar. Foi muito difícil. A minha avó sorriu”.

A viagem começou de comboio para os Países Baixos e prosseguiu de barco até Harwich, em Inglaterra. A austríaca viajou com cerca de 150 outras crianças. “Provavelmente estava assustada, mas também devia estar entusiasmada”, disse. Mas a história que a levou até àquele comboio começou com uma descoberta que só fez depois da chegada dos nazis à Áustria: era judia. Filha única, cresceu com uma mãe católica, Hildegard, que morreu em 1935, e um pai judeu, Josef, fabricante de fogões de aquecimento.

Gabriele estudava num colégio católico dirigido por freiras quando as autoridades nazis apareceram para anunciar a transferência dos alunos para outras escolas. Os nomes foram sendo chamados, um a um. No final, Gabriele era a única criança que continuava de pé. “E pensei: ‘O que está a acontecer comigo?‘”

A resposta foi que teria de frequentar uma escola judaica. Pouco depois, uma estrela de David amarela foi cosida no seu casaco. “Eu não tinha percebido que o meu pai era judeu. Não sabia. Acho que nem sequer sabia o que significava ser judia”, referiu ao Guardian. A partir daí, passou a ser alvo de insultos: “Chamavam-me ‘pequena judia suja’ e eu era uma menina sensível. Foi perturbador“.

O pai acabou por ser deportado para Łódź, na Polónia. Gabriele nunca mais o viu e acredita que tenha sido assassinado num campo de extermínio nazi. Foi a avó, também chamada Gabriele, que conseguiu retirar a neta da Áustria através do Kindertransport.

De ama a diretora de uma escola: a nova vida de Gabriele no Reino Unido

No Reino Unido, a antiga professora começou uma nova vida. Aprendeu rapidamente inglês, estudou e começou a trabalhar como ama de uma família abastada em Woldingham, no sudeste da Inglaterra.

Um dos momentos que guarda dessa época aconteceu em maio de 1945, quando os britânicos celebraram o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. As amas da aldeia tiveram o dia livre e viajaram para Londres. “Foi realmente eufórico. Nunca tinha experimentado tamanha excitação e alegria. As pessoas dançavam na rua. Subiam às árvores”, relatou ao Guardian.

Apesar de a guerra ter acabado, a jovem refugiada acabou por construir o resto da sua vida no Reino Unido. Formou-se como professora no nordeste de Inglaterra, casou com Ken, teve duas filhas, Pat e Christine, e tornou-se diretora de uma escola em Wallsend. Décadas mais tarde, o trabalho de educação sobre o Holocausto valeu-lhe a atribuição da British Empire Medal. Gabriele passou a contar a sua história às crianças, explicando-lhes o impacto da perseguição nazi e a importância da tolerância.

Mas, apesar de ter contado a história muitas vezes, a sobrevivente do Holocausto continua a questionar se o mundo aprendeu as lições do passado. “Espero que tenham aprendido alguma coisa com isso”, disse, questionando: “Mas será que alguma vez aprendemos? Olhem para o mundo, vejam o estado em que está agora”.

A quase centenária confessou ao The Guardian que costumava viajar para a Áustria uma vez por ano para visitar a família, especialmente a sua avó, que morreu em 1974. O único lugar onde nunca mais voltou foi à estação de comboios de onde partiu quando tinha 12 anos.

Agora, a visita à estação de comboios acontece antes do aniversário oficial, em novembro. Como nessa altura estará demasiado frio para a viagem, Keenaghan decidiu celebrar duas vezes. “Vou ser como a rainha Isabel. Vou ter dois aniversários”, disse com humor.

Com ela, viajarão as duas filhas e outros familiares. Para Christine, a visita terá também um significado especial: guarda memórias muito vagas da bisavó, que não falava inglês. “A história conta que eu costumava chamar-lhe ‘Noddy Grandmother’, porque não percebia que ela não conseguia falar inglês. Eu falava com ela o tempo todo e ela acenava muito com a cabeça”.

Agora, prestes a fazer 100 anos, Gabriele prepara-se para voltar ao lugar onde viu a avó pela última vez antes de fugir da perseguição nazi. Não sabe exatamente o que sentirá quando chegar à estação. “Provavelmente vou ficar emocionada”, concluiu.