Arrancar a vinha, destilar e valorizar. Como o Douro procura “podar” a crise
Douro tenta saída para uma crise que exige mais do que "podar" excedentes. É preciso devolver valor económico à fileira e à região, dizem atores de um setor em que há escasso consenso sobre soluções.
ECO Fast
- A crise do setor vitivinícola do Douro leva à discussão de medidas como o arranque de vinha e a transformação de excedentes em aguardente, mas não há consenso entre os envolvidos.
- O Governo propõe arrancar 5.000 hectares de vinha para reduzir a produção, enquanto o setor debate a eficácia e as consequências dessa medida para os viticultores.
- Se não forem implementadas soluções eficazes, a crise poderá resultar em perdas significativas para os viticultores e afetar a paisagem e a economia da região.
Arrancar vinha para travar o excesso de produção e transformar as uvas, que o mercado não consegue absorver, em aguardente regional são duas das soluções que estão em cima da mesa para tentar “podar” uma crise do Douro que se arrasta há anos. Mas estão longe de reunir consenso entre os vários atores do setor vínico auscultados pelo ECO/Local Online. Numa coisa, porém, convergem: não há uma única tesoura capaz de cortar o problema pela raiz, de modo a garantir rendimento a quem cultiva a terra, e devolver valor económico a uma fileira que tenta sobreviver num mercado em retração.
A solução para o setor vitivinícola duriense não se esgota, assim, numa única medida, nem sequer num apoio extraordinário para escoar o vinho que sobra, como aconteceu com as ajudas do Estado à destilação, que podem não resolver o problema de fundo. O Governo tem algumas medidas na manga, como o arranque de 5.000 hectares de vinha, num universo de cerca de 43 mil hectares plantados na região vinhateira.
Rui Paredes, presidente da Casa do Douro
Lusa
O programa voluntário de ajustamento do potencial produtivo é uma das medidas mais controversas no setor e está previsto no Plano Executivo para a Gestão Sustentável e Valorização do Setor Vitivinícola da Região Demarcada do Douro para 2026-2032. O documento prevê um pacote de incentivos e alternativas de reconversão ou renaturalização, além da “limitação da expansão líquida da área vitícola e reforço do controlo sobre novas plantações, transferências e replantações”.
O plano estabelece, a seis anos, a redução de excedentes em 20% e a valorização da produção com o aumento de 10 a 15% no preço médio da uva, segundo já explicou o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes. O pacote de medidas foi coordenado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), com a participação, entre outras entidades, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) Norte. O ECO/Local Online tentou obter declarações do presidente do IVDP, mas Gilberto Igrejas manifestou-se indisponível.
Se o arranque da vinha avançar, poderá traduzir-se na perda de rendimento para muitos dos 18 mil viticultores — grande parte deles trabalha pequenas parcelas –, além de se correr o risco de “expulsar” do território quem vive da viticultura. O alerta é deixado por Rui Paredes e Manuel Cordeiro, presidentes da Casa do Douro e da Câmara de São João da Pesqueira, respetivamente.
Não tenho nenhuma reserva mental em relação ao tema arranque de vinha.
A fatura a pagar, apontam, pode estender-se à paisagem de socalcos de vinhas como hoje a conhecemos, classificada como Património Mundial pela Unesco, quando der lugar a outros cultivos.
Se Rui Paredes não fecha a porta ao arranque da vinha — embora recuse que seja apresentado como única frente para todos os males da região –, já o autarca Manuel Cordeiro opõe-se à solução num território onde a vinha é uma das principais âncoras económicas e sociais.
“Não tenho nenhuma reserva mental em relação ao tema arranque de vinha”, admite o presidente da Casa do Douro. Mas se for necessário avançar, defende, a decisão terá de ser repartida por todo o Douro, sem deixar ninguém para trás: “Seremos todos solidários e arrancaremos todos vinhas [para evitar] que o pequeno e médio viticultor, o elo mais fraco”, pague a fatura.

Mais taxativo é o autarca de São João da Pesqueira: “Não sou adepto do arranque, mas sim de uma maior fiscalização e rotulagem, assim como da definição de preços mínimos a pagar pelas uvas que não fiquem abaixo dos custos de produção”. “Como autarca quero que as pessoas vivam da vinha e do vinho.”
Reclama, por isso, a intervenção do Governo, preferindo, para já, acreditar que “este ministro [José Manuel Fernandes] tem alguma consciência do problema e que ainda se vai a tempo de inverter esta crise” na mais antiga região demarcada do Douro.
Como autarca quero que as pessoas vivam da vinha e do vinho
Já do lado das empresas, a leitura é outra. Para quem olha para a região a partir do mercado, reduzir a área plantada parece inevitável quando se produz mais do que aquilo que se consegue vender.
António Filipe, presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP), considera que o arranque de 5.000 hectares, num universo de cerca de 43 mil, poderá ajudar a reequilibrar a oferta e a procura e, consequentemente, valorizar a uva. “Teremos um bem mais escasso que presumivelmente valerá mais”, assinala. Porém, deixa um aviso: “Caso o arranque da vinha não seja feito de uma forma controlada, irá acontecer [na mesma, mas] de uma forma descontrolada”.
Mas reduzir a oferta, por si só, não chega. É preciso, aponta, reforçar a promoção dos vinhos do Douro e do Porto, conquistar novos mercados e transformar os turistas em futuros consumidores dos vinhos da região. Educar consumidores, formar sommeliers e restauração são mais algumas das estratégias apontadas pela associação que representa os operadores de vinho do Porto e DOC Douro.
Adrian Bridge, CEO da Fladgate Partnership, vê igualmente o arranque como uma medida estrutural numa região onde “a área de vinha cresceu cerca de 25% desde 2000”, enquanto o mercado do vinho do Porto foi perdendo terreno.
O dono do grupo, que detém marcas de vinho do Porto como a Croft, Fonseca ou Taylor’s e outras de vinho de mesa, defende que a redução da área de vinha deve ser acompanhada por compensações aos viticultores, à semelhança do que acontece noutros países produtores como a França. Defende ainda o fim do sistema de ‘benefício’, que fixa a quantidade de mosto generoso que cada produtor do Douro pode destinar para vinho do Porto.
Aguardente vínica regional divide fileira
Há ainda outra forma de ecoar excedentes sem arrancar raízes: transformar parte das uvas que sobram em aguardente vínica regional, para ser utilizada na produção de vinho do Porto e Moscatel.
A par do arranque da vinha, esta é também uma das medidas mais polémicas e que não reúne consenso, uma vez que o partido JPP – Juntos pelo Povo quer torná-la obrigatória e os operadores contestam a imposição. “Somos absolutamente contra por considerarmos que a obrigatoriedade seria catastrófica para o vinho do Porto e para a região”, sustenta o presidente da AEVP.
Adrien Bridge, ceo do The World of Wine - WOW
Ricardo Castelo
A 30 de janeiro deste ano, o projeto-lei foi aprovado, na generalidade, com os votos contra do PSD, CDS-PP e IL e favoráveis das restantes bancadas e deputados. O diploma está em apreciação na especialidade no Parlamento, e visa absorver excedentes e criar valor dentro da própria região vinhateira.
Entretanto, um estudo pedido pelo ministro da Agricultura concluiu que a medida era “tecnicamente inviável, economicamente insustentável e estrategicamente arriscada”. Segundo o IVDP, os excedentes de uvas não chegam para assegurar a aguardente necessária: são precisos cerca de sete litros de vinho para produzir um litro de aguardente.
Somos absolutamente contra por considerarmos que a obrigatoriedade seria catastrófica para o vinho do Porto e para a região.
Num mercado mundial já em retração, o presidente da AEVP teme um efeito dominó em toda a cadeia vitivinícola, desde uma quebra acentuada das vendas, passando pela redução do “benefício” até “ao fim ou o princípio do fim dos vinhos DOC Douro”, os tranquilos.
Se a obrigatoriedade for para a frente, vinca António Filipe, da Symington Family Estates, “será desastroso do ponto de vista económico, pois imagine o que acontece a uma empresa que, de repente, vê a sua capacidade de vender vinho do Porto reduzida para metade?” A resposta não tardou em chegar: “Tem de despedir metade das pessoas e [dispensar também] metade dos seus fornecedores de vidro, de rolhas e de cartões e tudo o mais, além de fechar metade das linhas de engarrafamento. Seria desastroso do ponto de vista económico”.
Também Adrian Bridge considera “insustentável a ideia política de fazer aguardente só com uvas do Douro, porque vai aumentar substancialmente o custo de produção do vinho do Porto e pode acelerar a redução do volume”. O litro da aguardente poderá custar entre 10 e 12 euros, contra os atuais 1,70 a 2,50 euros, encarecendo depois os vinhos tranquilos, podendo mesmo acelerar a quebra do consumo, alerta o CEO da Fladgate Partnership.
O impacto, argumenta, poderá repercutir-se muito para lá da vinha e da adega: “O Douro não é só vinho do Porto, Douro ou espumante; também dá emprego a muita gente na área do turismo.” E faz um reparo: “Até nem sei se esta imposição será legal”.
É insustentável a ideia política de fazer aguardente só com uvas do Douro, porque vai aumentar substancialmente o custo de produção do vinho do Porto e pode acelerar a redução do volume.
“Balão de oxigénio”
Já a Casa do Douro vê na aguardente vínica regional uma espécie de “balão de oxigénio” para ecsoar o excedente de uvas. Defende, contudo, que só deve ser destilada a percentagem que o mercado não consegue absorver, sob pena comprometer a produção de vinhos tranquilos. Rui Paredes cita como exemplo “o excedente de 10% de uvas que não foi vendido em 2025 e que poderia ter sido transformado em aguardente.”
O também viticultor apoia a obrigatoriedade, porque “se for voluntária, os operadores continuarão a importar aguardente de outros mercados como o espanhol e francês, onde é mais barata.” O uso de aguardente vínica da região já foi testado na adega de Favaios (Alijó), conta, que “já transformou algum excedente em aguardente e depois introduziu na própria produção de vinho do Porto e Moscatel”.
Igualmente o autarca Manuel Cordeiro vê na destilação uma forma de escoar as uvas que não entram no “benefício” e ficam sem comprador, sobretudo a dos pequenos produtores. Defende, porém, uma introdução “paulatina, integrada”, que permita transformar os excedentes numa matéria-prima para um produto de origem da região, em vez de repetir o ciclo de produzir, acumular e desvalorizar.
Para Manuel Cordeiro de pouco servirá produzir menos se aquilo que se produz continuar a ser pago abaixo do custo de produção, na ordem dos 500 euros por pipa. A mesma uva, que pode valer perto de mil euros quando destinada ao vinho do Porto, pode chegar a ser vendida por 150, 200 ou 400 euros quando é canalizada para a produção de vinhos DOC Douro, denuncia.
Esta não seria de todo uma forma de congelar o mercado, mas sim valorizar quem está na base da cadeia. “Nós vendemos as uvas, entregamos as uvas e não sabemos a que preço vamos receber“, queixa-se o autarca que também explora uma vinha.
A resposta, por isso, passa também por dar mais poder de negociação aos viticultores, e exigir ao Estado um papel regulador mais forte. Para os quatro responsáveis não basta retirar uvas do mercado. O problema do Douro não é só quanto produz. É quanto consegue vender e pagar a quem produz e quanto valor deixar na região.