Masp: Artista cria casinhas coloridas como Bad Bunny - 13/07/2026 - Ilustrada - Folha
Com a avenida Paulista fechada para pedestres no feriado da última quinta-feira (9), muitos passantes curiosos paravam embaixo do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, para entrar em casinhas coloridas instaladas no vão livre do museu.
Trata-se da obra da artista venezuelana Sol Calero, que compõe a programação deste ano dedicada à América Latina e tem entrada gratuita. Feita com placas de madeira azuis, rosas, verdes e amarelas, e adornada pela artista com pinturas de padrões comuns à paisagem de países sul-americanos, como pastilhas e tecidos floridos, a vila "Casa Maria Lionza" lembra a estrutura do show de Bad Bunny.
A turnê mundial do cantor de reggaeton, que passou pelo Brasil em fevereiro, foi marcada pela montagem de uma vila porto-riquenha sobre o palco, constituída pelas mesmas casinhas coloridas, baixas e unidas por pequenas vielas. A estética, somada ao álbum "Debí Tirar Más Fotos", que encadeia uma série de referências ao modo de vida em Porto Rico, se tornou uma espécie de manifesto de Bad Bunny sobre o orgulho de ser latino-americano.
O auge desse processo foi quando Bunny fez o show de intervalo do Super Bowl nos Estados Unidos, contrariando o presidente Donald Trump e em meio a detenção de imigrantes no país pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas, o ICE. Apenas um mês antes, o Exército americano havia capturado e deposto Nicolás Maduro, ex-ditador da Venezuela, país de Sol Calero.
Laura Cosendey, curadora da exposição no Masp ao lado de Adriano Pedrosa, conta que, enquanto a artista pintava a instalação no vão livre, aconteceu também o terremoto que deixou mais de 17 mil pessoas desabrigadas em seu país. Ainda que Calero hoje viva em Berlim, na Alemanha, todos esses acontecimentos cruzaram, de alguma forma, a construção de "Casa Maria Lionza".
"Com a arquitetura circular, ela traz conotações ligadas ao aspecto comunitário da moradia", diz Cosendey. A instalação tem um pequeno anfiteatro que, no feriado, foi percurso de crianças que corriam umas atrás das outras, perseguidas pelas mães. Enquanto isso, jovens posavam nas janelas da casa para postar fotos nas redes sociais. Há alguns passos da obra, pessoas de várias idades descansavam em cadeiras de praia viradas para o mirante da avenida 9 de Julho.
"Casa Maria Lionza" marca um novo momento para o espaço aberto sob a estrutura do museu, uma área que passou por altos e baixos na última década. Ponto de encontro para atividades ao ar livre gratuitas e manifestações na avenida Paulista, também chegaram a morar ali mais de cem crianças e adolescentes desabrigadas em 2019, época em que o uso de drogas e bebidas alcoólicas no local, incluindo por menores de idade, era frequente.
O vão livre passou a ser administrado pelo Masp em 2025, quando a prefeitura de São Paulo concedeu o espaço ao museu por 20 anos. Desde então, "Casa Maria Lionza" é a primeira instalação pensada especialmente para o espaço e a segunda a ocupar o local, depois de "O Outro, Eu e os Outros", do colombiano Iván Argote.
"Calero cria esse espaço que integra o museu à cidade, ao tecido urbano, de uma maneira muito simbólica", diz Cosendey. Não por acaso, a artista venezuelana se inspirou na pesquisa de Lina Bo Bardi, emblemática arquiteta italo-brasileira que projetou o edifício principal do Masp, sobre a arquitetura popular e sua elaboração. As formas circulares da instalação remetem a Igreja do Espírito Santo do Cerrado, em Minas Gerais, pensada por Lina.