Atirar sal a 1300ºC no forno deu em arte
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Sejam bem-vindos ao programa "A Nossa Cultura". O meu nome é Martim Madeira. Iniciamos outra vez este conjunto de entrevistas com Liliana Velho, que tem aqui esta exposição no Teatro Viriato, "Regenerar Estados Transitórios". Vamos para a terceira peça desta exposição e nesta peça eu já identifico uma espécie de coração mais realista, um coração menos convencional como nós desenhamos, mas um coração mais realista. Nota-se bem as válvulas, nota-se bem que é um coração como a ciência comanda e, portanto, aqui também um caráter mais rochoso, uma espécie de pedra meio dourada, mais rochoso, lá está, mais meio dourado. E eu gostava de lhe perguntar, para já, como é que conseguiu este tom de cor, porque para mim é uma cor tão peculiar e parece tão realista que parece mesmo uma pedra que nós vemos no mar.
Tem muita graça, porque este vidrado realmente é especial. A peça foi feita com barro produzido por as Oficinas do Convento, que é uma associação no Alentejo que trabalha com várias áreas, mas também com cerâmica. E as pastas foram feitas lá e a cozedura também foi feita lá, num forno muito especial que é o forno de grês de sal. E esse forno é um forno especial porque, que eu saiba, só existem dois fornos dedicados à cerâmica artística no país e as Oficinas do Convento têm um desses fornos. E esses fornos são especiais porque fazem um vidrado com o sal. Ou seja, há uma cozedura que é feita a lenha, num forno bastante grande, e quando o forno atinge uma dada temperatura, que acho que é volta dos 1200 ou 1300, agora já não sei precisar, é atirado para dentro do forno uma grande quantidade de sal. E esse sal vai ter uma reação química e vai cair sobre todas as peças que estão dentro do forno e sobre o próprio forno. As paredes e os suportes ficam todos cobertos com sal e esse sal transforma-se em vidrado, que é o que nós estamos a ver. Esta cor é um vidrado de sal e dependendo do patamar em que está no forno, ou seja, se estiver mais embaixo, a meio ou no cimo, vai ter diferentes gradações, mas anda sempre em tons verdes, castanhos. Se não houver nenhum óxido ou nenhum vidrado que tenha sido misturado, normalmente é uma das cores naturais do sal.
E por acaso nota-se bastante, pelo menos nas partes de cima, a parte do sal. Eu pergunto-lhe também, porque a mim parece-me uma peça complicada de fazer de uma só vez. Eu pergunto-lhe se fez primeiro, por exemplo, o lado esquerdo que tem as válvulas e depois fez aquele lado direito com aquela espécie de bola com picos. Depois tem uma parte um pouquinho mais com uma folhagem, pelo menos é o que me parece a mim. Isto foi tudo feito de uma só vez? Fez várias peças, depois juntou tudo com o barro? Como é que se deu esta peça? Porque a mim me parece complicado.
Sim, ela é feita de uma só vez. Estas peças, para mim, já é grande escala, apesar de não serem assim tão grandes. Elas para um certo tipo de modelação já começam a ser muito grandes, porque o barro à medida que a gente vai trabalhando também vai secando e às vezes para ter esta modelação mais espontânea, que eu às vezes gosto muito de trabalhar, com esta escala já é um pouquinho mais difícil. Mas efetivamente esta peça foi modelada num dia. Comecei de manhã e acabei à tarde.
Isso é impressionante.
Sim, teve que ser para ficar com este... Tem uma expressão diferente. Se nós a compararmos com a primeira, nota-se bastante a diferença na construção, porque esta foi um processo contínuo.
Mas como é que se faz, por exemplo, porque de um lado vemos uma parte mais a parecer o coração, mais à direita, e depois do outro temos aquela bola com uma espécie de picos. Sabe do que me faz lembrar? Faz-me lembrar uma espécie daquelas minas subaquáticas. E como é que se faz isto? Como é que se faz isto sem partir o resto? É a minha grande opinião, porque são formas tão diferentes.
Sim, esta peça foi toda feita com a técnica do rolo, que eu acho que é a técnica, para mim, mais versátil, porque dá para fazer tudo o que quisermos.
Para quem não sabe o que é a técnica do rolo, pode explicar, Liliana?
Sim, é superfácil. É só fazer vários rolinhos em cerâmica que depois vão sendo empilhados, vão se juntando uns aos outros e vamos construindo conforme a forma que a gente quer. E é uma técnica que se usava antigamente para fazer coisas simples, podiam ser panelas ou copos, e hoje na escultura. Ou seja, dá para fazer o que a gente quiser.
Aqui está já a terceira peça desta exposição de Liliana Velho aqui no Teatro Viriato. Vamos continuar nos próximos episódios a analisar esta exposição.