Aumento de custos de combustível e financiamento torna-se maior dor de cabeça da aviação

🗓️ 2026-09-18 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

A recente turbulência no mercado reforçou esta mudança de ânimo, incluindo o pedido de falência da airBaltic, a subida dos preços do petróleo ligada aos avanços dos Houthis do Iémen no conflito do Médio Oriente e o aumento das yields dos títulos do Tesouro dos EUA.

"Sinto que o mercado está a mudar. Penso que o inverno será mais frio (financeiramente) do que as pessoas esperam", disse Thomas Baker, CEO da empresa de leasing Aviation Capital Group, durante o evento organizado pela International Society of Transport Aircraft Trading (ISTAT).

Segundo a Reuters, os analistas já alertaram que as companhias aéreas mais pequenas podem sofrer pressão devido aos custos mais elevados do combustível nos próximos meses.
Aviação pode “estagnar ou desabar”
Há um ano, os oradores da ISTAT — evento que surgiu há 43 anos como um encontro informal de comerciantes de aeronaves usadas na Florida — concentravam-se na escassez de aeronaves e motores, um fator que elevava os valores de mercado e as taxas de leasing.

Embora os estrangulamentos de fabrico persistam, muitos executivos veem-nos como um amortecedor contra uma possível desaceleração da procura, e não como o principal desafio do setor.

"É impressionante a rapidez com que as coisas mudaram", disse aos participantes Bertrand Dehouck, responsável global de mercados de capitais para os transportes do BNP Paribas.
Segundo Bertrand Dehouck, "a onda que tem sustentado a aviação há algum tempo pode estagnar ou desabar de forma bastante dramática durante o inverno, período em que as dificuldades do mercado geralmente vêm ao de cima, especialmente na Europa".
Andy Cronin, CEO da empresa de leasing de aviões Avolon, frisou que as preocupações com as taxas de juro aumentaram rapidamente, mesmo com o alívio de algumas pressões na cadeia de abastecimento.

"Observa-se uma queda acentuada na escassez de motores e peças e um aumento muito rápido da preocupação com as taxas de juro", afirmou.

O custo do financiamento é crucial para as empresas de leasing de aeronaves, que controlam cerca de metade da frota aérea global e dependem fortemente do financiamento através de dívida.

Apostar na companhia aérea ou na aeronave errada pode trazer prejuízos durante anos. Mas avaliar mal os passivos "mata o negócio muito rapidamente", sublinhou Andy Cronin.Petróleo acima de 100 dólares é ponto crítico
Os participantes do setor relataram que a subida dos custos de combustível começou a arrefecer a atividade no mercado de aeronaves usadas, com algumas taxas de leasing a cair entre 5% e 10%.

"Acredito que isto vai pesar rapidamente. Com o barril a 100 dólares... os modelos de negócio para aeronaves de meia-vida deverão sofrer impactos negativos", disse Ted O'Byrne, CEO da AviLease (empresa de leasing saudita), referindo-se a aeronaves com até 15 anos de utilização.Alguns executivos revelaram estar a debater, pela primeira vez em anos, o que poderá desencadear um regresso à sobrecapacidade, embora não se espere que a escassez de aviões e peças diminua tão cedo.

"Penso que é apenas um obstáculo temporário", disse Thomas Baker à Reuters.

Os desafios não impediram a entrada de novos investidores no financiamento da aviação — um fator positivo para o setor como um todo, mas que gera concorrência para as empresas de leasing que procuram os mesmos ativos aeronáuticos.

"O mercado simplesmente não é suficientemente grande para satisfazer toda a gente, especialmente no segmento de leasing", evidenciou Mounir Kuzbari, co-CEO da Novus Aviation Capital.

Ainda assim, os executivos afirmaram não haver sinais imediatos de que os preços mais elevados dos combustíveis e os custos de financiamento estivessem a provocar uma queda significativa na procura de viagens.

"Nos próximos seis a 12 meses, será ainda mais importante saber exatamente o que está a subscrever e com quem se está a associar", declarou Paul Sheridan, CEO da Aergo Capital, empresa especializada em jatos usados.

Após crises que variaram desde a suspensão dos voos do Boeing 737 MAX por questões de segurança até à paragem de centenas de jatos Airbus A320neo devido a estrangulamentos na produção de motores, alguns executivos disseram que a próxima desaceleração poderá vir de fora do setor da aviação.

"Não me surpreenderia se este ciclo acabasse por ser quebrado por um choque exógeno. Poderia ser algo de natureza geopolítica, ou o mercado obrigacionista finalmente provocar uma rutura, mas será algo inesperado", acrescentou Thomas Baker aos participantes.