Aumento do apoio à democracia é boa notícia? - 16/09/2026 - Maria Hermínia Tavares - Folha
Parece uma boa notícia: depois de mais de uma década de retração, entre 2023 e este ano o apoio à democracia cresceu em toda a América Latina. É o que constata o relatório "Pulse of Democracy 2026", com os resultados da mais recente pesquisa do Lapop (Latin American Public Opinion Project), sediado nas universidades americanas de Vanderbilt e Notre Dame. O crescimento é promissor. Afinal, ocorreu em todos os grupos de idade, níveis de escolaridade e nos 14 países estudados.
Parece, pois, uma boa notícia —mas nem tanto. Os mesmos cidadãos que afirmam ser a democracia preferível a quaisquer outras formas de governo estão dispostos a aceitar ações que debilitam a capacidade do Legislativo e do Judiciário de conter os respectivos chefes de Estado. Para a maioria dos democratas latino-americanos —entre eles parcela importante de brasileiros—, o sistema pode se restringir a promover eleições limpas, à aceitação dos seus resultados e ao respeito às instituições que as garantam. É pequena, contudo, a adesão plena às regras da democracia liberal representativa. Como se sabe, além de garantir eleições competitivas, o modelo é dotado de meios para proteger as minorias, limitar o poder dos governantes e responsabilizá-los por seus atos.
A democracia que termina tão logo apuradas as urnas é compatível com o governo arbitrário de líderes fortes e constitui a essência do populismo —não por acaso abundante na América Latina desde a segunda metade do século 20.
Em seu livro "Do Fascismo ao Populismo na História", o estudioso argentino Federico Finchelstein argumenta que os dois movimentos são parte de uma mesma tradição política contemporânea, alternativa —e oposta por onde que se queira examiná-la— à democracia liberal representativa. O fascismo é uma modalidade de ditadura que rejeita eleições, pluralismo e a legitimidade da oposição. Já o populismo é uma forma autoritária de democracia, que não abole as urnas nem a competição política, mas as distorce ao concentrar poder nas mãos de um líder que se apresenta como encarnação do povo e que, em seu nome, achincalha o sistema liberal representativo. Por serem aparentados, não deve surpreender que fascismo e populismo se pareçam em muitas coisas.
A acirrada disputa política que, desde 2018, se repete no Brasil a cada ciclo eleitoral pode ser enquadrada naqueles termos, como competição entre duas formas opostas de entender a democracia. Uma, que garante liberdade às oposições, proteção das minorias e controle dos poderes de Estado; outra, que delega ao líder eleito a definição dos limites de seu próprio arbítrio.
Decerto não hão de faltar bolsonaristas nostálgicos dos trevosos tempos da ditadura militar. A começar de Jair Messias, o patriarca da família, que nunca escondeu sua preferência; e, tudo indica, de seu herdeiro senador, que parece desprovido de ideias próprias. Mas é provável que parcela significativa dos eleitores inclinados a votar em um Bolsonaro se sinta um genuíno democrata —embora descrente do Congresso, desconfiado do Judiciário, avesso a partidos e disposto a rifá-los por um Executivo que prometa eficiência e correção. Para demovê-los, o apelo à defesa das instituições democráticas será inócuo.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.