Avenida Brasil 2: por que são produzidos tantos remakes e continuações? Especialistas avaliam fenômeno | CNN Brasil

🗓️ 2026-09-12 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

A TV Globo anunciou oficialmente nesta semana "Avenida Brasil 2", continuação da novela que foi ao ar originalmente em 2012 e que deve estrear em janeiro de 2027. A nova trama de João Emanuel Carneiro segue uma tendência que tem atingido não só a televisão, mas também o cinema: a produção de remakes e continuações.

Somente nos últimos seis anos, a Globo produziu remakes de "Pantanal" (1990/2022), "Elas por Elas" (1982/2023), "Renascer" (1993/2024) e "Vale Tudo" (1988/2025).

Entre a lista de continuações, estão "Verdades Secretas 2" (2015/2021), "Nos Tempos do Imperador" (continuação de "Novo Mundo" [2017/2021]) e "Êta Mundo Melhor!" (continuação de "Êta Mundo Bom!" [2016/2025]).

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A fórmula também seguiu nos cinemas: foram lançados o remake live-action da Disney de "Lilo & Stitch", "Superman", "Quarteto Fantástico", "Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado", além do oitavo filme de "Missão: Impossível" e das continuações "Sexta-Feira Mais Louca Ainda" e “Invocação do Mal: Últimos Ritos”.

Para Henrique da Silva Pereira, doutor em Comunicação pela UNESP, é importante distinguir o papel dos dois tipos de produção no cenário do audiovisual.

"O remake reconta. Parte de uma narrativa já conhecida para reconstruí-la a partir de outro contexto histórico, estético e social. A continuação prolonga. Apresenta o que aconteceu com os personagens e com o universo ficcional depois que a narrativa original terminou", explica ele à CNN Brasil.

O profissional explica que existe algo característico da própria televisão nesses dois casos, que é a dimensão discursiva. "A televisão sempre falou muito de si mesma. Recupera seus arquivos, personagens, atores, gêneros, imagens e formatos, transformando sua própria história em matéria-prima para novas produções", afirma.

Em relação à "Avenida Brasil", Henrique avalia que a trama sempre foi reinterpretada mesmo após sua exibição original, seja por meio de plataformas de streaming, redes sociais, memes, vídeos e reprises.

"Quando uma emissora retorna a uma obra como 'Avenida Brasil', ela não está apenas buscando uma história que já deu certo, está mobilizando, também, uma memória televisiva que foi construída junto com o público", aponta.

"Por isso, entendo que os remakes e continuações não simplesmente 'revivem' histórias. Eles colocam o passado em negociação com o presente. E o que determina a relevância de uma nova versão é justamente sua capacidade de produzir algum sentido novo a partir de algo que o público já conhece", segue.

Para Elzemann Neves, roteirista e coordenador dos cursos de roteiro na Academia Internacional de Cinema - AIC, a produção de remakes é uma questão puramente mercadológica.

"Há um pressuposto de que o público, por já conhecer os personagens e o universo da narrativa, estaria disposto, e até desejoso, de assistir a um remake. Mas a verdade é que essa conta não é tão simples. Se a ideia for 'reviver' a história, melhor buscar o original, as reprises, em geral, fazem bastante sucesso. Mas recontar envolve uma outra matemática, pois nada é garantia de sucesso. Um remake precisa que o público que assistiu a obra esteja interessado em revisitar esse universo, mas precisa também ser atraente para aqueles que não conhecem a obra original, então as atualizações são necessárias".

Contexto histórico importa

Existe um risco quando uma produtora decide recontar ou continuar uma história que já fez sucesso no passado. Henrique Pereira avalia que um remake toca em um ponto delicado de um telespectador, que é a memória afetiva.

"Uma nova versão pode ser percebida como desnecessária, excessivamente dependente da nostalgia ou até como um empobrecimento do legado da obra anterior", aponta.

"A nostalgia oferece reconhecimento imediato, mas, se for usada apenas como estratégia de segurança, pode rapidamente produzir o efeito contrário e gerar a sensação de repetição ou esgotamento criativo", segue ele.

O profissional explica que muitas obras fazem sucesso devido ao contexto em que foram criadas, algo que pode não se repetir em meio à sua atualização. "Uma nova produção precisa justificar artisticamente, cultural e socialmente a própria existência", declara.

Como exemplo, há "Vale Tudo", que foi criada em um momento após a Ditadura Militar e dialogava com assuntos que estavam em alta no momento. Ao ser recontada, a obra enfrentou um momento político diferente, com dilemas que já haviam sido discutidos à exaustão por quase quatro décadas.

"Algumas obras envelhecem bem porque seus conflitos seguem produzindo sentidos diferentes para novas gerações. Outras revelam marcas evidentes do período em que foram realizadas, o que não significa que tenham perdido valor", aponta.

Elzemann Neves acredita que as redes sociais influenciam bastante na resposta do público em relação a uma obra. "Quem é fã de alguma obra, em geral, sente-se traído quando algo no remake não o agrada. As redes sociais podem, inclusive, ser bastante cruéis nesse sentido, pois inúmeros perfis postam comparações entre o original e o remake. Comparar atuações, por exemplo, é de um enorme mal gosto. Mas a comparação é uma cilada intrínseca de qualquer remake, para o bem ou para o mal", afirma.

O roteirista afirma que toda cultura é viva, dinâmica e influencia diretamente na forma como alguns temas são abordados. "Por isso acho importante que o público sempre leve em conta o momento e que a obra foi realizada, só assim o seu legado pode se justificar", declara.

"Avenida Brasil" envelheceu mal?

Há diversos assuntos dentro de "Avenida Brasil" que foram discutidos em determinado momento e que agora estão inseridos de forma mais intensa na sociedade, segundo o que aponta Henrique Pereira.

"A novela transformou elementos tradicionais do melodrama (vingança, segredos familiares, ascensão social, conflitos amorosos) em uma narrativa que dialogava fortemente com questões de classe, consumo e mobilidade social no Brasil daquele momento", afirma.

O doutor em Comunicação cita personagens como Carminha, Nina e Tufão, assim como o próprio bairro do Divino, como criações da ficção que ultrapassaram os limites da exibição original.

"O tempo não apenas envelhece uma produção; ele produz novas formas de enxergá-la. E é justamente essa distância histórica que torna tão interessante retornar a determinados universos ficcionais".

 Sobre "Avenida Brasil 2", a expectativa é que alguns temas sejam atualizados, mas tudo dependerá da criatividade dos responsáveis pela novela.

"Acredito ser fundamental que temas e cenas sejam revistos e até 'consertados'. Afinal, para que investir em um remake se não houver uma série de atualizações? Seria melhor rever o original. Ao mesmo tempo, dependendo das atualizações, aquele frescor do original pode se perder. Isso nos leva ao essencial da obra: o roteiro. O texto precisa entregar camadas, ser criativo e soar contemporâneo. Ele deve brincar com a essência da obra revisitada, mas também saber se adaptar aos novos tempos", opina Elzemann Neves.        

Para Henrique Pereira, é importante entender que uma produção audiovisual é um documento de seu tempo. "Ela carrega valores, sensibilidades, contradições e até limitações do período histórico em que foi realizada", afirma.

"O que uma continuação pode fazer, e isso me parece mais interessante, é estabelecer uma relação crítica com esse passado. Ela pode retomar personagens, situações ou temas a partir de outra consciência social e mostrar que determinadas questões hoje são percebidas de forma diferente. Isso é mais produtivo do que simplesmente tentar apagar ou higienizar aspectos da obra original", diz o profissional.

Para o doutor em Comunicação, será interessante ver a história de personagens com um abismo de 15 anos de diferença entre as duas obras. "Uma continuação tem uma oportunidade especialmente interessante, que é a possibilidade de transformar a passagem do tempo em elemento da própria dramaturgia. (...) As relações sociais mudaram, a linguagem mudou e o próprio público mudou", diz. 

"Mais do que corrigir 'Avenida Brasil', acredito que uma continuação possa dialogar criticamente com a obra original e revelar a distância entre o Brasil de 2012 e o Brasil de 2027", conclui.