Balada do Neves
Desde o início que Luís Neves é um Ministro polémico. Ainda era Director Nacional da Polícia Judiciária e as suas declarações sobre percepções de insegurança ligadas ao aumento do número de imigrantes já o tinham tornado uma figura controversa. Talvez irritado por ter visto as suas constatações postas em causa, Luís Neves resolveu demonstrar a sua validade em público. Fê-lo através de um exemplo retirado directamente da realidade portuguesa: participou num caso recheado de comportamentos duvidosos por parte de vários indivíduos, todos portugueses de gema. Nem um estrangeiro metido ao barulho. Depois disto, quero ver quem é que se atreve a apontar o dedo à imigração.
Além de Luís Neves, o empreiteiro João Carvalho também tem sido alvo do escrutínio público. A meu ver, mal. Não que não mereça ser investigado. É claro que sim. Parece-me é que a comunicação social se tem debruçado sobre os temas acessórios, em vez de sobre o que realmente interessam. Por exemplo, fala-se muito no número de empresas que João Carvalho já teve, mas ninguém tem curiosidade em saber o número de filhas que tem. Uma dúzia de empresas não é nada fora do normal, mas o facto de poder ser pai de algumas dezenas de filhas parece não espantar ninguém. Imagino que sejam algumas dezenas porque João Carvalho foi apanhado com vários bidões de acetona. Ora, eu tenho uma filha adolescente, que dá conta de vários frascos do produto, para limpar o verniz das unhas. Para João Carvalho necessitar de hectolitros, é porque tem bastantes filhas. Ou então apenas uma, mas com as garras de uma harpia. É preciso ter azar para, logo agora, se ter descoberto o atrelado na garagem da construtora. É o chamado ganda galo de Barcelos.
O problema de Luís Neves é que, de facto, o “caso das obras não licenciadas do seu monte, feitas por um amigo empreiteiro que costuma trabalhar para o organismo público que Neves dirigia e que tinha na sua posse um atrelado apreendido numa operação policial”, levanta uma série de questões. A ligeireza com que o atrelado sai do parque de apreensões do Seixal para a posse do empreiteiro é esquisita. Digo-o com conhecimento de causa. O meu carro já foi rebocado pela EMEL e sei bem a trabalheira que é resgatá-lo. Exigem a carta de condução, o cartão do cidadão, o documento único automóvel, o registo de propriedade, a certidão permanente comercial da empresa proprietária do veículo, uma procuração da empresa proprietária do veículo a comprovar o usufruto, o seguro, o comprovativo do pagamento da multa que deu origem ao reboque, o comprovativo do pagamento de outras multas devidas à EMEL e análise de urina tipo II. E isto para levantar um carro que não teve qualquer participação em crime. (Se descontarmos a pontual inversão de marcha na minha rua, quando estou atrasado para levar os miúdos à escola; e o conduzir amiúde na faixa do meio da auto-estrada). Ao João Carvalho, basta aparecer no parque de estacionamento e entregam-lhe um veículo usado na produção e tráfico de estupefacientes. Da próxima vez que me rebocarem o carro, peço ao João Carvalho para ir busca-lo por mim.
No entanto, e apesar da confusão, continuo a achar que não há razões para Luís Neves deixar de ser Ministro. A situação ainda não cheira a esturro. No máximo, há um travozinho ácido no ar, mas isso deve ser do amoníaco – outro dos produtos no atrelado. Isso não significa que Luís Neves tenha tido uma conduta isenta de crítica. Longe disso. Nomeadamente, no que diz respeito ao tanque. Ou à piscina. Neves chama-lhe tanque, os críticos chamam-lhe piscina. Eu não consigo distinguir. Tanque ou piscina, acho só que é pequena. Alguém que tem uma casa no Alentejo, uma região que está a ficar desertificada e sujeita a ondas de calor cada vez mais longas e intensas, resolve construir uma piscina/tanque sem licença e faz um bidé daquele tamanho? Já que era para cometer uma ilegalidade, escavava um lago como deve ser. Aquilo nem dá para saltar de cabeça. E é óbvio que Luís Neves é um homem que gosta de se atirar à maluca, sem prever as consequências. Veja-se a sua entrada na política.