Benfica x A.Viseu: "Foi Prestianni e mais 10."
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Primeira jornada do Campeonato Nacional para o Benfica, que recebeu em casa, à porta fechada. Isto será fundamental para a nossa análise. A equipa do Académico de Viseu empata duas bolas. Grande surpresa, 37 anos depois, no regresso à Primeira Liga, o Académico de Viseu consegue empatar em casa de um candidato ao título, mas na lucidez e na não hipocrisia do treinador Bruno Pinheiro, jogou muito a favor da equipa viseense o facto de, no Estádio da Luz, as bancadas terem estado despidas, Augusto Inácio.
Hoje pode-se dizer que aconteceu futebol. Aconteceu o futebol e aconteceu uma coisa que não me lembro de há muitos anos ter acontecido, que é fazer um jogo sem adeptos na bancada. É realmente estranho, é realmente uma coisa fora do normal, mas o que é certo é que isso se realizou assim. Um Académico de Viseu que regressa ao futebol maior 37 anos depois. Deixa-me dizer que fiquei contente com a subida do Académico de Viseu, tenho lá muitos amigos em Viseu e têm que me pagar lá um almoço, que ainda não pagaram. Mas, de qualquer maneira, dizer que aquilo que o Benfica tinha vindo a fazer, principalmente no segundo jogo com o St. Gallen na Luz, depois com o Hearts, em que o Benfica demonstrava realmente uma subida de forma e uma confiança coletiva que há muito já não se via no Benfica, é verdade, e esperava-se que o Benfica hoje ganhasse folgadamente ao Académico de Viseu. Pelo menos eu esperava isso, e acho que os adeptos do Benfica também esperavam, porque o Académico de Viseu é uma equipa bem menor do que a do Benfica. É realmente uma equipa de profissionais séria e honesta, que luta pelo emblema que envergam. E sinceramente, independentemente do Benfica ter falhado cinco, seis, sete, oito gols, independentemente do Benfica ter mandado três bolas à trave, nunca se pode dizer e tirar o mérito a uma equipa humilde, trabalhadora, como foi a equipa do Académico de Viseu, que chegou à Luz e teve momentos em que praticou também um excelente futebol. Na primeira parte, realmente a organização defensiva foi frágil, fruto também daquilo que era o jogo do Benfica, com o jogo interior bastante forte, com a subida dos laterais. E o que é certo é que a defesa do Académico de Viseu não se deu muito bem com aquilo que foi a dinâmica do jogo e, acima de tudo, de uma coisa que o Benfica está a tentar construir, e acho que vai conseguir ao longo do tempo, que é não ter muita bola os jogadores no pé, não jogar a bola pro lado e pra trás, tendo sempre o fito e o objetivo de ser uma equipa que quer jogar pra frente e quer criar oportunidades o mais rapidamente possível. E por isso, aqui ou acolá, é capaz de cometer alguns erros, principalmente na perda da bola, em que a reação dos jogadores do Benfica é excelente, é boa, mas às vezes pode apanhar a equipa desequilibrada na sua organização e pode dar a oportunidade da equipa adversária poder também ligar-se o jogo e criar situações de perigo. O que é certo é que o Benfica faz um a zero, diria fácil. Depois o Académico de Viseu reagiu e realmente teve num pontapé de canto o gol do empate, quando já antes o Clóvis tinha feito um remate em que o Samuel Soares fez uma boa defesa e desse canto é que nasce o gol. Aqui pode-se dizer que é muito mérito do Académico de Viseu, mas nessas coisas de bolas paradas, quem está realmente a defender é que tem a possibilidade de realmente cortar primeira bola. O que é certo é que a equipa do Benfica ficou muito estática e o jogador do Académico de Viseu acabou por fazer o gol porque estava mais bem posicionado. Diria que logo de seguida o Benfica reagiu e bem, porque o Prestianni, na minha opinião, foi o melhor jogador em campo. Estava realmente a partir a loiça toda, como se costuma dizer, e faz daquelas jogadas. Ele é argentino, pronto, ia dizer, fez uma jogada à Messi. Mas como ele é argentino e está a mostrar-se agora, é daquelas jogadas de mestre, de um pequeno génio que está a aparecer agora. Fala-se, e é verdade, foi o Roberto Martínez que disse isso, salvo erro, que o Francisco Conceição era o espalha-brasas. Eu penso que o Benfica tem um argentino espalha-brasas também.
Mas é um espalha-brasas que muitas vezes não salta do banco, tem sido titular. Portanto, ele acende as brasas que espalha também.
O que eu quero dizer com espalha-brasas, para as pessoas terem a noção, é que realmente é um jogador que agita o jogo. Agita o jogo e cada jogo que faz, fica mais consistente e quanto mais fisicamente tu estás bem e quanto mais a tua rotina de jogo, a tua competitividade vai aumentando, as suas qualidades também vão aumentando. Não é em cinco, 10 ou 20 minutos que tu mostras a tua qualidade. Nota-se que aqui ou acolá, parece que este jogador tem coisas, mas quando começas a vê-lo a jogar 90 minutos, 85, 80 minutos, com esta qualidade que ele está a demonstrar, eu diria, entre aspas, digo eu, que é o Prestianni mais 10. Já ninguém está a ver o Prestianni no banco que não seja a titular. Grande jogo que faz, 2 x 1, e esperava-se que o Benfica tivesse já o jogo na mão, porque jogar no Estádio da Luz e o Académico de Viseu já com algum tempo de jogo, não iria aguentar o ritmo da partida. O que é certo é que o Académico de Viseu encheu-se de bravura.
Primeiro foi extremamente eficaz pelos pés, primeiro de Clóvis, que foi um dos melhores marcadores do campeonato da Segunda Liga o ano passado, mas também aqui com um gol que chegou de bola parada e começa a ser determinante também as bolas paradas. Bem sabemos que Xabi Alonso, por exemplo, agora para o Chelsea, contratou um homem só pra isso.
Sim, mas deixa-me dizer aqui uma coisa que eu acho que não é bem verdade. É que o segundo gol não é nada de uma bola parada. O segundo gol é de um lançamento que é passado a um colega seu, que tem a bola e aí já não é bola parada nenhuma, aí realmente é a jogada. E se nós virmos bem, o lateral direito do Académico de Viseu, o Robinho Faz um cruzamento de banana, como se costuma dizer, com um corte fantástico, com força, em que era só preciso alguém se antecipar à defesa do Benfica, porque a defesa do Benfica estava a jogar completamente em linha, sem que o jogador que ia fazer o cruzamento tivesse alguma oposição. Cruzou quando e como quis e foi só antecipar o Clóvis, a defesa do Benfica, pra marcar o gol. É um gol que realmente o Benfica não pode consentir, porque deu todas as oportunidades do Académico de Viseu, que fez o lançamento, dar a bola ao jogador que fez o cruzamento, sempre à vontade, o cruzamento e depois a antecipação do jogador. Enfim, foi um gol muito facilitado, mas com muito mérito do Académico de Viseu. E depois entra-se naquela fase que já sabe como é, naqueles últimos minutos, 10, 12, 14, 15 minutos, em que o Benfica vai com tudo, aposta com tudo, e aí faltou também forças ao Académico de Viseu pra chegar um pouquinho mais à frente, porque também já não tinha capacidade física pra isso. E então aí entra o espírito de sacrifício, o espírito de união, uma pontinha de sorte, o guarda-redes, um central que tira a bola em cima do risco da baliza, digo eu que não foi isso que aconteceu, mas que acontece muitas vezes. Eu diria que realmente foi o espírito do grupo que fez com que o Académico de Viseu se aguentasse até o fim. Dois a dois, um resultado amargo para o Benfica, como é evidente. Joga em casa, depois de saber que o Porto tinha ganho dois a zero, que o Sporting tinha empatado dois a dois, que também estava a ganhar dois a zero e deixou-se empatar com o Gil Alame da Hora dois a dois. Repara só nisto, o Porto, na primeira jornada, ganha pontos a Sporting, a Benfica e a Braga. Aos quatro considerados maiores, o Porto já tem dois pontos de avanço.
E curiosamente, pra além do Porto que marcou dois gols e não sofreu nenhum, todas as equipes empataram dois a dois.
É verdade, empataram dois a dois.
Eu não sei, temos que ligar ao Roberto Martínez pra perguntar o que isso quer dizer em numerologia.
Mas deixa-me dizer também, pra quem viu o jogo do Porto, grande Diogo Costa, porque lá está a tal coisa, é que o Porto pode ter aquele tipo de jogo, mas nos momentos em que pode sofrer gols, tem lá um grande guarda-redes que lhe dá essa possibilidade de manter a baliza a zero. Por isso, a frustração do Benfica é grande, de toda a gente. Dá uma sensação de que na quinta-feira, na Escócia, o Marco Silva vai trocar ali quatro, cinco, seis jogadores, porque estes jogadores que jogaram hoje foram aqueles que jogaram com o Hearts. Fazer três jogos seguidos com a mesma equipe, penso que no início da época, está bem, digam: "Ah, estamos no princípio da época, os jogadores estão cheios de força." Mas a questão não é essa, a questão depois é teres que recuperar três jogos depois pro outro jogo do campeonato. Penso que é isso que vai acontecer, que o Marco Silva vai fazer isso até por ter sido um resultado seis a um, de seis um. Mas diria que eu vejo coisas no Benfica, sinceramente, que este resultado a mim não me diz nada.
Não transparece o Benfica.
Não, o Benfica está com uma maneira de jogar completamente diferente e quando aquilo estiver mais bem consolidado, o Benfica vai ser uma equipe temível.
Augusto Inácio, temos pra fechar, saber o que é que vai ser o melhor e o pior. Vamos começar pelo pior, pra fechar a nota positiva. O que foi o pior deste Benfica 2, Académico de Viseu, também 2?
Olha, claramente que é as bancadas vazias. Pra mim é sempre o pior, um jogo sem espectadores, realmente não tem cabimento, não é a alma do jogo, os adeptos estarem aí e não estarem, por isso, pra mim foi o pior.
E pra fechar, o que é que foi, na tua opinião, Augusto Inácio, o melhor na noite de hoje? Neste Benfica 2, Académico de Viseu, também 2.
Muita coisa. Olha, começo por o melhor, os adeptos do Benfica por fora, a apoiar a equipe do Benfica. Acho que é um excelente sinal pra os jogadores e pro treinador, que os adeptos acreditam neles e estiveram por fora em grande número, mesmo não estando no estádio, a apoiar o Benfica. Depois o Académico de Viseu, que subiu agora à Primeira Divisão 37 anos depois, faz esse excelente resultado no Estádio da Luz, por muito mérito também, e por isso também teve esse sabor. Ganhou um ponto, mas acho que ganhou mais que um ponto. Ganhou um ponto, ganhou uma equipe, ganhou uma motivação muito grande. Depois outra coisa positiva também, a conferência de imprensa do treinador do Académico de Viseu, o Bruno Pinheiro. Não é a questão de ser bonito, é uma questão de uma pessoa olhar para as declarações e dizer assim: "Pá, que outros treinadores olhem pra isto de uma forma tão limpa, tão transparente, tão genuína, tão séria."
Total ausência de orgulho, e falamos do mau orgulho, aquele orgulho que não deixa reconhecermos muitas vezes aquilo que é a realidade. Neste caso aqui, não foi hipócrita o treinador do Académico e disse que fez toda a diferença não haver adeptos nas bancadas em benefício do Académico.
Claramente, foi claro quanto a isso, foi claro quanto à falta de ritmo de jogo da Segunda Liga pra Primeira, que alguns jogadores têm. Foi dizer que se calhar o Benfica na primeira parte podia estar a ganhar por uma diferença de três, quatro gols. Ele foi genuíno em tudo e quando as pessoas são genuínas, merecem realmente o meu aplauso.
Feito e entregue o relatório de jogo do Benfica 2, Académico de Viseu também 2, o primeiro relatório da época, e esperamos nós de muitos, do nosso caro Augusto Inácio. Foi um gosto, Augusto. Um abraço. Até à próxima.
Um abraço também.