BEV, HEV, PHEV, REEV... afinal, que carro é que está a comprar?
Comprar um carro já não é apenas escolher entre gasolina, gasóleo ou elétrico. A eletrificação trouxe uma verdadeira sopa de letras ao mercado: ICE, MHEV, HEV, PHEV, REEV, BEV ou FCEV. Parecem apenas siglas, mas escondem formas muito diferentes de colocar um automóvel em movimento.
Afinal, o que distingue todos estes automóveis?
Durante décadas, o funcionamento de um automóvel era simples: depósito, motor de combustão e transmissão a levar a força às rodas.
A eletrificação veio complicar este cenário, dando origem a soluções muito diferentes, desde um motor elétrico que apenas apoia o motor a gasolina, passando por veículos capazes de andar alguns quilómetros só a eletricidade, híbridos plug-in, até modelos em que o motor a gasolina nunca chega a estar ligado às rodas.
É esta última diferença que mais confunde as classificações, e é isso que vamos esclarecer.
ICE: Internal Combustion Engine
É o automóvel tradicional com motor de combustão interna. A energia armazenada no combustível é convertida pelo motor em energia mecânica e transmitida às rodas.
Pode utilizar gasolina, gasóleo ou outros combustíveis, mas não depende de uma bateria de tração para circular.

É a arquitetura que dominou o automóvel durante mais de um século.
MHEV: Mild Hybrid Electric Vehicle
Aqui começa a eletrificação. Um MHEV, normalmente chamado híbrido ligeiro ou Mild Hybrid, continua a depender essencialmente do motor de combustão, mas acrescenta um pequeno sistema elétrico.
São comuns arquiteturas de 48 V, embora existam outras soluções. O sistema pode recuperar energia nas desacelerações e ajudar o motor térmico nas acelerações, reduzindo consumo e emissões. Não precisa de ser ligado à tomada.

Ou seja, um Mild Hybrid é eletrificado, mas está bastante longe de ser um automóvel elétrico.
HEV: Hybrid Electric Vehicle
É aquilo a que normalmente chamamos híbrido convencional. Um HEV possui motor de combustão, um ou mais motores elétricos e uma bateria de tração. Ao contrário de um Mild Hybrid, o sistema elétrico pode ter capacidade para movimentar sozinho o automóvel durante determinados períodos.
A grande particularidade é que não existe ficha para carregar a bateria.
A energia elétrica é recuperada durante travagens e desacelerações e pode também ser gerida pelo próprio sistema híbrido. É precisamente assim que o Alternative Fuels Data Center descreve os HEV.

É a tecnologia que marcas como a Toyota ajudaram a massificar.
PHEV: Plug-in Hybrid Electric Vehicle
O PHEV é também híbrido que traz uma diferença fundamental: pode ser ligado à tomada. Possui uma bateria significativamente maior do que um HEV, permitindo percorrer distâncias consideráveis utilizando exclusivamente eletricidade.
Quando a bateria atinge determinado nível, o motor de combustão pode entrar em funcionamento e o automóvel continua a circular como híbrido.
Os PHEV possuem motor elétrico e motor de combustão e podem assumir diferentes configurações mecânicas. Num híbrido paralelo, por exemplo, ambos podem estar mecanicamente ligados às rodas.

É uma solução pensada para permitir utilização diária elétrica sem eliminar a possibilidade de realizar grandes viagens utilizando combustível.
REEV/EREV: Range Extended Electric Vehicle
Aqui as coisas tornam-se particularmente interessantes. Um REEV ou EREV é um veículo elétrico de autonomia estendida. Tem bateria, motor elétrico, ficha para carregamento e também um motor de combustão.
Parece um PHEV. Mas existe uma diferença essencial na arquitetura clássica: o motor de combustão não movimenta as rodas.
A propulsão é elétrica. O motor a gasolina funciona essencialmente como um gerador para produzir eletricidade quando é necessário prolongar a autonomia. Esta configuração corresponde à arquitetura híbrida em série.
É uma diferença pequena no papel, mas enorme do ponto de vista técnico.
Num PHEV convencional, o motor térmico pode participar diretamente na propulsão. Num REEV em série, o motor térmico produz eletricidade; quem continua a fazer o trabalho de tração é o motor elétrico.

Há, contudo, alguma sobreposição terminológica entre REEV/EREV e PHEV em determinadas classificações e arquiteturas, pelo que nem todos os fabricantes utilizam estas siglas exatamente da mesma forma.
BEV: Battery Electric Vehicle
Este é o automóvel que normalmente designamos simplesmente como elétrico. Não existe motor de combustão, depósito de gasolina ou gasóleo nem sistema de escape associado à propulsão.
A energia fica armazenada numa bateria de alta tensão e alimenta um ou vários motores elétricos.
O Alternative Fuels Data Center define precisamente os BEV como veículos que funcionam sempre em modo totalmente elétrico e cuja bateria é carregada através de equipamento externo.

Tesla Model Y, XPENG G6, Hyundai IONIQ 5 ou Volkswagen ID.4 são exemplos conhecidos desta arquitetura.
FCEV: Fuel Cell Electric Vehicle
Existe ainda outra forma de produzir eletricidade a bordo: hidrogénio. Os FCEV são veículos elétricos com pilha de combustível.
Transportam hidrogénio comprimido em depósitos e utilizam uma reação eletroquímica entre o hidrogénio e o oxigénio para produzir eletricidade.
Essa eletricidade alimenta o motor elétrico e uma pequena bateria funciona normalmente como acumulador intermédio de energia.

Toyota Mirai e Hyundai Nexo são dois dos exemplos mais conhecidos.
Então qual é realmente a diferença?
Há uma forma bastante simples de olhar para todas estas tecnologias:
| Tecnologia | Combustível | Tomada | Pode circular só com eletricidade | Quem pode movimentar as rodas |
|---|---|---|---|---|
| ICE | Sim | Não | Não | Motor térmico |
| MHEV | Sim | Não | Geralmente não | Principalmente motor térmico |
| HEV | Sim | Não | Sim, de forma limitada | Térmico e/ou elétrico |
| PHEV | Sim | Sim | Sim | Térmico e/ou elétrico |
| REEV/EREV | Sim | Sim* | Sim | Motor elétrico |
| BEV | Não | Sim | Sempre | Motor elétrico |
| FCEV | Hidrogénio | Normalmente não | Sempre | Motor elétrico |
*Na configuração moderna mais comum de autonomia estendida, embora existam diferentes implementações e classificações.
A pergunta que acaba com a confusão
Quando aparecer uma nova sigla, há três perguntas que ajudam imediatamente a perceber que automóvel temos à frente:
Tem motor de combustão? Pode carregar a bateria numa tomada? E, sobretudo, quem está fisicamente a fazer girar as rodas?
É esta última pergunta que separa tecnologias aparentemente semelhantes.
Num ICE, são sempre o motor térmico e a transmissão. Num BEV, é sempre o motor elétrico. Num PHEV, podem ser ambos. E num REEV em série, mesmo quando ouvimos um motor a gasolina a trabalhar, este está essencialmente a produzir eletricidade: a tração continua nas mãos do motor elétrico.
No meio de tantas siglas, esta talvez seja a forma mais simples de perceber para onde está realmente a evoluir o automóvel.