"Borlas" imobiliárias em Cascais? "Pornográficas". O que está em causa

🗓️ 2026-10-15 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

A Câmara Municipal de Cascais terá dado milhões em "borlas" imobiliárias. Segundo a revista Sábado, a autarquia distribuiu milhões em isenções milionárias a empreendimentos de luxo, com o Ministério Público (MP) a impugnar decisões de Miguel Pinto Luz, antigo vice-presidente da Câmara e atual ministro das Infraestruturas.

Em causa estão várias "borlas" dadas pelo município a promotores imobiliários no concelho e que, de acordo com a publicação, só entre 2021 e 2016 totalizaram "10 milhões de euros".

Na contabilização da revista Sábado, desde 2021, sem contar com as que estão para trás, referem-se as isenções de 1,3 milhões para a Poetikdiscovery num hotel e apartamentos em Carcavelos, 1,1 milhões para a Aquatecnica e um empreendimento na Marginal, 1,3 milhões à Greatflags num hotel e residência sénior ou 2,1 milhões num campus da saúde da CUF.

Isenções para projetos de luxo? "Insultuosas" e "pornográficas"

Estas isenções de avultadas compensações urbanísticas a empreendimentos de luxo no município de Cascais são consideradas insultuosas e "pornográficas" por vereadores da oposição no executivo, apesar de o atual presidente da câmara justificar que se baseia num regulamento.

"Tendo em conta que isto representa um valor que podia ter sido investido em habitação, em habitação pública acessível, é particularmente insultuoso", comentou à Lusa João Maria Jonet, sobre o tema.

Já o vereador socialista João Ruivo considerou (e questionou) à Lusa: "Estas benesses são pornográficas. São uma coisa que não tem explicação. E mais, que é a única parte que é importante, que é qual é o benefício que Cascais e os cascaenses recebem por a câmara isentar estas empresas deste pagamento?"

Para o líder do movimento Jonet - Cascais para Viver, no caso da isenção da taxa de compensação ao empreendimento Penha Longa Elite Villas, aprovado no executivo, mas chumbado na assembleia municipal, "mesmo a razão pela qual as contrapartidas deviam ser pagas é insultuoso", por se tratar "de um empreendimento que cortou imensas árvores" e o estudo de impacto "concluiu que já não havia património para destruir".

"E depois, quando tem que pagar um milhão e tal de euros por compensação ao facto de não ter construído espaços verdes, nem isso paga", acrescentou João Maria Jonet, embora neste caso situado no Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC) a proposta de isenção de 1,2 milhões de euros tenha sido recusada pelos deputados municipais da oposição, após a maioria PSD/CDS-PP que governa o município se abster.

Embora a isenção se tenha fundamentado num regulamento municipal de taxas e compensações, para o autarca da oposição "o regulamento não é relevante" e "os políticos têm que ter a vergonha de não aprovarem estas medidas que ninguém percebe".

No próprio dia da assembleia municipal, Jonet publicou um vídeo no qual denunciava a proposta de isenção da "maioria PSD-CDS-Chega, que governa a Câmara de Cascais" no PNSC e incluía uma citação do presidente da autarquia, Nuno Piteira Lopes (PSD), a explicar que se tratava "apenas e exclusivamente o cumprimento de um regulamento que está em vigor".

O regulamento, acrescentou Piteira Lopes, "permite que o promotor faça esta solicitação" e que a "câmara tome a mesma medida, o mesmo caminho do que já foi seguido para o mesmo tipo de pedidos, no mesmo tipo de situações".

Por seu lado, o socialista João Ruivo admitiu que "o regulamento municipal prevê que possam haver algumas exceções ao pagamento das compensações", mas destina-se a instituições ou associações culturais que "não têm capacidade nem de ceder" para espaços verdes ou sem "capacidade financeira para o pagar".

"Alguém aproveitou essa possibilidade para alargar o âmbito a empresas privadas que lucram milhões com os apartamentos e que, mesmo assim, a câmara lhes dá milhões de benesse", apontou o socialista, considerando, no entanto, que a autarquia "não é obrigada a aceitar, só porque está prevista a possibilidade num regulamento".

Além disso, foi apresentada nas instâncias europeias uma queixa "porque essa benesse pode ser considerada como uma ajuda de Estado", colocando em causa a concorrência, por se privilegiar um promotor "em detrimento" de outro.

O Notícias ao Minuto contactou a Câmara Municipal de Cascais no sentido de obter mais informações e, até ao momento de publicação deste artigo, não obteve resposta.

Miguel Pinto Luz: "Tenho muito gosto de ir à Assembleia da República"

Por sua vez, o ministro, questionado sobre a notícia da revista Sábado, segundo a qual o novo regime jurídico da Urbanização e Edificação (RJUE) e da Reabilitação Urbana (RJRU), aprovado em maio pelo Governo, encurtou prazos para impugnar licenciamentos, podendo impedir a contestação a decisões tomadas enquanto vice-presidente da Câmara de Cascais, disponibilizou-se para esclarecimentos no Parlamento.

"Não, não foi feita à medida, é um decreto-lei generalizado. Estou absolutamente tranquilo com essa dimensão e tenho muito gosto de ir à Assembleia da República, as vezes que forem entendidas, já fui muitas e continuarei a ir", assegurou Pinto Luz, questionado sobre o assunto na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros.

O PS pediu uma audição parlamentar urgente do ministro da Habitação e Infraestruturas por suspeitar de conflito de interesses na aprovação do novo regime de reabilitação urbana, alegando que o governante pode ter beneficiado dessas alterações, nomeadamente no caso do Hotel Hilton, na Parede, embargado pelo Ministério Público.

Também o Bloco de Esquerda requereu a audição urgente no Parlamento de Miguel Pinto Luz sobre o RJRU, considerando que o diploma suscita dúvidas de isenção.

Lei de Pinto Luz é um

Lei de Pinto Luz é um "fato à medida", acusa vereador de Cascais

Vereadores da oposição no executivo municipal de Cascais não estranham as suspeitas sobre conflitos de interesses do ministro Miguel Pinto Luz na alteração de legislação urbanística, mas o governante recusou que o diploma tenha sido feito à sua medida.

Lusa | 20:47 - 14/10/2026