Brasil e China querem mudar como imagens de satélite chegam ao usuário
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Comprar uma imagem de satélite, contratar uma empresa para desenvolver um algoritmo, processar os dados em terra e só então receber as informações. Esse é o caminho percorrido hoje por quem precisa usar imagens espaciais para monitorar uma lavoura, acompanhar o nível de um reservatório ou identificar um vazamento ambiental. Uma parceria entre uma empresa brasileira e outra chinesa quer encurtar esse processo: e, na prática, mudar o modelo de negócios do setor.
A brasileira Concert Space e a chinesa Star.Vision assinaram, nesta quarta-feira, durante o Rio Innovation Week, um memorando de entendimento para desenvolver tecnologias capazes de processar imagens diretamente em órbita, antes mesmo que elas sejam enviadas para a Terra. Segundo Rafael Mordente, CEO da Concert Space, a inovação não está apenas na velocidade do processamento, mas na forma como a informação passa a ser produzida:
“|A diferença entre fazer o processamento em solo e fazer em órbita é uma mudança no modelo de negócio do tratamento de imagens satelitais. Hoje, quem precisa de uma informação primeiro compra a imagem, depois contrata uma empresa para desenvolver um algoritmo capaz de extrair os dados. Essa empresa, por sua vez, precisa adquirir a imagem de um fornecedor. Só então a informação chega ao usuário”.
Rafael Mordente explica que o novo modelo elimina praticamente todas essas etapas:
“Quando colocamos o algoritmo dentro do satélite, ele passa sobre a área de interesse e já extrai as informações necessárias. Não é preciso vender a imagem nem fazer o download dos dados. O satélite envia diretamente o resultado para o usuário”.
Na prática, isso significa que um produtor rural, por exemplo, interessado em saber o estado de irrigação de uma plantação ou até mesmo estimar o número de cabeças de gado em sua propriedade poderá receber a informação pronta, sem precisar acessar ou processar imagens brutas.
O mesmo princípio pode ser aplicado em diferentes setores. Entre as possibilidades citadas pela Star.Vision estão ainda o monitoramento de lavouras, a fiscalização de obras e rodovias e até a identificação de vazamentos em instalações de petróleo.
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“O beneficiário deixa de comprar imagens para comprar informação”, resume Mordente.
A primeira aplicação da parceria será justamente nessa área. O algoritmo brasileiro YaraTracker, desenvolvido pela Concert Space em parceria com a Embrapa Territorial, será embarcado na constelação de satélites da Star.Vision para monitorar corpos d’água e áreas de piscicultura no Brasil.A expectativa é reduzir o intervalo entre a passagem do satélite e a entrega dos dados aos usuários, permitindo decisões mais rápidas em atividades que dependem de informações atualizadas.
Para Lucíola Magalhães, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Territorial, a tecnologia pode representar um avanço importante para a gestão dos recursos hídricos no Brasil:
“Gerenciar recursos hídricos em um país de dimensões como o Brasil exige dados precisos e agilidade na obtenção e interpretação. Levar o processamento de inteligência artificial para dentro dos satélites com o objetivo de monitorar a água e a piscicultura praticamente em tempo real é um grande desafio, mas que muito nos anima.”
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A cooperação também prevê a transferência de conhecimento entre as equipes. O cientista de dados João Pedro Klock, da Concert Space, participa de um treinamento na China, onde acompanha atividades técnicas da Star.Vision, incluindo o lançamento de dois satélites hiperespectrais da empresa.
Especializada em satélites com inteligência artificial embarcada e computação de bordo, a Star.Vision considera o acordo seu primeiro grande projeto na América do Sul. Para Bruce Wei, gerente de Negócios da empresa para a região, a parceria pode contribuir para ampliar a inovação no setor espacial brasileiro e formar novos profissionais na área.
O presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antônio Chamon, também destacou a importância da cooperação internacional para o fortalecimento da indústria espacial nacional.
Além da aplicação imediata no monitoramento ambiental, a Concert Space vê o projeto como um passo rumo a um objetivo maior: desenvolver aplicações nacionais para satélites definidos por software, capazes de receber novas funções mesmo depois de lançados ao espaço. Segundo a empresa, o avanço do Microlançador Brasileiro (MLBR) poderá, no futuro, permitir que tecnologias desenvolvidas no país também sejam colocadas em órbita por uma plataforma nacional.
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