Brasil é pego de surpresa com decisão contra PCC e CV - 22/09/2026 - Cotidiano - Folha

🗓️ 2026-09-22 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

O governo brasileiro ainda avalia o conteúdo da declaração emitida nesta terça-feira (22) pela aliança Escudo das Américas. No documento, países com gestões de direita da América Latina aderem à decisão dos EUA de designarem grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

A diplomacia brasileira desconhecia a possibilidade do documento e foi pega de surpresa com o comunicado emitido às margens da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Tudo ocorreu durante a tarde, após o discurso dos presidentes Lula (PT) e Donald Trump.

Por outro lado, um setor que falou sob reserva com a reportagem diz não se surpreender com a decisão e considerar os efeitos colaterais reduzidos. Mencionam, por exemplo, o presidente da Argentina, Javier Milei, que já costumava se referir a organizações do tipo como narcoterroristas, e ao que chamam de uma subserviência desses países com Washington. E dizem que a preocupação existente é o uso da força na região, algo que não depende da nova declaração.

O documento menciona medidas como congelamento de ativos, restrições de visto e responsabilização criminal de pessoas que forneçam apoio material aos grupos criminosos —além das organizações brasileiras, há mais de duas dezenas de outras da região que também foram incluídas, como a equatoriana Los Lobos.

A iniciativa também chama atenção pelo momento político. A declaração é apoiada por um grupo de países de governos alinhados a Trump e ocorre a poucas semanas das eleições brasileiras, em um período de tensão nas relações entre Brasília e Washington. Fere, também, as constantes declarações de Lula no início do mandato afirmando que seria um líder regional; os anos que se seguiram mostraram o isolamento dos governos de esquerda na região.

A segurança pública ocupa papel central no debate eleitoral brasileiro, o que amplia a repercussão doméstica de qualquer iniciativa americana relacionada ao combate ao crime organizado.

Os países que assinam a declaração, integrantes do Escudo das Américas, uma aliança de nações com governos conservadores criada pelo governo Trump, são Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

São todos, em menor ou maior grau, aliados de Trump. Em seu discurso durante a reunião na ONU, o republicano fez clara menção a isso e colocou seu apoio a esses presidentes como fundamental para que tenham sido eleitos.

"Apoiei alguns de vocês, e conquistamos grandes vitórias eleitorais" disse ele. "Acho que meu placar é de nove vitórias em nove disputas: todos que apoiei venceram. Estamos vencendo muito. Estou com vocês até o fim e farei tudo o que estiver ao meu alcance."

Ele mencionou, especificamente, as vitórias de Abelardo de la Espriella na Colômbia e de Milei na Argentina.

A classificação de organizações criminosas como terroristas permeou os discursos de Trump e Lula na ONU, em meio ao aumento da pressão dos EUA sobre países da região para supostamente endurecer o combate ao crime organizado.

Trump afirmou que, ao assumir o cargo, classificou oficialmente cartéis de drogas como organizações terroristas e comparou esses grupos ao "Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental". Segundo o republicano, as organizações criminosas são "inimigos em guerra contra a civilização".

O PCC e o Comando Vermelho passaram a integrar essa classificação no fim de maio deste ano. Na semana passada, em um relatório anual, Trump voltou a cobrar do Brasil medidas mais duras contra o crime organizado e afirmou que o país precisa intensificar seus esforços para garantir a segurança. O documento foi recebido com preocupação pelo governo Lula.

Em seu discurso nesta terça, o brasileiro rebateu a lógica de uma atuação externa na região e afirmou que o Brasil não pretende terceirizar a responsabilidade pela defesa de suas fronteiras e pela segurança da população.

"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime", disse. "Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior."