Economia estagnada, o debate da imigração e a ambição da devolução. Burnham chega ao Governo com muitos obstáculos, mas o apoio do Labour
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▲Depois da consagração como líder do Labour, Burnham chega a primeiro-ministro esta segunda-feira
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▲Depois da consagração como líder do Labour, Burnham chega a primeiro-ministro esta segunda-feira
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Madalena Moreira
Texto
Tem carisma e experiência política, mas Andy Burnham chega ao Governo sem concretizar propostas nem revelar ministros. Especialistas anteveem lua-de-mel — mas a "paciência" do Labour pode esgotar-se.
19 jul. 2026, 16:17
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“Ao fim de 25 anos como representante eleito do Labour, e sabendo o que quero ao trabalhar com todos vocês, eu tenho um plano”. A ambição de Andy Burnham em chegar à liderança do Partido Trabalhista nunca foi secreta, o caminho para a alcançar foi longo, mas o objetivo foi finalmente cumprido. Foi com estas palavras que, na passada sexta-feira, o deputado trabalhista sucedeu oficialmente a Keir Starmer à frente dos trabalhistas. Esta segunda-feira, irá entrar pela primeira vez como inquilino no número 10 de Downing Street.
A partir daí — e apesar da promessa feita no seu primeiro discurso — o seu “plano” para o Reino Unido é menos claro. Nas semanas desde que Starmer apresentou a demissão, Andy Burnham foi esparso nos discursos e entrevistas, não apresentou qualquer programa público ou desvendou qualquer um dos nomes que o vai acompanhar no Governo britânico até, se tudo correr como previsto, ao verão de 2029. Entre as poucas informações que foi revelando, destaca-se o seu foco na devolução, a transferência de competências do poder nacional para o poder local.
Contudo, a ambiguidade que Burnham tem mantido não surpreende os analistas britânicos ouvidos pelo Observador. Em causa está o facto de quer a estratégia de devolução, quer o plano para uma recuperação e crescimento económico serem projetos a longo prazo — a dez anos, mais precisamente, segundo Burnham — que não podem ser detalhados enquanto Burnham não se instalar, efetivamente, em Downing Street.
▲ A pressão para Starmer se demitir acumulava-se há semanas dentro do Labour
NEIL HALL/EPA
Isto não quer dizer, no entanto, que o novo líder trabalhista se possa dar ao luxo de esperar para ver os frutos das suas suas ambições. Burnham chega a Whitehall quando as sondagens não dão mais de 25% das intenções de voto ao Labour, um dos piores resultados de sempre dos trabalhistas, e é imperativo que apresente resultados concretos o mais rapidamente possível. Não só para melhorar a sua posição perante os eleitores, mas para provar aos deputados trabalhistas que o “golpe” que levou à queda de Starmer foi justificado.
Neste contexto, a tomada de posse desta segunda-feira põe a contar um relógio que definirá o seu futuro político: por um lado, o novo primeiro-ministro tem de conseguir criar um primeiro impacto que marque um claro distanciamento da governação de Keir Starmer. Por outro, tem de conseguir equilibrar as diferentes fações do Labour para conseguir levar avante os seus planos a longo prazo. Mas uma questão fica por responder: quando é que o tempo nesse relógio se vai esgotar?
Recuperação económica é o maior desafio, Burnham vê a chave na devolução
“Número 10 Norte“. Desde que Burnham anunciou a sua pretensão à liderança do Executivo, esta foi a medida mais concreta que apresentou, num discurso feito uma semana depois da demissão de Keir Starmer, na sua terra natal de Manchester. Tal como o nome indica, o objetivo é a deslocalização da sede do Governo de Londres para Manchester, que geograficamente, tem uma posição mais central no país.
Crítico de Thatcher e defensor do “socialismo amigo das empresas”. Quem é Andy Burnham, o “Rei do Norte” que pode suceder a Starmer?
“O objetivo é fazer o poder fluir para o centro, o sudoeste, o leste de Inglaterra, e Londres, tanto como no nordeste, no Yorkshire & Humber e aqui no noroeste”, justificou o antigo autarca da área metropolitana de Manchester. A criação de um novo centro de poder é um pilar do projeto de devolução, que Burnham já tinha vindo a defender como presidente da Câmara.
"O Governo Starmer fez coisas que muita gente que abandonou o Labour iria gostar. O problema é que foi muito mau a comunicá-las."
Steven Fielding, professor de História Política da Universidade de Nottingham e especialista no Partido Trabalhista
No mesmo discurso, Burnham defendeu que a devolução é a resposta para resolver a questão que os analistas ouvidos pelo Observador apontam de forma unânime como o tópico mais desafiante para o novo primeiro-ministro: a economia. Na última década — desde o Brexit —, o Reino Unido deparou-se com um período de estagnação económica que sucessivos governos conservadores e o mais recente trabalhista foram incapazes de resolver. “O Número 10 Norte vai apoiar as regiões em três tarefas claras: reforma das infraestruturas essenciais, reindustrialização e regeneração dos locais”, justificou.
Com o foco colocado nesta “missão a dez anos”, Burnham ainda não levantou o véu sobre como irá lidar com algumas das decisões financeiras mais polémicas dos dois anos de Starmer como primeiro-ministro: a tentativa de reforma da segurança social, com cortes de subsídios e benefícios de incapacidade, o aumento de impostos no valor de 26 mil milhões de libras, ou o mais recente aumento do orçamento com a Defesa.
Steven Fielding recusa, contudo, que a única grande falha de Keir Starmer tenha sido a disciplina fiscal implementada — que gerou um tornado de críticas pela fação mais à esquerda dos trabalhistas. O professor de História Política da Universidade de Nottingham e especialista no Partido Trabalhista realça que, enquanto liderou o Governo, Starmer também investiu no poder local e apostou no setor público, dando como exemplos a nacionalização da British Steel e a renacionalização de linhas de caminhos de ferro. “O Governo Starmer fez coisas que muita gente que abandonou o Labour iria gostar. O problema é que foi muito mau a comunicá-las”, expõe ao Observador. Se esse foi o grande obstáculo de Starmer, então Burnham pode ser a solução para o ultrapassar.
▲ Nas eleições locais, Burnham fez da "esperança" lema de campanha
ADAM VAUGHAN/EPA
O “otimismo” de Burnham e o custo de vida são a chave para “captar a atenção dos eleitores”
Quando no dia 5 de julho de 2024 o Labour venceu as eleições legislativas, Keir Starmer terminou a noite com um agradecimento aos eleitores pela confiança e um alerta. “Não prometo que vá ser fácil. Mudar um país não é como clicar num interruptor. É um trabalho árduo, paciente, firme“, declarou. As palavras utilizadas pelo primeiro-ministro foram utilizadas uma e outra vez ao longo dos últimos anos e ditaram o tom para a sua governação: “depressiva”, “pessimista”, “sombria”, classificam os especialistas ouvidos pelo Observador.
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A postura de Andy Burnham na política é totalmente diferente: é “positiva” e “esperançosa” — no discurso do dia 29 de junho em Manchester, Burnham utilizou nove vezes a palavra “esperança” ou “esperançoso”. A comparação marca uma diferença pessoal entre os dois líderes: Starmer é um advogado de formação, com uma postura mais séria e institucional, Burnham entrou na política em 2001 e navegou-a desde aí, onde ficou conhecido pela sua abordagem informal e personalizada junto dos seus eleitores.
Mas esta diferença também se estende ao estilo de comunicação. Se para Starmer, a sua comunicação era a sua maior fraqueza, para Burnham é o seu maior trunfo. Para John Curtice, esta característica pode ser o passe para o sucesso durante os seus primeiros tempos no Governo, enquanto estabelece as bases para avançar com os seus planos a longo prazo.
"Talvez ele já tenha uma ou duas políticas que chamem a atenção, mas o ponto crucial é que também tem uma frase que as pessoas se possam lembrar, uma frase que expresse uma visão diferente da de Starmer."
John Curtice, académico e analista de política britânica
“Talvez ele já tenha uma ou duas políticas que chamem a atenção, mas o ponto crucial é que também tem uma frase que as pessoas se possam lembrar, uma frase que expresse uma visão diferente da de Starmer”, argumenta o académico e analista de política britânica ao Observador. Ou seja, é mais provável que Burnham utilize as primeiras semanas em Whitehall para comprovar uma mudança de ritmo em relação a Starmer e não para fazer “anúncios particularmente inovadores”.
Este período é decisivo para captar a atenção dos eleitores, notam os especialistas, e Burnham tem uma “janela curta” para o fazer. Isto porque, com a chegada das férias de verão — e “tirando os 5% da população que são obcecadas com política — a atenção [dos eleitores] vai estar noutro lado”, ironiza John Curtice. Além da retórica, Andy Burnham deverá também apresentar medidas para fazer frente ao custo de vida, mais especificamente a eliminação de impostos sobre o combustível e a eletricidade, avança o The Telegraph. Apesar de estas medidas não terem um impacto profundo na economia, podem aliviar o bolso dos eleitores o suficiente para “captar a sua atenção”.
Mas a chegada do verão também pode funcionar a favor de Burnham. Com os trabalhos no Parlamento suspensos e a atenção das pessoas dedicadas a outros temas, o novo primeiro-ministro poderá utilizar as primeiras semanas no cargo para “se afirmar”: dedicar-se a discursos (à retórica), a visitas a regiões do interior, que diz terem sido esquecidas por Londres, fazer pequenos anúncios relativos ao custo de vida, enquanto, nos bastidores, desenvolve planos concretos para os seus projetos mais ambiciosos.
▲ A suspensão do Parlamento durante o verão, dá espaço a Burnham para se "afirmar" em Downing Street
EPA
A “paciência” do Labour para Burnham apresentar resultados pode estender-se até ao final do ano
Poucas semanas depois de Keir Starmer ter chegado a primeiro-ministro, as sondagens já mostravam o Labour em queda, uma tendência que se acentuou ao longo dos dois anos que se seguiram e que acabou por conduzir à sua queda, devido a pressões internas. A sua demissão motivou um ligeiro aumento do Labour nas sondagens (quatro pontos percentuais entre as sondagens da Ipsos de maio e junho), que Andy Burnham pode agora capitalizar, ao utilizá-lo como “bolha de oxigénio”.
Contudo, o sucesso do Governo britânico não depende apenas das políticas internas anteriormente expostas. O contexto internacional continua igualmente difícil: uma guerra na Europa, outra no Médio Oriente, e, nas palavras de John Curtice, “um homenzinho na Casa Branca que não pára de fazer birras que afetam a economia mundial”. Mesmo que, face as estes constragimentos, Burnham perca este ligeiro crescimento nas sondagens, isso pode não ser a sua sentença de morte às mãos do mesmo Labour que não perdoou Starmer.
“Tendo tomado a decisão de remover Keir Starmer e substituí-lo, as minhas suspeitas é que os deputados do Labour vão ser mais pacientes. Eles vão querer dar a Andy Burnham a oportunidade de mostrar o que consegue fazer”, argumenta Patrick Diamond ao Observador.
"Keir Starmer nunca teve uma coligação de apoiantes dentro do partido. Eram só ministros que por acaso estavam no governo e alguns deputados, mas não havia bem uma coligação em torno de Starmer."
Patrick Diamond, professor de políticas públicas na Queen Mary, University of London e antigo conselheiro do Labour nos governos de Tony Blair
O professor de políticas públicas na Queen Mary, University of London e antigo conselheiro do Labour nos governos de Tony Blair, aponta outra vantagem de Burnham em relação a Starmer: “Keir Starmer nunca teve uma coligação de apoiantes dentro do partido. Eram só ministros que por acaso estavam no Governo e alguns deputados, mas não havia bem uma coligação em torno de Starmer”, pondera. O especialista aponta o oposto no caso de Burnham que, rodeado de aliados, poderá desfrutar, assim, de um período de lua-de-mel — mas este não durará para sempre. Chegado o outono, as rentrées políticas e a aprovação do Orçamento de Estado, Burnham terá de estar a postos para dar provas da sua capacidade. E, em último caso, se chegar a 2027 sem provas dadas, o seu estado de graça pode chegar ao fim.
As políticas de Burnham na imigração podem ser o “starmerismo com rosto humano”
Ainda que a demissão de Starmer tenha feito o Labour subir nas sondagens, isto não foi, contudo, suficiente para os trabalhistas conseguirem ultrapassar o Reform de Nigel Farage, que ocupa agora a liderança das intenções de voto — uma realidade que já se tinha verificado nas eleições locais que espoletaram a queda do primeiro-ministro.
A comparação com o partido da direita radical surge uma vez que foi o seu crescimento que levou o Labour — assim como muitos outros governos do centro-direita e centro-esquerda na mesma situação — a adotar medidas de combate à imigração muito duras. Contudo, num partido ideologicamente tão vasto como o Labour, as políticas de imigração não foram recebidas da mesma forma em todo o espectro. Entre os deputados eleitos no norte de Inglaterra, disputados com os candidatos do Reform, a abordagem é bem-vinda. Entre os deputados mais à esquerda, esta abordagem é uma cedência condenável à narrativa da extrema-direita.
▲ As visões divergentes sobre migrações no Reino Unido são uma das questões mais fraturantes no país
TOLGA AKMEN/EPA
A questão da imigração — a par de outras questões, como por exemplo, a relação com Israel, que Burnham admitiu que devia ser diferente — são temas de pendor menos económico e mais social e que fraturam o Labour — e o Reino Unido. Vai caber também a Burnham saber equilibrar duas visões opostas sobre o tema, que não alienem nenhuma fação do seu partido ou do seu eleitorado.
Por esse motivo, os especialistas ouvidos pelo Observador acreditam que esta será a área onde Burnham estará mais disposto a fazer cedências às exigências ditadas pela maioria do partido, preferindo guardar o seu “capital político” para os temas que considera prioritários. Esta leitura também vai ao encontro da primeira promessa deixada por Burnham esta sexta-feira para tornar o Partido Trabalhista “melhor”. “Vou trabalhar incansavelmente para construir uma cultura de uma única equipa trabalhista, porque a mudança começa connosco”, defendeu.
Na prática, Steven Fielding argumenta que isto se deverá refletir numa manutenção das propostas atuais, sem as reverter, mas sem ceder a pressão para continuar a aprofundar quer as políticas anti-imigração, quer a relação com Israel. “Nesta área em particular, acho que Andy Burnham vai ser um Starmerismo com um rosto humano. As arestas mais afiadas vão ser limadas, vai haver uma melhor apresentação e mais sorrisos“, pondera.
▲ A ministra das Finanças, Rachel Reeves, é considerada uma saída certa do Governo
TOLGA AKMEN/EPA
A saída certa de Reeves, o talvez de Mahmood e o novo cargo no norte. Quem será a equipa de Burnham?
O espírito que Andy Burnham procura imprimir à sua governação tem-se traduzido na construção do seu Governo. Por um lado, Burnham manteve a composição do Executivo tão vaga quanto os seus planos para concretizar a devolução. “Ao contrário do que podem ter lido, ainda não tomei decisões sobre quem vai estar na minha equipa”, declarou na sexta-feira de manhã, adiantando que os nomes só serão mesmo anunciados esta segunda-feira. Por outro lado, prometeu que o Governo irá “refletir todas as partes do partido, todas comunidades, (…) num Partido Trabalhista mais forte, mais unido”, insistindo na necessidade de articular as diferentes ideologias no seio do Labour.
Apesar de ter numerosos aliados dentro do partido, o processo de escolha só estará a ser partilhado com a antiga ministra dos Transportes, Louise Haigh, e o seu chefe de gabinete e antigo colega no Executivo de Blair, James Purnell, escreve o The Guardian, que cita deputados que se referem ao trio como “a caixa negra” dos planos de Burnham. O secretismo com que as nomeações estão a ser conduzidas “está a deixar a maior parte de Westminster à beira de uma paranoia histérica”, descreve o jornal britânico.
Ao Observador, Patrick Diamond realça, contudo, que é comum na política britânica que os nomes só sejam anunciados depois da tomada de posse do primeiro-ministro. Mas mesmo sem anúncios formais, o professor e antigo conselheiro trabalhista reconhece a quantidade de “especulação” sobre o tema, que considera “inevitável”.
▲ A imprensa britânica avança que a ministra da Administração Interna poderá passar para o Ministério das Finanças
ANDY RAIN/EPA
Relativamente a previsões para os ministros de Burnham, os especialistas ouvidos pelo Observador são unânimes em dois aspetos. Em primeiro lugar, deverá haver alguma continuidade entre o Executivo de Starmer e o de Burnham, quanto mais não seja para aproveitar a experiência acumulada dos dois anos que a maior parte dos ministros e secretários de Estado já passou em Whitehall. Por outro lado, apontam como quase certa a saída de Rachel Reeves.
Enquanto ministra das Finanças, Reeves deu a cara pelas políticas fiscais mais controversas do Governo de Starmer e a sua permanência seria profundamente impopular. Steven Fielding olha com atenção para quem irá assumir a pasta da Administração Interna — e para a possibilidade de Shabana Mahmood, que a ocupou até aqui, passar para o Ministério das Finanças. Já John Curtice também admite que haverá uma “reciclagem”, mas questiona-se sobre quem ficará encarregue do “número 10 no norte”, uma vez que se trata de uma “mudança estrutural”.
Os três cargos que despertam mais interesse espelham os três maiores desafios de Burnham, à frente do Labour e do Reino Unido: a recuperação económica, a manutenção (ou não) das controversas políticas de imigração e a implementação do seu ambicioso plano para a devolução.